quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Dedicatórias: Livros de Reinaldo Moraes

Livros de Reinaldo Moraes


2010 - "Pornopopeia" (Objetiva/2009) de Reinaldo Moraes


"Mirdad, um pornopopéia. Abracio procê. Reinaldo"
PS - Autógrafo concedido após mesa na Flip 2010
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2011 - "Tanto Faz-Abacaxi" (Má Companhia/2011) de Reinaldo Moraes


"Pro grande Mirdad, um abração de amistad do Reinaldo 2011"
PS - Dedicatória feita na Flica 2011
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2011 - "Umidade" (Cia das Letras/2005) de Reinaldo Moraes


"Pro velho Mirdad, um puta abraço cachoeirano do Reinaldo. 2011"
PS - Dedicatória feita na Flica 2011
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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Ruy Espinheira Filho - Poemas adaptáveis para Cinema

Ruy Espinheira Filho (foto: Mário Espinheira - interferida por Mirdad)


Entre agosto e setembro deste ano, li "Estação Infinita e outras estações" (2012/Bertrand Brasil), a referencial e indispensável obra completa do poeta baiano Ruy Espinheira Filho. Além de naturalmente pilular os poemas de maior apreço (que me renderam seis partes neste blog), notei que quatro poemas do mestre eram sugestões excelentes para adaptações cinematográficas. Seguem abaixo, uma dica valiosa para os nossos cineastas:


01) Sapo Seco
Com o poema “Romance do Sapo Seco: Uma História de Assombros”

Surpreendente história real de Generino Bispo dos Santos, um agricultor do interior da Bahia que foi a julgamento por ter matado um feiticeiro que lhe rogou uma praga que indiretamente causou a morte de sua filha. Rende um excelente filme de tribunal legitimamente baiano. Baseado na tese do antropólogo baiano Vivaldo da Costa Lima, o advogado Ruy Espinheira, pai do poeta, alegou legítima defesa e o réu foi inocentado por unanimidade. Saiba mais aqui


02) O Pai
Com o poema “O Pai”

Vinte e três dias após o enterro do pai, o filho caminha com as lembranças de seu pai generoso por vários cenários, primeiro pelo cemitério [“Caminho aos vinte e três dias da tua ausência, na mão esquerda o frio da alça do caixão que não soltei nem quando cimentaram a pedra sobre ti, que não soltarei nunca”], depois recordando a casa e seus movimentos, momentos da época da ditadura em que o pai foi preso [“não te haviam torturado, não a ti, mas que de tua cela escutavas gritos, pancadas, súplicas, gemidos, que aqueles fardados eram indignos do gênero humano”], encontros com os amigos do pai, festas, presença da natureza, histórias contadas que formaram o leitor filho e a imensa gratidão [“a dignidade insuavizável como a do teu pai, a compreensão e o generoso amor”].


03) Canção de Beatriz
Com o poema “Canção de Beatriz”

A história de Beatriz dos Anjos Silva, 39 anos, com cara de menina desde menina. Mulher simples, de baixa renda, mas guerreira que não leva desaforo pra casa. Conta seus casos, o que vê de absurdo da polícia no seu bairro carente [“E ele me bateu de novo na cara e meu marido calado e me mandaram sentar no colo dele e ficaram se rindo e na delegacia eu contei tudo mas ninguém que ligou”], a troca de pancadas com os seus homens [“Disse pro delegado: solte meu homem, foi eu que ele furou, não foi você. E ele falou: esse sujeito lhe mata qualquer hora. E eu respondi a vida é minha. E ele soltou Arnaldo e ele voltou comigo e eu acho que ia acabar furando ele um dia”], a lembrança da mãe e do pai [“Capineiro de meu pai, agora meu pai sou eu, eu que me mando pro mundo, este mundo, eu mesma meu pai e minha mãe, eu me consolando como ela fazia, ela tão boa que morreu chorando, pedindo pra não morrer, como eu ainda escuto de noite, dormindo”], entre outros assuntos. Uma legítima baiana.


04) O Inquilino do Incêndio
Com os poemas "No banco do jardim" e as três elegias urbanas.

Um homem solitário passeia em sua rotina da casa, sua cidade e escritório enquanto revisita suas memórias [“Caminho, caminho. A memória ecoa o som dos passos. A este dia junto outros. Anos inteiros. Aqui amei, ali sofri, adiante fui mesquinho. É a minha cidade. Sou eu”]. O dia que começa azul [“Oferto-me ao azul da manhã que me desperta. Também eu azul”] termina em um vácuo negro [“Onde era azul, cresce um vácuo negro negro que me devora, roaz. E nada me deixa. Nada mais que o gesto necessário (só os olhos incendidos, o coração frio, ocluso, a consciência abolida) para ligar a TV”].

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Dedicatórias: Livros de Tabajara Ruas, Ronaldo Correia de Brito, José Eduardo Agualusa e Ana Paula Maia

Livros de Tabajara Ruas, Ronaldo Correia de Brito, José Eduardo Agualusa e Ana Paula Maia


2010 - "Retratos Imorais" (Alfaguara/2010) de Ronaldo Correia de Brito


"Para Mirdad, estes 22 retratos pouco imorais. Recife*, 05/08/10"
* O local na verdade foi Paraty, na mesa de autógrafos da Flip 2010
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2011 - "Carvão Animal" (Record/2011) de Ana Paula Maia


"P/Mirdad, um beijo grande. Ana Paula Maia. Bienal do livro da Bahia. 01/11/11"
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2012 - "Netto Perde sua Alma" (Record 7ª Edição/2010) de Tabajara Ruas


"Para Mirdad - tempestade criativa - que reúne gentes de toda parte, minha admiração, minha amizade, meu abraço. Tabajara. 2ª Flica/Cachoeira 19/10/12"
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2012 - "O Vendedor de Passados" (Gryphus/2011) de José Eduardo Agualusa


"Para o Mirdad, este O Vendedor de Passados, lembrando um encontro maravilhoso em Cachoeira e aguardando o próximo em Santa Catarina, com a amizade, José Eduardo Agualusa. 21 de outubro 2012"
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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Pílulas: Parte 06 - Estação Infinita, de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho (foto: Mário Espinheira - interferida por Mirdad)


"Sim, novamente escrevendo.
Sem saber, como sempre, aonde estou indo,
se é que estou indo a algum lugar.

