quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Pílulas: Parte 02 - Estação Infinita, de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho (foto: Mário Espinheira - interferida por Mirdad)


"Leves pancadas no corpo:
são cascas de tangerina
que lhe atiram do alto
(onde estão os livres, os
limpos, que se amam, dançam
em romântica viagem
pela costa do Brasil).
Diz: Covardes. Mas não se
deixa ver em vilipêndio.
O que valem, mesmo, os
gestos – sobretudo certos
gestos – do homem? Ele pensa
em lançar as cascas nas
ondas de urina;
                              porém
aperta algumas nos dedos
e aspira profundamente
o acre odor luminoso.
Isto não, jamais sujá-las
com os dejetos humanos!
Ao contrário: apagar
a noite filha do homem
na alma da tangerina.
E mais: abolir até
os sentimentos agudos
de que há pouco se nutria
consumindo-se, roaz"

Fragmento do poema "O prisioneiro Graciliano Ramos no porão do Manaus"

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"A caneta ainda escreve
com a mesma tinta
de um azul levemente melancólico

Na gaveta, dormindo
sob cartas e poemas,
o revólver aguarda"

Fragmento do poema "Os objetos"

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"No silêncio repousa o seu cansaço.
Tudo é imóvel na tarde,
                                                                    a não ser,
numa réstia de sol,
um vago pó girando
                                                 sobre
o silêncio maior das almas
fechadas nos livros
das estantes"

Fragmento do poema "No silêncio"

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"Como passaste, pai! Como passamos!

Há tanto tempo já que tu partiste.
Todo um mundo se foi – e vai, e vai...

Olho o teu rosto na moldura e penso
que tenho hoje idade de ser teu pai"

Fragmento do poema "Retrato"

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"Nos vossos olhos, imóveis
como chuva estagnada,
há lições serenas que
vêm-me umedecer a alma.
Mas que só compreenderei
quando for sábio de ver
além do espesso do mundo.
Quando, enfim, chegar ao alto
do meu próprio voo profundo"

Fragmento do poema "Afogados"


Ruy Espinheira Filho
(2012/Bertrand Brasil)


"Encontrou-o muito quieto e branco.

Do pé direito já parara de escorrer a úmida ferrugem
que começara na pedra e agora marcava também
as palhas e o chão de terra batida.

Alguém, no silêncio morno,
falou em destino.

Fiquei pensando naquela pedra
com uma missão mortal determinada
desde o princípio dos tempos.

Aquela pedra, ali, vulgar e triste
como a ideia de destino"

Fragmento do poema "Naro"

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"O que vem de ti ainda é o murmúrio
que move o sol e as outras estrelas,
embora há pouco
alguém
olhando uma fotografia recente
tenha dito que a tua pele
já não é a mesma"

Fragmento do poema "Anotações num dia de aniversário"

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"Não mudarei em nada a minha vida
para alcançar outra melhor na morte.
Dou-me aos azares, sim, arrisco a sorte,
mas aqui, neste mundo, nesta lida

em que me sinto, sou. Vida, se houver,
depois da morte, valeria a pena
sendo como esta vida: densa, plena
de ganhos, perdas, sonhos - e mulher"

Fragmento do poema "Soneto do sábio ócio"

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"Amor pressente amor e não o encontra.
Encontra-se a si mesmo
                                                       e é dor somada.
Mas é preciso achar
                                                       e ele prossegue.
Fareja, como um cão,
                                                       mas não há presa.
Desconfia um perfume
                                                       e a brisa o leva"

Fragmento do poema "Equívoco"

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"Outra é a que
há muito se foi
para longe e dói
num sulco de afeto
incicatrizável"

Fragmento do poema "As Meninas"

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