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Seleta: Puddles Pity Party

Puddles Pity Party - Foto daqui
O cantor que mais admiro no momento é um palhaço triste: Puddles Pity Party. Interpretado pelo cantor, músico e ator norte-americano Big Mike Geier (Philadelphia, 1964), um talentoso gigante de mais de 2 metros, apresenta-se em vídeos curtos no YouTube, com uma excelente resposta de público para um artista independente (atualmente, o canal Puddles Pity Party tem mais de 47 milhões de views e mais de 350 mil inscritos), interpretando canções reconhecidas como Wish You Were Here, do Pink Floyd (primeiro vídeo que conheci o seu trabalho) e Losing My Religion, do R.E.M., seja num café voz e violão, ou com banda completa. Estou muito fã do timbre grave da sua voz, e a interpretação precisa, na dosagem do encanto. Aproveitei e fiz uma seleta com as melhores 34 canções interpretadas por Puddles Pity Party. Clique no nome das músicas e escute no YouTube:

01. Wish You Were Here (Pink Floyd)

02. The Sound of Silence (Simon & Garfunkel - Versão Disturbed)

03.
Postagens recentes

Os dez melhores poemas da revista Organismo #02

Izabela Orlandi

eu sempre te disse que queria morrer
em um lugar devastado como dentro
do seu útero.

um lugar sem som em que meus olhos
encarassem o vazio que vi
enquanto você adormecia

eu tenho certeza que sentiria
o mesmo prazer de quando senti
o seu pau e a noite e você
sentiu os meus braços
e a essência

eu tenho certeza que essa morte seria
vazia e nossos restos não produziriam
mais um único
som

nós estaríamos mais próximos da carne
e não a usaríamos como desculpa
obrigação e refúgio

neste lugar colaboraríamos com o silêncio
como sempre desejamos em vão

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Chapeuzinho Vermelho
Carollini Assis

Enquanto seu lobo não vem,
visito o lenhador.

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Cântico dos cânticos
Lívia Natália

Sua boca banha minha outra boca
nela, os lábios desabrocham
como pétalas perfumosas.
Sua boca banha minha outra boca,
enquanto minha mãos rasgam,
no ar,
as sutilezas.

Sua língua lambe minha palavra mais secreta
que, ereta,
canta o vigor desta estação.

Sua língua dança numa conversa matreira,
mergulhada…

Cinco poemas e três passagens de Ruy Espinheira Filho no livro Babilônia e outros poemas

Ruy Espinheira Filho - Foto: Marina Silva

O passado
Ruy Espinheira Filho

É verdade,
escrevo muito sobre o passado,
porque nele é que está tudo em seu lugar
e ninguém se foi.

O passado.
Que é, na verdade,
o que possuímos,
pois o presente acabou de passar
e o futuro é um sonho que jamais alcançaremos
simplesmente pelo que é:
futuro.

É, enfim, o que temos,
o que somos:
o passado.
Que, como se sabe, sendo passado,
não passa.

E às vezes é doloroso,
como aquela janela alta de onde nunca desceram
sobre mim
os longos cabelos da amada.
Que não me amou, mas,
por isso mesmo, se fez musa
por toda a vida.

O passado.
Que é também o que um dia
morreremos,
quando morrermos
de verdade.

No meu caso,
subindo pelos longos cabelos lançados
da mais alta janela
sobre mim.

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Importância
Ruy Espinheira Filho

Há os que chegam
ao momento em que dizem,
com verdade,
que já mais nada importa.

Com verdade, sim, acredito.
Mas eu, se disser a mesma coisa,
certamente não será
com verdade.