Às vezes me ocorre
que escrever é exatamente isto: ofício
de quem não sabe aonde ir.
E, como não sabe, tateia
na névoa
à espera de encontrar alguma coisa
que não só não sabe onde está
como não sabe o que é
e que talvez seja uma parte da alma que ficou perdida
na travessia
entre sombras ancestrais
e a vida"

Fragmento do poema "Condição"

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"E o jornalista continuou
em seus bares e botequins.
Já começava a haver aproximação maior entre nós,
à luz das cervejas,
quando os militares saíram dos quartéis
e afundaram o país numa ditadura de mais de vinte anos,
o que fez emergir dos esgotos da cidade,
desde o primeiro instante,
as ratazanas da delação.
E muitos se foram embora,
como eu.

Voltei após longo tempo
e lá estava ele,
no primeiro bar em que entrei.
Falei do meu último encontro com o poeta seu amigo
já há muito morto,
e lá ficamos, bebendo melancolicamente,
com os olhos machucados dentro da noite"

Fragmento do poema "Dentro da noite"

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"Trago comigo os lugares onde estive.
Não sou como os antigos que falavam
em sacudir das sandálias a poeira dos caminhos.
Não, guardo tudo,
sempre guardo tudo,
e especialmente guardarei das últimas caminhadas
o seu espesso pó de iluminar a alma.

Das viagens não regresso
jamais"

Fragmento do poema "Depois"

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"Acho que nunca te disse nada
para não quebrar o encanto.
...
Um encanto é delicado,
parte-se com extrema facilidade.
E depois sobrevém a tragédia do desencanto.

Por isso as histórias param quando o beijo do
Cavaleiro
quebra o encanto da Bela.
Porque, se continuassem,
eles se casariam,
teriam filhos,
ficariam preocupados com as despesas,
adiante se sentiriam tão entediados que passariam o
resto da vida
indiferentes um ao outro,
vendo televisão.

Por isso cessam as histórias onde cessam.
Como não prosseguem,
continuamos na atmosfera encantada,
todos ainda no poético papel de Cavaleiro e Bela.

Acho que foi por isso,
para não perder o encanto,
que não te disse nada"

Fragmentos do poema "Encanto"

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"Sim,
que coisa mais inútil passar pela vida
em branca nuvem!
Que imperdoável alienação adormecer
em plácido repouso!
Que grandeza em enfrentar
o frio da desgraça!
Jamais ser espectro de homem
– mas homem de verdade!
Jamais passar apenas pela vida
– mas vivê-la intensamente!

Com o tempo, porém,
fui cada vez mais admirando a
branca nuvem.
Em muitos instantes desejei
estar noutro lugar, noutra situação,
de preferência em
branca nuvem.
...
Que melhor lugar pode haver para
–  dormindo ou acordado –  estar em
plácido repouso?
E quem de nós não acha que merece um
plácido repouso?
Não, nada de
frio da desgraça.
Nada de sofrimento.
Tais experiências podem ser boas para quem pretende
trocá-las
por milênios de prazeres em algum paraíso,
como garantem certos corretores espirituais.
Eu, não, não quero tanto,
prefiro dois pássaros voando
a um na mão.
Mais: prefiro todos lá fora,
no alto, longe de mãos.

Não me limitei a apenas passar pela vida
(mesmo porque ela não depende tanto de nós
quanto arrogantemente supomos)
em branca nuvem,
como jamais me senti espectro.
Às vezes até sonho em vir a ser espectro,
no devido tempo,
para visitar certas pessoas
à meia-noite"

Fragmentos do poema "Conversa com Francisco Otaviano"


Ruy Espinheira Filho
(2012/Bertrand Brasil)


"A casa permanece jovem,
embora meu pai a tenha construído
em meados dos anos 50
...
Todos os que a habitaram
desde então
trataram-na com desvelo,
inclusive
a senhora que um dia subiu
no grande reservatório de água
para se afogar"

Fragmentos do poema "A casa dos nove pinheiros"

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"Sim,
os passarinhos sempre despertaram todas as manhãs
do mundo.
E do Tempo, embora alguns possam achar
que houve era em que os passarinhos ainda não
existiam
e por isso não poderiam despertar as manhãs.
Quanto a mim, acho que sem passarinhos não há
manhã.
Certo que a Terra girava e por isso havia noite e dia,
no remoto e triste mundo sem passarinhos,
mas era um rústico e opaco nascer do dia,
sem os maviosos cantares.

Eu, sinceramente, sou muito agradecido aos deuses
por não ter vivido naquele tempo"

Fragmento do poema "Passarinhos"

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"Muitas vezes ouvimos dizer que não haverá de ser
nada.
Sim, às vezes não será mesmo
nada,
felizmente.
Mas, outras vezes não será mesmo
nada,
infelizmente.

Dizem-nos que não haverá de ser
nada
para nos dar ânimo.
Mas de outras vezes desanimamos seriamente porque
nos parece
que não haverá de ser
nada.

Não, não é nada fácil
viver. Nada.
O jeito é aceitar estoicamente que,
mais cedo ou mais tarde,
de uma forma ou de outra,
não haverá de ser
nada"

Fragmento do poema "Nada"

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"Alguém fala em seu nome
e me leva a ruas antigas que muitos poderão achar
que são as mesmas de hoje
pois conservam suas placas
mas eu sei que eram outras
especialmente insalubres por causa do mau cheiro
do fascismo
entranhado em tudo.

Então
por elas caminhávamos com a alma obscurecida
temendo que algum lampejo de pensamento
ou sonho
nos denunciasse"

Fragmento do poema "Um de nós"

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"Continua amando-a mesmo
através
da tempestade de outros
amores, quando
ela emerge do caos
e às vezes fica,
longamente,
numa luz que nem de leve
adormece.

