Pular para o conteúdo principal

Seis poemas e cinco passagens de Orides Fontela no livro Teia

Orides Fontela (foto daqui)


sem título
Orides Fontela

Nunca amar
o que não
vibra

nunca crer
no que não
canta.


--------


Kairós
Orides Fontela

Quando pousa
o pássaro

quando acorda
o espelho

quando amadurece
a hora.


--------


João
Orides Fontela

De barro
o operário
e a casa

(de barro
o nome
e a obra).

II

O pássaro-operário
madruga:

construir a
casa
construir o
canto

ganhar – construir –
o dia.

III

O pássaro
faz o seu
trabalho
e o trabalho faz
o pássaro.

IV

O duro
impuro
labor: construir-se

V

O canto é anterior
ao pássaro

a casa é anterior
ao barro

o nome é anterior
à vida.


--------


Teia
Orides Fontela

A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
                   prenhe:

no
centro
a aranha espera.


--------


Fala
Orides Fontela

Falo de agrestes
pássaros         de sóis
     que não se apagam
     de inamovíveis
     pedras

     de sangue
     vivo         de estrelas
     que não cessam.

     Falo do que impede
     o sono.


--------


Mão única
Orides Fontela

– é proibido
voltar atrás
e chorar.


--------


"mescladas
a esmo:
o fim o infinito
o mesmo

a hora e a sua
seta
o limite e o após
a meta"


"Ver
o avesso
do sol o
ventre
do caos os
ossos."


"E anulado
o espelho: eis
o infinito."


"e a pedra é
pedra: não germina.
Basta-se."


"o espelho aprofunda
o enigma"





Presentes no livro de poemas Teia (1996), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 372, 326, 313-314, 307, 308 e 328, respectivamente, além dos trechos dos poemas Coisas (p. 309), Ver (p. 339), Noturnos (p. 349), Pesca (p. 381) e sem título (p. 374), presentes na coletânea.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

Informações sobre o livro (trechos, release, fotos, crítica, etc.) aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…