Porque me importar é
da mi…

Os melhores versos do poema Umbigo, de Nicolas Behr — Parte 04

Nicolas Behr - Foto: Ésio Macedo Ribeiro
“minha poesia é o acupunturista usando parafusos”

“minha poesia é a pedra no estilingue do
menino palestino morto com um tiro na cabeça”

“minha poesia faz silêncio na cama pra ouvir
o barulhinho gostoso do orgasmo”

“minha poesia desnuda a alma mas não tira a roupa”

“minha poesia é a umidade da amazônia
que você sente no interior da paraiba”

“minha poesia é como uma árvore rara, solitária,
florida, esquecida, no meio do sertão da bahia”

“minha poesia deixa o tempo chuvoso no piauí”

“minha poesia pede aos que tiveram a mão
decepada que levantem o dedo”

“minha poesia é a preferida das traças”

“minha poesia é uma árvore-da-felicidade
com depressão nas folhas, esquizofrenia nas flores”

“minha poesia na sala de espera do analista
rasga a revista, chuta a porta e pula do edifício”

“minha poesia é o bilhete do suicida arrependido”

“minha poesia salva-vidas mas afoga os mortos”

“minha poesia são unhas roendo dentes”

“minha poesia na íntegra se desintegr…

Zygmunt Bauman, preciso

Zygmunt Bauman (1925-2017) - Foto daqui

“Foi o conhecimento de que tinham da morte, da brevidade inegociável do tempo, da possibilidade de as visões permanecerem irrealizadas, de os projetos não serem concluídos e as coisas não feitas que instigou os seres humanos à ação e fez sua imaginação voar. Foi esse conhecimento que tornou a criação cultural uma necessidade e transformou os seres humanos em criaturas da cultura. Desde os primórdios da cultura, e através de sua longa história, seu motor tem sido a necessidade de preencher o abismo que separa transitoriedade e eterno, finitude e infinito, vida mortal e imortalidade, ou o ímpeto de construir uma ponte que permita a passagem de uma extremidade à outra, ou o impulso de capacitar os mortais para imprimir na eternidade sua presença contínua, nela deixando a marca de nossa visita, ainda que breve.”




Presente em Cegueira moral — A perda da sensibilidade na modernidade líquida (Zahar, 2014), página 124, livro de diálogos com Leonidas Dons…

Cinco poemas e três passagens de Daniela Galdino no livro Inúmera / Innumerous

Daniela Galdino - Foto: Ana Lee

Rotina
Daniela Galdino

Não preciso de alguém que a mim defina.
Definho...

Mergulho na grande cesta de lixo
Misturada às flores machucadas

Mas eu driblo o destino irreciclável.
Permaneço onde não se supõe.

Escapo da morte cosendo melodias singulares.
Reinvento a poética na travessia das manhãs.

Madrugo vagareza comendo as folhas do tempo.
O estopim do verde basta às minhas necessidades.

Devoro com vigor o produto da minha fertilidade.
Eu também sou o meu principal nutriente.

Em prolongados silêncios refloresto-me.
Em desmedidos gestos refloresço-me.

Espalho aromas e rompo o casulo:
em minha casa todos os dias eu viro borboleta.

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Ardil
Daniela Galdino

recolher
a matéria
que é de
silêncios:

eu não
quero
levantar
a palavra
em vão

porque...

quando
eu falar
irão
despregar

todas
as estrelas
do meu
céu da boca.

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Obra de fricção
Daniela Galdino

Gosto de homens
que têm buceta imaginária
daquelas bem colocadas
na coxa esquerda.

Gosto de homens
aventureir…

Dez passagens de Murilo Rubião no livro de contos Obra completa

Murilo Rubião (foto daqui)
“O advogado, que permanecera na sala, indagou: – Por que acusam o meu cliente de traficante de drogas, se antes o incriminavam de estuprador e cúmplice de centenas de adultérios? (...) – Que ingenuidade, amigo. Você está há pouco tempo entre nós e ignora que aqui só prevalece a vontade do Juiz, proprietário da maior parte das casas da cidade, inclusive dos prédios públicos, da companhia telefônica, do cinema, das duas farmácias, de cinco fazendas de gado, do matadouro e da empresa funerária. Se decidiu que esse palhaço cometeu outro delito, não nos cabe discutir e sim preparar as provas necessárias à sua condenação. (...) – Penso que o seu dever é agir com imparcialidade, conforme declarou anteriormente, e impedir o arbítrio dos poderosos. (...) Nesse instante, em frente à Delegacia, a população começou a vociferar: Lincha! Mata! Enforca! (...) O oficial parecia se divertir com a situação: – O seu constituinte não tem muitas chances de sobreviver. Alguém cui…