E assim é: como a amou
há muito tempo. Como
agora e certamente
depois e depois e
depois"

Fragmento do poema "Arco-íris"

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"Chego como a um fim de tarde
no desejo de que permaneça
como estação
infinita.

Prêmio merecido
após a viagem:
que tudo permaneça como agora,
a vida que me cerca e a paisagem
de onde vim
longa e trabalhosamente.
...
quando manifesto meu desejo maior
e mais sábio,
chegou a hora de cessar
o efêmero"

Fragmentos do poema "70 anos"

sábado, 21 de setembro de 2013

Dedicatórias: Livros de André Setaro, Victor Mascarenhas, Gláucia Lemos e Joca Reiners Terron

Livros de André Setaro, Victor Mascarenhas, Gláucia Lemos e Joca Reiners Terron


2010 - "Escritos Sobre Cinema" (Edufba-Azougue/2010) de André Setaro


"Grande Mirdad, sei que você não gostou de 'O homem que matou o fascínora'. Espero que, lendo este livro, um dia vá gostar. André. 13.04.2010"
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2011 - "A Insuportável Família Feliz" (P-55/2011) de Victor Mascarenhas


"Para Mirdad, com admiração e torcendo para que esse livro seja uma companhia suportável e feliz. 16/10/11"
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2013 - "Marce" (Solisluna/2013) de Gláucia Lemos


"Ao querido Mirdad, com um beijão. Gláucia Lemos. Set. 2013"
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2013 - "A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves" (Companhia das Letras/2013) de Joca Reiners Terron


"Ao Mirdad, esta fábula de animais e humanos. Com gratidão e até a Flica 2013! 12/09/2013"
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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Pílulas: Parte 05 - Estação Infinita, de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho (foto: Mário Espinheira - interferida por Mirdad)


"Subi, então, no penhasco
mais alto, negro monstro
nascido de agonias
imemoriais. E lá fiquei,
batido pelo vento,
até que a noite veio. E como a noite
não era senão apenas noite,
deu-me vontade de chorar. E lentamente
comecei a voltar
para casa. Depois, já no meu quarto,
descobri que ainda continuava
sobre o penhasco. Ainda esperava
que alguma coisa chegasse
de muito longe,
e tinha os olhos cravados
em pesadas nuvens
do Oeste. Ermo
e expectante"

Fragmento do poema "Sobre o penhasco"

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"Nestes vinte anos,
como em todo meu tempo anterior,
estiveste comigo
– compreensão, coragem, segurança, rumo –
numa presença poderosa que poucos conhecem
e se chama caráter.
...
Ao fim destes vinte anos,
escrevo estas palavras e me envergonho
de não saber dizer melhor
dos acordes que soam em nós
que te conhecemos.

Mas,
se tanto não sei,
não sabemos,
sabemos o que importa:
que somos especiais
porque vivemos o tempo generoso da tua voz,
do teu gesto,
e continuamos a viver esse tempo,
confortados
por tua densa e cálida memória,
meu pai"

Fragmentos do poema "Vinte anos"

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"Passei bem perto da Morte,
mas sequer lhe dei bom-dia.
Ela tentou me falar,
porém fiz que não a via.

O que me diria a Morte
(depois me perguntaria)
se eu me houvesse disposto
a ouvi-la naquele dia?

Mais prudente não saber...
...
Assim creio que será
sempre o nosso dia a dia:
ela, tentando falar-me;
eu, negando-lhe o bom-dia"

Fragmentos do poema "A morte e o bom-dia"

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"Estarei oficialmente mais velho
dentro de poucos dias.

Consulto o espelho,
que apenas me fita
criticamente.
...
Continuo a interrogar
o espelho.
Ele agora tem
um ar irônico,
e o encaro da mesma maneira.

Com um pouco de sorte,
poderá se manter assim
por algum tempo ainda,
apenas irônico,
exibindo não mais
que algumas rugas e manchas,
a barba branca,
o cabelo, em parte,
nas trevas
– ou ao menos nas sombras –
de uma era
extinta"

Fragmentos do poema "Espelho"

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"Sempre quis fazer esta visita
todas as vezes que estive
na cidade,
mas havia a pressa, os compromissos, os outros
amigos. Assim é
o Tempo,
sabemos,
sempre escasso.

O Tempo
que certa vez não
existiu.
Longamente não
existiu. Era só
uma palavra (em alguns casos,
por certo,
advertência)
que não ouvíamos enquanto
brincávamos ao sol, ou noite
adentro.

O Tempo: nada
nos preparou
para ele, veio
silencioso
como uma nuvem, uma estação
mais fria,
nevoenta,
por onde vagamos temerosos
do horizonte.

Mas hoje, enfim,
aqui estou"

Fragmento do poema "Visita"

Ruy Espinheira Filho
(2012/Bertrand Brasil)


"Sessenta e cinco vezes
a volta ao Sol
e nenhuma revelação
nenhum sentido
nada

além do cultivo de uma sombra
cada vez mais longa
no ouro agonizante
da tarde"

Fragmento do poema "Outro aniversário"

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"Anoto apenas
estas prosas melancólicas,
estes fragmentos doentios de quem não mereceu
adormecer
o sono dos justos
ou, melhor ainda, o sono
dos canalhas,
que são estes, sem dúvida,
os que dormem mais
placidamente, confortáveis
em suas alminhas sem mácula de remorsos
(que o canalha propriamente é puro
em sua natureza; ou assim,
ou não passará de um falso
canalha, pobre
ovelha desgarrada
de que os canalhas riem com todas as suas
hienas)"

Fragmento do poema "Insônia"

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                                                  "Caminho
e não venho do carro que deixei na porta
do Campo Santo
                                    nem
do apartamento silencioso
mas
de muito mais longe e antes
                                            de uma névoa
através da qual te vejo
vencendo as ondas com braçadas vigorosas
ao sol dos anos quarenta
ou
               à noite
guiando o meu olhar para o farol
                                                          além da baía
ou
alto entre amigos
rindo muito
                         eu feliz à luz
azul
que baixava dos teus olhos"

Fragmento do poema "O pai"

