sexta-feira, 22 de julho de 2016

Cinco poemas e seis passagens de Orides Fontela no livro Rosácea

Orides Fontela (foto daqui)


Aforismos
Orides Fontela

Matar o pássaro eterniza
o silêncio

matar a luz elimina
o limite

matar o amor instaura
a liberdade.


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CDA (Imitado)
Orides Fontela

Ó vida, triste vida!
Se eu me chamasse Aparecida
dava na mesma.


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Aurora
Orides Fontela

Rosa, rosas. A primeira cor.
Rosas que os cavalos
esmagam.

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Iniciação
Orides Fontela

Se vens a uma terra estranha
curva-te

se este lugar é esquisito
curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te

– és infinitamente mais estranho.

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Ode
Orides Fontela

Neste tudo
tudo falta

(neblina)

e nesta
falta: eis
tudo.


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"Nem tronco ou
caule. Nem sequer planta
– só a raiz
   é o fruto."


"Só porque
erro
encontro
o que não se
procura

só porque
erro
invento
o labirinto

(...)

só porque
erro
acerto: me
construo."


"em tudo pulsa
e penetra
o clamor
do indomesticável destino."


"Não amo
o espelho: temo-o."


"A tarde em mim se repete
num tempo irreal, decadência
obstinada, onde o
silêncio
nunca é completamente
treva

A tarde em mim se repete
configurando uma distância
irrealizada, evanescência
onde nunca anoitece."


"Cansa-me ser. A chaga inumerável
de mim cintila; sem palavras, úmida
fonte rubra do ser, anseio e tédio
de prosseguir, inabitada, viva."




Presentes no livro de poemas Rosácea (1986), presente na coletânea Poesia completa (Hedra, 2015), páginas 230, 249, 221, 222 e 260, respectivamente, além dos trechos dos poemas Origem (p. 283), Errância (p. 223), As coisas selvagens (p. 235), O espelho (p. 238), Duas odes (antigas) (p. 285) e um soneto sem título (p. 293), presentes na coletânea.


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