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Pílulas: Parte 05 - Estação Infinita, de Ruy Espinheira Filho

Ruy Espinheira Filho (foto: Mário Espinheira - interferida por Mirdad)


"Subi, então, no penhasco
mais alto, negro monstro
nascido de agonias
imemoriais. E lá fiquei,
batido pelo vento,
até que a noite veio. E como a noite
não era senão apenas noite,
deu-me vontade de chorar. E lentamente
comecei a voltar
para casa. Depois, já no meu quarto,
descobri que ainda continuava
sobre o penhasco. Ainda esperava
que alguma coisa chegasse
de muito longe,
e tinha os olhos cravados
em pesadas nuvens
do Oeste. Ermo
e expectante"

Fragmento do poema "Sobre o penhasco"

----------

"Nestes vinte anos,
como em todo meu tempo anterior,
estiveste comigo
– compreensão, coragem, segurança, rumo –
numa presença poderosa que poucos conhecem
e se chama caráter.
...
Ao fim destes vinte anos,
escrevo estas palavras e me envergonho
de não saber dizer melhor
dos acordes que soam em nós
que te conhecemos.

Mas,
se tanto não sei,
não sabemos,
sabemos o que importa:
que somos especiais
porque vivemos o tempo generoso da tua voz,
do teu gesto,
e continuamos a viver esse tempo,
confortados
por tua densa e cálida memória,
meu pai"

Fragmentos do poema "Vinte anos"

----------

"Passei bem perto da Morte,
mas sequer lhe dei bom-dia.
Ela tentou me falar,
porém fiz que não a via.

O que me diria a Morte
(depois me perguntaria)
se eu me houvesse disposto
a ouvi-la naquele dia?

Mais prudente não saber...
...
Assim creio que será
sempre o nosso dia a dia:
ela, tentando falar-me;
eu, negando-lhe o bom-dia"

Fragmentos do poema "A morte e o bom-dia"

----------

"Estarei oficialmente mais velho
dentro de poucos dias.

Consulto o espelho,
que apenas me fita
criticamente.
...
Continuo a interrogar
o espelho.
Ele agora tem
um ar irônico,
e o encaro da mesma maneira.

Com um pouco de sorte,
poderá se manter assim
por algum tempo ainda,
apenas irônico,
exibindo não mais
que algumas rugas e manchas,
a barba branca,
o cabelo, em parte,
nas trevas
– ou ao menos nas sombras –
de uma era
extinta"

Fragmentos do poema "Espelho"

----------

"Sempre quis fazer esta visita
todas as vezes que estive
na cidade,
mas havia a pressa, os compromissos, os outros
amigos. Assim é
o Tempo,
sabemos,
sempre escasso.

O Tempo
que certa vez não
existiu.
Longamente não
existiu. Era só
uma palavra (em alguns casos,
por certo,
advertência)
que não ouvíamos enquanto
brincávamos ao sol, ou noite
adentro.

O Tempo: nada
nos preparou
para ele, veio
silencioso
como uma nuvem, uma estação
mais fria,
nevoenta,
por onde vagamos temerosos
do horizonte.

Mas hoje, enfim,
aqui estou"

Fragmento do poema "Visita"

Ruy Espinheira Filho
(2012/Bertrand Brasil)


"Sessenta e cinco vezes
a volta ao Sol
e nenhuma revelação
nenhum sentido
nada

além do cultivo de uma sombra
cada vez mais longa
no ouro agonizante
da tarde"

Fragmento do poema "Outro aniversário"

----------

"Anoto apenas
estas prosas melancólicas,
estes fragmentos doentios de quem não mereceu
adormecer
o sono dos justos
ou, melhor ainda, o sono
dos canalhas,
que são estes, sem dúvida,
os que dormem mais
placidamente, confortáveis
em suas alminhas sem mácula de remorsos
(que o canalha propriamente é puro
em sua natureza; ou assim,
ou não passará de um falso
canalha, pobre
ovelha desgarrada
de que os canalhas riem com todas as suas
hienas)"

Fragmento do poema "Insônia"

----------

                                                  "Caminho
e não venho do carro que deixei na porta
do Campo Santo
                                    nem
do apartamento silencioso
mas
de muito mais longe e antes
                                            de uma névoa
através da qual te vejo
vencendo as ondas com braçadas vigorosas
ao sol dos anos quarenta
ou
               à noite
guiando o meu olhar para o farol
                                                          além da baía
ou
alto entre amigos
rindo muito
                         eu feliz à luz
azul
que baixava dos teus olhos"

Fragmento do poema "O pai"

----------

"Primeiro, foi daquela
maneira; depois,
de outro jeito; agora
assim. E amanhã
talvez não seja de modo
algum"

Fragmento do poema "Modos"

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"O mundo não pesava mais que uma mão
de criança em nossos ombros. E as almas
eram confiantes e fitavam, calmas,
o horizonte futuro: amplidão

de esperanças. O sonho se cumpria.
Era só caminhar na claridade
e semear a terra e ter vontade
de amanhecer no azul que amanhecia"

Fragmento do poema "Antielegia de agosto"

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"Raptaram uma moça na Cinelândia.
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que representa um casal de namorados.
Outro político sugere que a escultura seja colocada
num parque. Como falou Zaratustra,
para os puros tudo é puro,
para os porcos tudo é porco"

Fragmento do poema "Frio"

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