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"Primeiro, foi daquela
maneira; depois,
de outro jeito; agora
assim. E amanhã
talvez não seja de modo
algum"

Fragmento do poema "Modos"

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"O mundo não pesava mais que uma mão
de criança em nossos ombros. E as almas
eram confiantes e fitavam, calmas,
o horizonte futuro: amplidão

de esperanças. O sonho se cumpria.
Era só caminhar na claridade
e semear a terra e ter vontade
de amanhecer no azul que amanhecia"

Fragmento do poema "Antielegia de agosto"

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"Raptaram uma moça na Cinelândia.
Um político inglês considera obscena escultura
que representa um casal de namorados.
Outro político sugere que a escultura seja colocada
num parque. Como falou Zaratustra,
para os puros tudo é puro,
para os porcos tudo é porco"

Fragmento do poema "Frio"

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Pílulas: Marce, de Gláucia Lemos

Gláucia Lemos - Foto Elaine Quirelli, interferida por Mirdad


"Meu Deus, esta ruína é Pedro. Que tempo passou que fez de Pedro este resto que é agora? As surpresas do tempo assemelham-se à fome dos abutres, muitas vezes. Não resisto à emoção e choro também. Meu fiel Pedro. Quem ou o que te pôde fazer tanto mal?"

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"Olhei para ele demoradamente. A maturidade física dava impressão de solidez, de abraço caloroso, de beijo denso. Senti aqui dentro um aperto de dor, uma vontade enorme de dizer: Vá embora! - e lavar com as palavras o pejo que estava sentindo por amá-lo assim, ainda vendo-o arrogante, ainda escutando-o presunçoso. Era um aperto de dor, coberto de vergonha, mas baixei a cabeça e lhe falei muito baixo, tão baixo que eu mesma quase não escutava:
- Entre e fique"

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"A química da pele é uma porta escancarada para esse vírus miserável que une as criaturas. É uma peste. Você tem consciência de que o outro é uma porcaria que lhe estraçalha a alma, o corpo, o coração, a sua própria vida, mas cadê que você é alguém para dizer: Vá embora, porra!"

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"Se isso é amor, que se amem! Essa traiçoeira mentira merece ser vivida, enquanto finge ser verdade. Enfim, o que compensaria viver, se não fossem inventadas as dores do amor?"

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"É um homem bonito. Gosto de olhar homens bonitos. Só olhar. Reeduquei-me para não amá-los. Pretendo ainda vir a adquirir suficiente sabedoria para entender a ilógica de amar aquilo que não se conhece. Olhar homens bonitos é uma festa para sensibilidade, e dela não abro mão. Aproveitemos o que têm para oferecer: alegria para os olhos. Não entendo por que escutar o belo é divino, mas contemplar o belo é vulgar. Jamais permiti que me impusessem esses códigos aprovados por outrem. Paguei por isso. Pagarei sempre"

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"Qualquer coisa vale muito pouco para durar uma vida"

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"Há pratos empilhados e talheres brilhantes alinhados em cima do aparador, em serviço americano. Acho ótimo. Não terei que enfrentar os rostos dos parentes em torno de um jantar servido à francesa. Seria desagradável a meu amor-próprio estar exposta aos olhos do desprezo ou da curiosidade. Principalmente porque não será possível revelar que lhes retribuo igual sentimento"


Gláucia Lemos
(2013/Solisluna)


"Eu era uma mulher corajosa, que perdera tudo por um canalha, para não ser hipócrita a um homem de bem. Assim, na noite morta em silêncio, com um deserto em volta, desfilei pretendendo vestir-me de altivez, em tentativa de não me deixar dobrar àquela chaga. Sangrava na contenção da minha vergonha, que jamais confiaria a alguém. A dor de cada um é muito pessoal, só se assemelha a si mesma. É sempre única, singular como a condenação de cada qual"

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"Os egoísmos do amor infernizam os afetos até as últimas consequências, mas a doação da amizade fortalece os vínculos"

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"Tantos são os primos que, muitas vezes, me perco na tentativa de identificar quem é filho de quem ... Não imagino quem será a minha companhia de quarto. Alguém sozinho, obviamente, como eu. Mas haverá alguém sozinho neste clã? Todos terão procurado devidamente os necessários pares, de acordo com os hábitos da tribo. E dariam até o derradeiro quinhão de paciência ou sacrificariam a última parcela da própria dignidade para conservar um casamento de aparência. Nenhuma das nossas mulheres se arriscaria a receber o ostracismo das malditas, por coerência com seus próprios sentimentos"

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"A intimidade é como a dor. Absolutamente nossa e indivisível"

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"Tantas vezes tive que escutar o meu dever de gratidão perante a irmã do meu pai. E as cadeias da obediência prendendo os tornozelos, machucando os pulsos, retendo as vontades, estrangulando as opiniões. E eu perdida. Dolores sorrindo e calando. Se era feliz, não sei. Talvez não fosse, mas recebia aplausos pela docilidade, e era conveniente conservá-la. Eu, ovelha negra, andando sobre os traços que riscavam no meu chão, sem direito a escolha, e aceitando sob opressão. Só perguntando por que deveria aceitar. Existe um figurino a que os poderosos submetem os subjugados. Nunca lhes perguntam se estão felizes, sequer se o compreendem"

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"Minha fuga era a busca da realização no meu ateliê, o isolamento por demoradas horas, sem respeito a descanso ou a hora de refeição, voltada somente para a mostra do museu. Assim me doava a meu trabalho, até que a exaustão me vencesse. Muitas vezes, no final das forças, entreguei o corpo ao abraço de uma cadeira de lona, rodeada de fragmentos de pedra, e ali fiquei até que a réstia de sol pousou no meu rosto pela fresta da janela, avisando-me de que estava principiando um novo dia, e era preciso continuar"

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Pílulas: Parte 04 - Estação Infinita, de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho (foto: Mário Espinheira - interferida por Mirdad)


"Todo amor está perdido
ao nascer.
                       Em vão nossos corpos
nos absorvem, em vão
nos lançamos aos nossos
abismos recíprocos:
                                            o amor
aí não está.

