sábado, 2 de julho de 2016

Treze poemas da antologia Cantares de Arrumação - Panorama da nova poesia de Feira de Santana e região

Organizada por Silvério Duque


Inverso
Anne Cerqueira

É preciso coragem
alguns me dizem
quando a tarde chega
e a água turva.

Cega e atônita
eu sei.

As flores
secaram
sob o sol mais rigoroso
e os rios
traçam seu curso
com giz

rápido
célere
o vento
nos arrasta.
Inverso.

Nada corre
nada avança
se não há guerra
também não há conforto

É preciso coragem
sob a mordaça.
Alguém avisa.
(moldura que nos ata
à força)

Eu sei.


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Miudinha
Ribeiro Pedreira (Dão)

                                       a Maria das Graças Ribeiro Pedreira

Mainha é pequena
de tamanho,
mas consegue pegar coisas
no alto.

Minha voz por exemplo
ela sempre bota no bolso.


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Direito prescrito
Herculano Neto

nasci
com defeito de fábrica
defeito na alma

minha mãe não notou
meu pai não notou
ninguém notou

só perceberam
quando achei de me remendar
me colar
me parafusar

aí já era tarde


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Uma outra história
Ronald Freitas

Na curva daquela estrada
a escuridão não veio.

(na curva, o dia era apenas sol)

Pena que não passamos por aquele caminho,
vivemos alheios às curvas.


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Travessia
Luiz Valverde

Pasmo de beira de rio
sofrendo vagar,
pelo que está no meio,
o impossível.

Na terceira margem do adeus
vasto céu, a suprema intriga,
onde sabemos que achar
é não ocultar o homem,
mas expô-lo por inteiro e perdido,
paralisado na travessia.


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Do agora
Clarissa Macedo

A vida é essa farsa:
faca de abrir mágoas,
pele de lamber palavras.

Refeita, na morte do dia,
escurece feito sangue –
porque não morre, cicatriza.

A vida é essa farsa:
todo dia costurada
para abrigar mais feridas.


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O toque da solidão
Sandro Penelú

Apenas vago como tantos que navegam
em busca de respostas,
respostas que eu, inquieto, não as possuo
e desesperado me acalmo
contemplando os lençóis,
as chamas que não me arderam,
a noite que não me beijou na madrugada
e, sozinho,
estamos ainda abraçados...


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Versos do inesperado I
Nívea Maria Vasconcellos

Vi minhas palavras em seu pensamento
E isso as fez no papel de seus versos.
Como se a imagem me tivesse levado
E como se quisesses, de modos diversos,

Fazer da estrofe um mundo só nosso:
Onde cada gesto vira uma rima,
Cada frase, de súbito, gera um ritmo
E onde as falas docemente se esgrimam

Entre a ambiguidade e o paradoxo.
E a cautela, nesse jogo, surge como escudo
No qual eu, muitas vezes, quase mudo

Não sei o que dizer e, então, calo.
Mas vem a palavra, a imagem, o ritmo
E, involuntária, novamente, falo.


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Torpor
Wesley Correia

Há funcionalidade nas coisas inúteis.
Mais ainda: há essenciais futilidades.

Sigo resiliente apesar de cético:
posso elevar a voz em novas e
formidáveis sinergias.
E, no entanto, posso rir do esforço
que isso me causa.

Mantenho o verso,
o verbo sedento,
a insaciável palavra sangrenta
de desejo reverso.


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A dor das horas
Thiago El-Chami

Eu sinto a dor das horas que a passagem
do feroz tempo arrasta, alta e inclemente,
mas que resistem a ir-se, simplesmente,
da alma que as sente, ainda que a paisagem

da viagem já esteja diferente.
Estas horas não passam como a aragem
ou o orvalho, que cedem, já não agem,
quando a Aurora arrebenta à tua frente,

mas como o outono triste, que a folhagem
deixa ao chão, mas como o estio ardente
que racha o solo, ou o inverno em sua friagem.

A dor que eu sinto é a dor do asfalto quente
que guarda em si as marcas da frenagem,
do que se foi e ainda está presente.


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Amor, escreve em mim teu alfabeto...
Patrice de Moraes

Amor, escreve em mim teu alfabeto.
Registra a cor local do teu traçado.
Povoa cada milímetro ofertado
como povoa a planta o arquiteto.

Implanta introdução do bem concreto
que és tu, neste papiro rasurado.
Teu desenvolvimento inacabado
fará da conclusão pseudoprojeto.

Porque tudo que almejo é ser um texto
composto à densidade do contexto
do vernáculo em ti constituído.

Um texto de idioma universal
que assente o seu império lexical
fluente à proporção que seja lido.


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A mancha no papel
Idmar Boaventura

A mancha no papel, o sono.
Folhas vermelha caindo.
Livros amontoados, fachos de luz
amarrados na cortina.
A sina.

Silvos no ar, segredos.
Sibilos de serpentes assassinas.
E alguma coisa que fica, em silêncio,
escondida no jardim.


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À maneira de Shaw
Ísis Moraes

Sonhos não existem.
Eu os alicio, e sei.
A desistência está posta.


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Presentes na antologia Cantares de Arrumação - Panorama da nova poesia de Feira de Santana e região (Mondrongo, 2015), organizada por Silvério Duque, páginas 33-34, 97, 82, 105, 13, 148, 25, 119, 143, 134, 60, 73 e 91, respectivamente.

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