quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)


Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


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Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


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Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para trás?
pensarão em rodovias
aeroportos
postos de fronteira?
quando disserem
quero me matar
pensarão em lâminas
revólveres
veneno?
pois eu só penso
no mar


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Minas
Ana Martins Marques

Se eu encostasse
meu ouvido
no seu peito
ouviria o tumulto
do mar
o alarido estridente
dos banhistas
cegos de sol
o baque
das ondas
quando despencam
na praia

Vem
escuta
no meu peito
o silêncio
elementar
dos metais


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Tradução
Ana Martins Marques

Este poema
em outra língua
seria outro poema

um relógio atrasado
que marca a hora certa
de algum outro lugar

uma criança que inventa
uma língua só para falar
com outra criança

uma casa de montanha
reconstruída sobre a praia
corroída pouco a pouco pela presença do mar

o importante é que
num determinado ponto
os poemas fiquem emparelhados

como em certos problemas de física
de velhos livros escolares


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"sei que o que aprendi do mar não foi o mar
que só a morte ensina o que ela ensina
sei que é um mundo de medo de vizinhança
de sono de animais de medo
sei que as forças do convívio sobrevivem no tempo
apagando-se porém
sei que a desistência resiste
que esperar é violento
sei que a intimidade é o nome que se dá
a uma infinita distância"


"Pela força do desejo
o longínquo
aproxima-se um instante
até que a proximidade
recua
o próximo distancia-se
e pouco a pouco
avizinha-se a distância

Tão cedo era tarde demais"


"As casas pertencem aos vizinhos
os países, aos estrangeiros
os filhos são das mulheres
que não quiseram filhos
as viagens são daqueles
que nunca deixaram sua aldeia
como as fotografias por direito pertencem
aos que não saíram na fotografia"





Presentes no livro de poemas O livro das semelhanças (Companhia das Letras, 2015), páginas 89, 40, 80-81, 78, 22, respectivamente, além dos trechos de O que eu sei (p. 82) e dos poemas das páginas 64 e 60, presentes na mesma obra.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Cinco poemas e três passagens de Gustavo Felicíssimo no livro Desordem & outros poemas inéditos

Gustavo Felicíssimo (foto: Fausto Roim)


À posteridade
Gustavo Felicíssimo

Ocorreu-me de escrever
um poema à posteridade.
Um poema que assegure
a permanência do meu nome,
seja lá o que isso signifique.
Um poema tão claro e puro
quanto essa exclamação:
posteridade, vá se foder!


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Ladrando feito um cão
Gustavo Felicíssimo

Certo! Um dia verei Deus
com esses olhos que a terra há de comer.
O que face a face me dirá, não sei,
           mas lhe beijarei as mãos
           e tomarei a sua benção
como outrora fiz à minha mãe.
Então mostrarei o nome do seu filho
impresso nas paredes dos prostíbulos
e nas páginas de antigos livros
que unem e separam os homens.
Mostrarei tantos clamores inauditos,
os discursos pela paz mundial
            e aquele franzino Davi
montado em poderosos helicópteros
e tanques de guerra subjugando o seu irmão.
Estarei ladrando feito um cão
           e ele me lembrará
que a videira é seca, suja e torta,
que esse vale é feito de lágrimas.


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Hodierno
Gustavo Felicíssimo

Aqui, onde bárbaros viram heróis,
onde por vergonha ou medo
todas as vozes se calam
num delito coletivo e contraditório,
todas as solidões se proliferam
e os remorsos frutificam
silêncios cada vez mais vastos.
Os gritos no vazio se expandem,
mordaças são distribuídas gratuitamente
           e na mente do incauto
a aparente sensação de felicidade
enquanto o amanhã, por mais remoto que pareça
            ri da hipocrisia reinante
e abrolha nos comerciais de televisão,
Ah! Já não faço mais planos,
meu futuro é o tempo presente
gasto com tudo o que não possui serventia,
pois na ternura do abraço amigo
sou o anfitrião das coisas vãs
e vivo porque em viver não há mistério,
apenas uma perene solidão e seu perfume.
Existo pela palavra, resisto pela fé,
ouço a voz de um Deus a me amparar
como se ampara uma criança
enquanto, do meu carnal assombro,
me liberto da sombra que me encarcera
e canto a desimportância das horas
no imperecível momento de um verso.


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Conceitual
Gustavo Felicíssimo

Meu verso
nunca será livre
Será vivo
Pois ao poeta
     não cabe
o livre arbítrio
Meu verso
nunca será um grito
Antes, o silêncio
         com todos
         os seus ruídos
Nele, tão-somente
      o que pulsa
      o que se agita
      ou rumoreja
na folha alvíssima
     sobre a qual
     me debruço
     e padeço
Pois se o poema
     por inteiro
     me ofereço
cada verso será
sentido e delírio
Cada verso meu
será – mesmo –
um suspiro, apenas
E nada mais
Chega mais perto
leitor
          e ouve
o que nele habita


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Desordem
Gustavo Felicíssimo

Dois cães regem o homem:
            um, é tormento
            o outro, entusiasmo
Equilibrar esses dois cães
é questão de vida e morte
Dois cães
              quais
                        dois deuses
Qual deles será comigo hoje?


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"Outro chope, garçom
Sentimos sede porque a realidade é fuga
e fugaz o tempo se apresenta
Sentimos sede porque a realidade é crua
e terríveis os seus desdobramentos"


"Não sabemos das nuvens negras
             se faz sol lá fora
ou se enfrentamos nossa via-crúcis
navegando assim sem bússola
nos debatendo às portas da escuridão
e ainda sonhando cada vez mais alto
pois na memória esquecida
           os ausentes se confundem
fundem as vidraças dos velhos padrões
os velhos porões sucumbidos sob a noite
incerta de tantos escombros
            enquanto
nada muda a verdade no firmamento
ou dele se faz brotar evidências
o significado das coisas
e toda voz perdida sem saber o que dizer
           frente aos enigmas
que florescem diante da morte
esfinge do universo a igualar o ser"


"O que me exila me liberta,
lâmina que trago junto ao corpo,
faz vibrar as cordas de um violino
chamando os meus cães"




Presentes no livro Desordem & outros poemas inéditos (Mondrongo, 2015), páginas 43, 45-46, 61-62, 15-16 e 11, respectivamente, além dos trechos dos poemas Elegia para Alberto da Cunha Melo (p. 39), Elegia para Rimbaud 
(p. 34 e 35) e Canção do meu exílio (p. 49),
presentes na mesma obra.


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Seis poemas de Carollini Assis em O livro das palavras mal ditas

Carollini Assis (foto daqui)


Paixão
Carollini Assis

A dor do crucifixo
da mulher
roçando o pescoço
do amante.


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Noivado
Carollini Assis

Peço-te a mão.
Aceitas
uma punheta?


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Avó
Carollini Assis

– Vou me casar.
– Deus te abençoe.
(silêncio)
– Ele te bate, minha filha?


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Valença
Carollini Assis

Esse cheiro de peixe
que de mim exala
mesmo quando uso
Chanel nº 5.


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Chapeuzinho Vermelho
Carollini Assis

Enquanto seu lobo não vem,
visito o lenhador.


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Faz-me rir
Carollini Assis

Acreditei quando criança:
sapos viram príncipes.
Agora estou no brejo.







Presentes em O livro das palavras mal ditas (Mondrongo, 2016), páginas 56, 65, 38, 47, 39 e 16, respectivamente.