Em nós ecoa o seu chamado
e nos submete. Mas apenas
chamado: ao fim
há outro chamado
                                        e outro
                                                             e outro
e na origem do outro
que sempre vem depois
(e portanto nunca chega)
está o amor,
o que é o mesmo que não estar"

Fragmento do poema "Do Amor"

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"Quando as vontades
não se eximem do rei,
                            quando
as cabeças (de)pendem
de um salto bambo na corda,
melhor é ter pronto o nosso
lado mais claune,
                               porquanto
menos importa a lei
que um polegar de rei"

Fragmento do poema "Fragmentos de uma Viagem com Lemuel Gulliver", dedicado ao pai

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"Sei: com o tempo
só os mortos sobrevivem. Como você,
que passa distraída entre as árvores
e não me vê, distante, noutro plano;
                                                                e você
que me olha
com uma infância pungente
e me fala
com voz de lã.
Mas não me diz nada do que eu precisava
ouvir, enquanto eu nada lhe digo do que
precisava dizer,
como afinal sempre acontece
e logo é muito tarde.

                                       (Menos para os remorsos,
que no escuro vigilam; que no escuro
abrem seus poços sem fundo, onde
movem-se répteis dolorosos
e o que não se cumpriu:
doces cavalos
de asas amputadas, sangrando.)"

Fragmento do poema "Aqui, antes da noite"

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"É agosto e ocaso. Logo mais
sem acender as lâmpadas,
lembrarei meus avós brasileiros,
                                                        meus avós
italianos,
imigrantes de 1914,
pensarei que tiveram avós e avós
                                                           e avós
e que de mim virão (possivelmente)
netos e netos e netos
e me sentirei perdido
entre
uma borda e outra
do Universo"

Fragmento do poema "Agosto, ocaso"

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"Impossível vencer os sonhos
contrariados.
                               Em vão
tentamos sepultá-los sob
a urgência cotidiana.
                                              Em vão
nos esquivamos, apóstatas.
                                                     Em vão
os trocamos
por esta outra vida.
                                              Pois eles
não sufocam, não
se distanciam, não
cessam de sonhar,
                                   de se sonhar
em nós"

Fragmento do poema "Flor"


Ruy Espinheira Filho
(2012/Bertrand Brasil)
 

"Esta tarde
                        de súbito
                                              na chuva
curvei-me sobre mim
sobre
o que chamava amor e eis que era
sua falta
e por isso mesmo ainda mais
amor"

Fragmento do poema "Passionária"

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                     "Ah o rumor
do coração.
                      Ah
essa lua.
                      E quando tentamos
disfarçar
como
brancas pedras de certeza
                                                ou neutra
superfície,
                      eis que uma voz
pergunta
                      (como o fantasma
de Platão
entre as páginas de Yeats):
                                                "What then?"
                                                                            E daí
desfaz-se
a trapaça.
                      E retornamos
à vida.
                      Sob o luar
da memória.
                       No rumor
do coração"

Fragmento do poema "O luar, o rumor"

----------

"A vida transcorre
com uma lenta doçura,
assombrada de poemas
que iluminam como luas
o âmago sujo dos bares
(cárceres, porões, conveses,
nossos ermos, nossos lares)"

Fragmento do poema "Visita do poeta Carlos Anísio Melhor"

----------

"Rouca, por toda parte os seus tormentos
leva em versos de abismos e violentos

ventos. Áspera voz acende a tarde,
ou a noite, e a calma cessa, e a alma arde

a esse fulgor de desolado canto,
a essa palavra tanto espanto e pranto.

Pela cidade tece sua história,
num recanto intranquilo da memória

onde visito - angústia e alegria -
a esplêndida demência da poesia"

Fragmentos do poema "A poetisa"

----------

"No papel em branco,
letras, frases, versos
traças na procura
de luz que disperse
a nuvem obscura
em que vais a esmo,
órfão de ti mesmo.

No papel em branco,
a busca infinita
(um tempo de vida)
que talvez não leve
senão à invenção
de mais outras névoas
sobre as névoas fundas
que jazem submersas"

Fragmento do poema "Espumas"

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Pílulas: Parte 03 - Estação Infinita, de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho (foto: Mário Espinheira - interferida por Mirdad)


"Aqui estou
e não creio
porque em mim tuas palavras
tuas viagens a cavalo através das matas úmidas
      a memória do pomar da infância e do grande
                                 carvalho fendido por um raio
   o árduo trabalho pela justiça pago tantas vezes
                 com perus requeijões frutas hortaliças
ou não pago jamais
aquela manhã no quadrimotor eu 12 anos de idade
   e na mão
          a história dos cavaleiros da Távola Redonda
o comício contra os fuzis
    a cadela Baiana gemendo baixinho enquanto lhe
                                                  costuravas o ventre
                                        perfurado por uma estaca
de cerca
a dignidade
insuavizável como a do teu pai
a compreensão e o generoso
amor

Caminho
novamente caminho
estás comigo como quando pousavas a mão no meu
                                                                           [ombro
a ternura contida mas espessa"

Fragmento do poema "O pai"

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"Antes de tudo, não é nada disso.
Não te amo: é um amor de outrora
que te ama
como se diante de um espelho.

Talvez não me entendas. Mas isto
não importa: ainda que me
entendesses
eu sofreria igual"

Fragmento do poema "Antes de tudo"

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"Em dezembro morremos
todo ano.
                           E conduzimos nosso
desamparo
ao espelho. Rosto
tronco, membros:
                                   onde quem
vos habitou?"

Fragmento do "Poema de Dezembro"

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"Vangloriava-se de estar
a salvo de um mal:
                                                  perder
um filho.

Tornara-se imune a essa dor
de modo simples:
                                                  não tendo
filhos.

