quarta-feira, 20 de julho de 2016

Cinco poemas e seis passagens de Orides Fontela no livro Helianto

Orides Fontela (foto daqui


Ode
Orides Fontela

E enquanto mordemos
frutos vivos
declina a tarde.

E enquanto fixamos
claros signos
flui o silêncio.

E enquanto sofremos
a hora intensa

lentamente o tempo
perde-nos.


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Impressões
Orides Fontela

Cimo
de palmeira rubra:
                  "vida".

Lago
de amarelo turvo:
             "tempo".

Cubo
de metal opaco:
            "Deus".


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Herança
Orides Fontela

O que o tempo descura
e que transfixa

o que o tempo transmite
e subverte

o que o tempo desmente
e mitifica.


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Claustro (II)
Orides Fontela

Antigo
jardim fechado:
águas, azulejos
            e sombra.

Macular esta paz?
               Proibido.
Só leves pensamentos
                transitam
– leves, tão
              leves
que agravam mais o silêncio.

E o jardim se aprofunda
                          espelho
verde do abismo: céu
nas águas claras

e este chão não existe
    – tudo é abismo –
e esta paz é vertigem
       – puro abismo –
e o pensamento fixo
    – mudo abismo –

tudo amplia mais o silêncio.


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Estrada
Orides Fontela

A estrada percorre
               o bosque
entre árvores mudas
entre pedras opacas
entre jogos de luz
            e sombra.

A estrada caminha
e o seu solo
(ancestralmente fundo)
não tem som.

A estrada prossegue
e seu silêncio
fixa presenças densas
e embriaga
sufocando toda a
                         memória...


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"Os extremos do amor:
áridos
restos"


"Cego?
Não: livre.
Tão livre que não te importa
a direção da seta.

(...)

Que forma te conteria?
Tuas setas armam
                               o mundo
enquanto – aberto – és abismo
             inflamadamente vivo."


"Inúteis o perfume
e a cor: apenas signos
de uma presença oculta
inútil mesmo a forma
claro espelho da essência

(...)

Basta o ser. O escuro
mistério vivo, poço
em que a lâmpada é pura
e humilde o esplendor
das mais cálidas flores."


"Da não-espera
acontecem as
flores."


"Um pássaro
invocou mudamente
o abismo."


"O
leque
fechado:
ausência.

(...)

O
leque
fechado:
espera."




Presentes no livro de poemas Helianto (1973), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 154, 103, 105, 158 e 159, respectivamente, além dos trechos dos poemas Elegia (II) (p. 156), Eros (p. 142), Repouso (p. 151), Poemetos (p. 153), Gênesis (p. 147) e Poemas do leque (p. 111), presentes na coletânea.


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