domingo, 24 de julho de 2016

Seis poemas e cinco passagens de Orides Fontela no livro Teia

Orides Fontela (foto daqui)


sem título
Orides Fontela

Nunca amar
o que não
vibra

nunca crer
no que não
canta.


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Kairós
Orides Fontela

Quando pousa
o pássaro

quando acorda
o espelho

quando amadurece
a hora.


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João
Orides Fontela

De barro
o operário
e a casa

(de barro
o nome
e a obra).

II

O pássaro-operário
madruga:

construir a
casa
construir o
canto

ganhar – construir –
o dia.

III

O pássaro
faz o seu
trabalho
e o trabalho faz
o pássaro.

IV

O duro
impuro
labor: construir-se

V

O canto é anterior
ao pássaro

a casa é anterior
ao barro

o nome é anterior
à vida.


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Teia
Orides Fontela

A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
                   prenhe:

no
centro
a aranha espera.


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Fala
Orides Fontela

Falo de agrestes
pássaros         de sóis
     que não se apagam
     de inamovíveis
     pedras

     de sangue
     vivo         de estrelas
     que não cessam.

     Falo do que impede
     o sono.


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Mão única
Orides Fontela

– é proibido
voltar atrás
e chorar.


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"mescladas
a esmo:
o fim o infinito
o mesmo

a hora e a sua
seta
o limite e o após
a meta"


"Ver
o avesso
do sol o
ventre
do caos os
ossos."


"E anulado
o espelho: eis
o infinito."


"e a pedra é
pedra: não germina.
Basta-se."


"o espelho aprofunda
o enigma"





Presentes no livro de poemas Teia (1996), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 372, 326, 313-314, 307, 308 e 328, respectivamente, além dos trechos dos poemas Coisas (p. 309), Ver (p. 339), Noturnos (p. 349), Pesca (p. 381) e sem título (p. 374), presentes na coletânea.


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