Sábio homem, esse,
cujo medo de perder
um filho
               o fez perder
todos os filhos"

Fragmento do poema "Lendo Plutarco"

----------

"Despedimo-nos do amigo
no azul da tarde. E, uns nos outros,
fitamos os rostos que
o tempo moldou sobre os
rostos suaves, aqueles
que nos fitam da memória"

Fragmento do poema "Despedidas"


Ruy Espinheira Filho
(2012/Bertrand Brasil)


                       "Desse avô,
nada nos chegou
de gesto, palavra,
legado de posses
(estas últimas levadas
por incertos cálculos
e certos parentes).
Mas nos veio este
mistério amoroso
que comove como
cantiga longínqua,
inaudível quase,
incompleta,
                       e que,
no entanto, escutamos,
e em nós recolhemos.

Desse avô que se foi
antes de nossas vidas,
uma herança cintila
nos ossos, no sonho,
e é doce no poço
do coração"

Fragmento do poema "Giuseppe"

----------

"Na calma das moringas
não se perde o rio.
Na água em repouso
ainda sonha o frio
da alma que flui,
espuma, ou voa (quando
se lança no vazio)"

Fragmento do poema "Moringas"

----------

"Fecho os olhos. Quero
me apagar na noite,
                                     ser a noite,
                                     esse grande silêncio
lá fora,
                         onde espero que o mundo
não esteja mais"

Fragmento do poema "Noturno"

----------

"Um dia recordarei
esta hora, estas palavras
que se escrevem leves como
a brisa, e com ela passam
para o jardim em que lembra
a minha alma
                        enquanto
tarda o tempo de esquecer"

Fragmento do poema "Enquanto"

----------

"Vejo-o ali, descalço na areia,
ouvindo o ar em valsa lenta.
Está ali, e em seu rosto a sombra
da ruga que me aguarda no espelho.

Mas não sou eu. É um que conhece a estrada
por onde passam lavadeiras.
                                                                 Não sou eu,
que não saberia ser tão leve
nem chamar pelo nome o perdigueiro
que se distancia, farejante.

É outro
                        com sua ciência de árvores,
murmúrios entre seixos, histórias
à luz do candeeiro,
                                       tudo o que perfaz
uma ração de mitos, anátemas, gorjeios.

Para dizê-lo
todos os alfabetos
                                       e nenhum.

Desconversemos
                                       que não podemos não
com este arquejo podrido do perempto
gotejando
doçura dolorosa de ex-manhã
e um menino
                           um menino
e seu inefável!"

Fragmento do poema "A Música Recusada"

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Vamos ouvir: Lutte

Lutte (2013) - Lutte



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Teaser de lançamento do CD

Evento de lançamento do CD em Salvador (20/09) aqui

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Pílulas: Parte 02 - Estação Infinita, de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho (foto: Mário Espinheira - interferida por Mirdad)


"Leves pancadas no corpo:
são cascas de tangerina
que lhe atiram do alto
(onde estão os livres, os
limpos, que se amam, dançam
em romântica viagem
pela costa do Brasil).
Diz: Covardes. Mas não se
deixa ver em vilipêndio.
O que valem, mesmo, os
gestos – sobretudo certos
gestos – do homem? Ele pensa
em lançar as cascas nas
ondas de urina;
                              porém
aperta algumas nos dedos
e aspira profundamente
o acre odor luminoso.
Isto não, jamais sujá-las
com os dejetos humanos!
Ao contrário: apagar
a noite filha do homem
na alma da tangerina.
E mais: abolir até
os sentimentos agudos
de que há pouco se nutria
consumindo-se, roaz"

Fragmento do poema "O prisioneiro Graciliano Ramos no porão do Manaus"

----------

"A caneta ainda escreve
com a mesma tinta
de um azul levemente melancólico

Na gaveta, dormindo
sob cartas e poemas,
o revólver aguarda"

Fragmento do poema "Os objetos"

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"No silêncio repousa o seu cansaço.
Tudo é imóvel na tarde,
                                                                    a não ser,
numa réstia de sol,
um vago pó girando
                                                 sobre
o silêncio maior das almas
fechadas nos livros
das estantes"

Fragmento do poema "No silêncio"

----------

"Como passaste, pai! Como passamos!

Há tanto tempo já que tu partiste.
Todo um mundo se foi – e vai, e vai...

Olho o teu rosto na moldura e penso
que tenho hoje idade de ser teu pai"

Fragmento do poema "Retrato"

----------

"Nos vossos olhos, imóveis
como chuva estagnada,
há lições serenas que
vêm-me umedecer a alma.
Mas que só compreenderei
quando for sábio de ver
além do espesso do mundo.
Quando, enfim, chegar ao alto
do meu próprio voo profundo"

Fragmento do poema "Afogados"


Ruy Espinheira Filho
(2012/Bertrand Brasil)


"Encontrou-o muito quieto e branco.

Do pé direito já parara de escorrer a úmida ferrugem
que começara na pedra e agora marcava também
as palhas e o chão de terra batida.

Alguém, no silêncio morno,
falou em destino.

Fiquei pensando naquela pedra
com uma missão mortal determinada
desde o princípio dos tempos.

Aquela pedra, ali, vulgar e triste
como a ideia de destino"

Fragmento do poema "Naro"

----------

"O que vem de ti ainda é o murmúrio
que move o sol e as outras estrelas,
embora há pouco
alguém
olhando uma fotografia recente
tenha dito que a tua pele
já não é a mesma"

Fragmento do poema "Anotações num dia de aniversário"

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"Não mudarei em nada a minha vida
para alcançar outra melhor na morte.
Dou-me aos azares, sim, arrisco a sorte,
mas aqui, neste mundo, nesta lida

em que me sinto, sou. Vida, se houver,
depois da morte, valeria a pena
sendo como esta vida: densa, plena
de ganhos, perdas, sonhos - e mulher"

Fragmento do poema "Soneto do sábio ócio"

----------

"Amor pressente amor e não o encontra.
Encontra-se a si mesmo
                                                       e é dor somada.
Mas é preciso achar
                                                       e ele prossegue.
Fareja, como um cão,
                                                       mas não há presa.
Desconfia um perfume
                                                       e a brisa o leva"

Fragmento do poema "Equívoco"

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"Outra é a que
há muito se foi
para longe e dói
num sulco de afeto
incicatrizável"

Fragmento do poema "As Meninas"

