Pular para o conteúdo principal

Cinco poemas e seis passagens de Orides Fontela no livro Helianto

Orides Fontela (foto daqui


Ode
Orides Fontela

E enquanto mordemos
frutos vivos
declina a tarde.

E enquanto fixamos
claros signos
flui o silêncio.

E enquanto sofremos
a hora intensa

lentamente o tempo
perde-nos.


--------


Impressões
Orides Fontela

Cimo
de palmeira rubra:
                  "vida".

Lago
de amarelo turvo:
             "tempo".

Cubo
de metal opaco:
            "Deus".


--------


Herança
Orides Fontela

O que o tempo descura
e que transfixa

o que o tempo transmite
e subverte

o que o tempo desmente
e mitifica.


--------


Claustro (II)
Orides Fontela

Antigo
jardim fechado:
águas, azulejos
            e sombra.

Macular esta paz?
               Proibido.
Só leves pensamentos
                transitam
– leves, tão
              leves
que agravam mais o silêncio.

E o jardim se aprofunda
                          espelho
verde do abismo: céu
nas águas claras

e este chão não existe
    – tudo é abismo –
e esta paz é vertigem
       – puro abismo –
e o pensamento fixo
    – mudo abismo –

tudo amplia mais o silêncio.


--------


Estrada
Orides Fontela

A estrada percorre
               o bosque
entre árvores mudas
entre pedras opacas
entre jogos de luz
            e sombra.

A estrada caminha
e o seu solo
(ancestralmente fundo)
não tem som.

A estrada prossegue
e seu silêncio
fixa presenças densas
e embriaga
sufocando toda a
                         memória...


--------


"Os extremos do amor:
áridos
restos"


"Cego?
Não: livre.
Tão livre que não te importa
a direção da seta.

(...)

Que forma te conteria?
Tuas setas armam
                               o mundo
enquanto – aberto – és abismo
             inflamadamente vivo."


"Inúteis o perfume
e a cor: apenas signos
de uma presença oculta
inútil mesmo a forma
claro espelho da essência

(...)

Basta o ser. O escuro
mistério vivo, poço
em que a lâmpada é pura
e humilde o esplendor
das mais cálidas flores."


"Da não-espera
acontecem as
flores."


"Um pássaro
invocou mudamente
o abismo."


"O
leque
fechado:
ausência.

(...)

O
leque
fechado:
espera."




Presentes no livro de poemas Helianto (1973), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 154, 103, 105, 158 e 159, respectivamente, além dos trechos dos poemas Elegia (II) (p. 156), Eros (p. 142), Repouso (p. 151), Poemetos (p. 153), Gênesis (p. 147) e Poemas do leque (p. 111), presentes na coletânea.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

A mesma resenha na versão impressa do jornal aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

O fim do Blog do Ël Mirdad

Esta é a última postagem do Blog do Ël Mirdad (que um dia já foi Farpas e Psicodelia). Ao fim, foram 1.083 postagens em 8 anos de atividade, de 2009 a 2016. Divulguei o trabalho de muitos artistas, nas áreas da música, literatura e audiovisual (eventos, shows, quadrinhos, etc.), e também o meu trabalho como compositor, escritor e produtor cultural. Das seções que fiz, a que mais me orgulhou foi Leituras. Abaixo, seguem duas imagens com estatísticas que o próprio Blogger oferece, apuradas em 22 de dezembro. O motivo para o fim desse blog é que não assinarei mais como Emmanuel Mirdad, e não tem lógica manter um canal de comunicação vinculado a esse nome.


Algum dia farei outro blog? Acho difícil. Caso faça, divulgarei apenas o meu trabalho como escritor, o único que continua, assinando, a partir de 2017, como Emmanuel Rosa.


Muito obrigado pela sua audiência. E espero que o Google mantenha esse acervo ativo, para quando você quiser voltar por aqui e ler (ou ouvir) algo que lhe agradou, d…