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Dedicatórias: Livros de Adelice Souza, Carlos Barbosa, Gláucia Lemos, As Baianas e Aurélio Schommer

Livros de Adelice Souza, Carlos Barbosa, Gláucia Lemos, As Baianas e Aurélio Schommer


2008 - "Dicionário de Fetiches" (Edição do Autor/2008) de Aurélio Schommer


"Ao grande escritor Emanuel Mirdad. Com humildade, devoção e um grande abraço. SSA, 07/06/08. Aurélio Schommer"
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2009 - "A Dama do Velho Chico" (Bom Texto/2009) de Carlos Barbosa


"Ao Mirdad, com um abraço amigo, do Carlos Barbosa. 25 jul 2009. Dia do escritor. Aniversário de Mayrant Gallo"
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2010 - "Bicho de Conchas" (UBE & Scortecci/2008) de Gláucia Lemos


"Para Mirdad, com simpatia da autora. Gláucia Lemos. Salvador, fev, 2010"
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2012 - "As Baianas" (Casarão do Verbo/2012), de Carlos Barbosa, Elieser Cesar, Gustavo Rios, Lima Trindade, Mayrant Gallo e Tom Correia


"P/Mirdad. Com um abraço. Gustavo"

"Para Mirdad, esta Bonnie, capaz de tudo. Mayrant Gallo SSA, 10/02/2012"

"Para Mirdad, esta história momesca sem confetes. 10/02/2012 (Auto-caricatura de Lima Trindade)"

"A Mirdad, que não tem idad. Com ... Elieser"

"Ao Mirdad, grande agitador e escritor, esta história da putinha, com um abraço do Carlos Barbosa. SSA, 10.02.02"

"Para Mirdad, mentor literário FLICA. Abraço, Tom Correia"
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2012 - "O Homem que Sabia a Hora de Morrer" (Escrituras/2012) de Adelice Souza


"Para: Mirdad, este meu 1º romance. Abril/12. Aqui há uma mistura de imaginário e lembrança para falar de uma sabedoria quase inexistente. Que este universo se encontre com tua sensibilidade de autor, leitor e produtor. C/carinho, Adelice"
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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Pílulas: Parte 01 - Estação Infinita, de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho (foto: Mário Espinheira - interferida por Mirdad)


"Por isso
suave é a notícia
de sua morte.
                                Pois
você
fez o percurso sem ceder espaço
aos logros da
esperança;
                                       ao sonho,
que nos desperta para que o vejamos
apenas
desfazer-se no ar.

Assim você: na plena
                                                  claridade,
rejeitando os véus com que
nós todos nos protegemos,
nos mentimos,
contra a luz implacável de cada instante,
de cada
mínimo tremor
do coração.
...
Você foi, entre nós, na sordidez
de cada dia, a dura limpidez
de quem nada buscou, pois tudo o que há
é um gesto, um lampejo – e a noite cai"

Fragmentos do poema "Grácia"

----------

"Só depois é que amamos
a quem tanto amávamos;
e o braço se estende, e a mão
aperta dedos de ar.
...
Só depois é que sabemos
lidar com o que lidávamos.
E meditamos sobre esta
inútil descoberta

enquanto, lentamente,
da cumeeira carcomida
desce uma poeira fina
e nos sufoca"

Fragmentos do poema "Descoberta"

----------

"O avô descansa
de quase um século.
O rosto é sereno
(não sei como pode
mostrar essa calma
após tanto tempo)
e as mãos despediram
todos os gestos.
...
Descansa tão fundo e
alto que é impossível
despertá-lo, saber
mesmo onde repousa.
No entanto está em nós
e nos impõe seu traços,
cor de olhos, jeito
de andar, sorrir, falar.

E o mais difícil de
cumprir:
               a insuavizável
dignidade"

Fragmentos do poema "O Avô"

----------

"Penso nelas com amor. Não como as amei outrora,
mas como foram-se acomodando em mim
ano após ano, umas
com cálida harmonia, outras
com certo incômodo, outras
de modo fragmentário, e algumas
tão sutilmente             que talvez
sejam apenas um movimento ilusório
da alma.

Penso nelas e as vejo
como estão hoje e tudo faço
para que o tempo tenha passado
de leve sobre seus rostos.
Vejo-as sentadas, hirtas ou em repouso.
Vejo-as andando, indo à noite, ao mar.
Vejo-as vestidas suntuosamente
e mais suntuosamente
nuas.

Penso nessas mulheres e as vou
fabulando serenas e tão saciadas
de amor e sexo que nunca pensam
neste que nelas pensa há muito e sempre.
O que não importa, porque o que conta
é o que penso, o que invento delas,
de suas vidas hoje,
não para consolá-las, que nada sabem,
mas como um afago
em mim"

Fragmento do poema "Mulheres"

----------

"As vozes da sabedoria
são águas pesadas que despertam
sujeiras e chagas onde tocam.
                   Pois nos lembram
o que somos,
o que não queremos
ser,
o que não suportamos
ser,
o que nos desespera
de ser,
como o que foi dito há pouco
e mais verdades reveladoras
de que, por exemplo, somos apenas
sombras
e o mais que conseguimos
são mãos cheias de trabalho e vento
que passa"

Fragmento do poema "Adeuses"


Ruy Espinheira Filho
(2012/Bertrand Brasil)


"Falta alguma coisa.
Falta desde sempre.

Desde que me sinto.
Mesmo nos Natais,

quando havia tudo
– árvore, presentes,

luzes, cantos, risos,
a família cálida –

de súbito abria-se,
no íntimo, a falta,

sem nome, sem rosto,
sem história, só

presença da ausência.
...
De tudo o que tive

e tenho, talvez
só haja possuído

mesmo esta falta,
que há de ficar

presente e pungindo
até que eu transponha

o último limiar,
quando então, por fim,

nada faltará"

Fragmentos do poema "A falta"

----------

"Quanto mais o olhar acera,
recrudesce a noite vasta,
restando apenas à fera
as trevas em que se engasta

Choramos, era após era,
esta carência que pasta
entre escombros de quimera
tudo aquilo que não basta"

Fragmento do poema "Soneto da Triste Fera"

----------

"Não sei como tantas vastidões
couberam um dia nessa pequena
casca de osso
que o coveiro retira com as mãos nuas
e deposita na caixa de metal.
...
                                                        uma vez,
não sei como, cintilaram
                                                  galáxias
nessa pequena e frágil casca que conduzimos
entre outros inúteis objetos pessoais
deixados por aquele que partiu
para nenhum endereço"

Fragmentos do poema "Exumação"

----------

"Escuto o tempo fluindo,
fugindo. Sobe um soluço
da carne de tudo: móveis,
tecidos, metais. Que forte
é a morte!
                            E só a memória
vive, vive-nos, e soa
seus violinos de névoa
sob um frio sol que monta
num céu de assombro: o Perdido"

Fragmento do poema "Fuga"

----------

"Um dia,
                        o fio
é um rio
por onde rápido
viajas.
                 As máscaras de uso
cotidiano
alinham-se às margens
                                          e pulverizam-se
ao teu passar.

Ao fim
te aguardas e te encontras.
Nunca inteiro: apenas
mínima parte
                         sem véus.

E te fitas
                 e te tocas
                                    um instante
                                                    um
                                                    quase sem tempo
                                                e já recuas
e já retornas
e as máscaras se recompõem
                                                e
                                     irônicas
te sorriem"

Fragmento do poema "Busca"

----------

"Tantos são os abandonados
e caminham ásperos no silêncio.
Há os que rezam, os que choram, os que se mantêm
                                                                impenetráveis.
E todos depois retornam às casas, aos pequenos
mitos auxiliares de cada dia
sob o indiferente azul do céu"

Fragmento do poema "Dia de Finados"

sábado, 7 de setembro de 2013

Dedicatórias: Livros de Hélio Pólvora e Ruy Espinheira Filho

Livros de Hélio Pólvora e Ruy Espinheira Filho


2011 - "Melhores Contos" (Global/2011) de Hélio Pólvora


"A Mirdad, grande coordenador da I Flica de Cachoeira. Hélio Pólvora, out. 2011"
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2012 - "Don Solidón" (Casarão do Verbo/2012) de Hélio Pólvora


"A Mirdad, com a esperança de que venha a filmar este romance. Hélio Pólvora. Maio 2012"
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2012 - "A Casa dos Nove Pinheiros" (Dobra Editorial/2012) de Ruy Espinheira Filho


"Ao Mirdad, com um abraço grande do Ruy Espinheira Filho. Cachoeira, Flica 2012"
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2013 - "Estação Infinita" (Bertrand Brasil/2012) de Ruy Espinheira Filho


"Ao Mirdad, com o abraço maior do Ruy Espinheira Filho. Salvador, maio de 2013"
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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Vamos ouvir: Esboços, de Pedro Veríssimo

Esboços (2012) - Pedro Veríssimo




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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Dedicatórias em livros de presente: Clarice Lispector, Rilke, Arnaldo Branco e Saulo Ribeiro

Livros de Clarice Lispector, Rilke, Arnaldo Branco e Saulo Ribeiro


2007 - "Cartas a um Jovem Poeta" de Rainer Maria Rilke, presente do amigo e artista plástico Mark Dayves.


"Que estas cartas te inspirem. Do amigo Dayves. 18/10/07"
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2010 - "Perto do Coração Selvagem", de Clarice Lispector, presente da querida amiga Vanessa Souza.


"Mirdad, Eis seu primeiro exemplar da Clarice para sua 'casa'. Beijos, Vanessa. Rio, 10/06/10"
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2010 - "Mundinho Animal", de Arnaldo Branco, presente do amigo-irmão e cartunista Rodrigo Minêu.


"Para meu amigo-irmão, mais irmão do que amigo, por mais 100 anos. 7/out/2010 - Minêu -"
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2011 - "Ponto Morto" de Saulo Ribeiro, presente do amigo e poeta Wladimir Cazé.


"Para o grande Mirdad, uma novela noir para nublar o verão da Bahia. Boa leitura. E um ótimo 2011. Wladimir Cazé. 4/01/2011"
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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Pílulas: Parte 02 - Epígrafes de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho (foto: divulgação, interferida por Mirdad)


"Antigamente é um país mágico"
                                                            "Frio"
----------

"Uma característica do tempo: subtrair-se avaramente, sobretudo quando gostaríamos que permanecesse mais"
                                                                        "Do súbito, do nada, uma carta"
----------

"Às vezes me ocorre que escrever é exatamente isso: ofício de quem não sabe aonde ir"
                       "Condição"
----------

"Das viagens não regresso jamais"
                                                                "Depois"
----------

"No silêncio repousa o seu cansaço"
                                                                "No Silêncio"
----------

"Creio ter merecido de Deus, por fim, a misericórdia que concede a grande paz de Sua altíssima indiferença"
                                             "Elas"
----------

"No ventre, o dom de semear novas infâncias numa terra distante"
                                                                                                              "A avó"
----------

"Diremos outra vez as mesmas palavras e elas serão novas, embora tenha havido o que houve e saibamos o que sabemos"
                                                                    "31 de dezembro"
----------

"Há um frio de horas velhas na alma que se medita"
                                                                                       "Canção da alma meditativa"
----------

"Há sempre uma mulher cintilando em algum lugar do tempo"
                                                                                                      "Bilhete a Guido Guerra"
----------

"As vozes da sabedoria são águas pesadas que despertam sujeiras e chagas onde tocam"
                        "Adeuses"
----------

"Sob esta luz o mundo inteiro some: só há o luar compondo em mim teu rosto, e o mar, que arde no aroma do teu nome"
                                                                 "Soneto do nome"
----------

"Depois de certo tempo, a única certeza que temos em nós é a da implacável beleza das mulheres que amamos um dia, loucamente e até, em casos mais graves, eternamente"
                         "Depois de certo tempo"
----------




Todas as epígrafes sugeridas acima estão presentes no volume "Estação Infinita e outras estações" (2012/Bertrand Brasil), que reúne a obra completa de Ruy Espinheira Filho.