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Mostrando postagens de Agosto, 2015

Seis passagens de Joana Rizério no livreto É pegar ou largar

Joana Rizério (foto: Lígia Rizério)

"Amarraremos uma fitinha nas grades da Igreja do Bonfim vertendo lágrimas, mas não saberemos que um funcionário vai lá, a cada três meses, para tesourar os desejos de todo mundo e jogar no lixão de Canabrava."


"(...) até as surucucus reais, até a mais viril das anacondas (até aquele cara que nos bastidores apelidamos de 'madeirada luxo' – não por ser grande, mas por ser delicioso); até estes abençoados machos serão, um dia, graduados como teus parceiros de infortúnio. (...) Porque a pequenez é uma espécie de falecimento do pinto. E todo pinto um dia se vai, seja por idade, defeito ou pelo bater de botas do dono inteiro. O fim sempre espreita, implacável, como toda morte."


"(...) Posso ver daqui a água que trouxe Caramuru, a água que é de Yemanjá. (...) Nomes de nomes, como ladeira da água brusca, água de meninos, águas claras. Água por todo lado, água pingando da torneira de minha pia: água, que toda menina baiana é …

Nove passagens de Sérgio Sant'Anna no livro O voo da madrugada

Sérgio Sant'Anna (foto daqui)

"A velha senhora sabia muito bem que em regiões muito mais distantes que aquela onde se encontrava a estrela havia bilhões de outras, em espaços onde estariam ocorrendo explosões nucleares de um poder espantoso, que se alimentavam de si próprias, sem o testemunho de nenhum ser por perto. No entanto, em algum ponto do universo havia pelo menos um ser pensando nisso, que era a velha senhora, ocupando seu lugarzinho ínfimo, como o de uma formiga de apartamento, iluminado pela luz do abajur, e lançando seu pensamento tão precário para aqueles eventos grandiosos e invisíveis, como estrelas emitindo seu brilho portentoso desde há milhões de anos-luz. Aquilo deixava a velha senhora completamente humilde, e entretanto muito orgulhosa de fazer parte daquele todo universal em cujo interior muito em breve se perderia."


"Não durou mais do que aqueles instantes de reconhecimento para que a aparição se dissipasse, deixando-me para sempre na dúvida de…

O grito do mar na noite no programa Soterópolis da TVE

Emmanuel Mirdad e a jornalista Vânia Dias

O meu livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015) foi destaque ontem, 27/08/2015, encerrando o programa Soterópolis da TVE, em entrevista feita pela jornalista Vânia Dias. Veja abaixo:



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A página de HQ mais espetacular de todos os tempos

Batman: The Killing Joke (1988), de Alan Moore e Brian Bolland

Homem-formiga

Foto daqui

Desde pequeno, resolvo as tarefas dos outros. O último a apagar a luz. O último dos moicanos. SOS Malibu. Como o mestre Hélio Pólvora me ensinou: "Ser homem é assumir a realidade". Lembrou-me um lema que criei para a primeira sociedade que tive na área cultural: "A gente resolve". Mas não é nenhum bicho de sete cabeças resolver. Nem lida para especiais. Não tem, absolutamente, nada de diferencial ou especial. É apenas compromisso. A profissão à frente do ego. O trabalho acima da vaidade. A engrenagem primeiro que a dor. A responsabilidade a vencer a preguiça. A coragem de assumir o que deve ser feito acima do que você deseja. O método, o planejamento, o império da razão a vencer a artimanha, o comodismo, o corporativismo, a corrupção. Simples: você é uma formiga. Trabalhe. Cumpra a sua função. É o único sentido que te mantém vivo. O resto é distração. Desnecessária.

15 anos de Last Fly, 15 anos do Orange Poem

Papel original digitalizado da letra escrita na contracapa  do módulo do PhD no ano 2000, mas com as correções da última versão

Pode uma canção gerar um projeto? Pois quinze anos atrás, no dia 24 de agosto do ano 2000, uma quinta-feira, compus Last Fly, que originou o projeto e banda Orange Poem, trampo que me dediquei até 2007, e ano passado finalizei com a produção de seis EPs (reunidos em um disco duplo - ouça aqui).

Na série Composições deste blog, contei a história da canção - leia aqui. Um trechinho sobre a debutante:

"(...) Era manhã, estava ensaiando para a gravação de um demo com canções de amor dedicadas à namorada da época. Entre uma música e outra, fiquei tocando notas a esmo no violão Alhambra de minha mãe (o mesmo em que ela tocava Bossa Nova comigo na barriga pra espantar o tédio da gravidez em casa). Por um acaso (ou uma quase psicografia), passei do meu acorde preferido menor para o maior (de F#m para F#) e segui pela harmonia A, E, F#m e G#m duas vezes. Simples e…

Sete passagens de Dalton Trevisan no livro Cemitério de elefantes

Dalton Trevisan (foto daqui)

"Na primeira noite ele conheceu que Santina não era moça. Bento havia se casado por amor e ficou desesperado; matar a esposa e suicidar-se era deixar o outro sem castigo. Depois de muita insistência, ela revelou que, há dois anos, quando se achava deitada à noite, pajeando uma criança, entrara no quarto um primo chamado Euzébio e lhe fizera mal, sem que pudesse defender-se. (...) Santina pediu perdão, mas ele respondeu que era tarde – ela casara de grinalda sem ter direito. (...) Por mais que ela se enfeitasse, com banho no rio e fita no cabelo, Bento mastigava a sua raiva no prato de feijão. (...) Ficou muito nervoso, comia pouco e quase não dormia, de olhos acesos na escuridão. A moça estirava-se a seu lado, sem que um pudesse consolar o outro. Nunca mais ele fez qualquer carinho. (...) Não podia esquecer o agravo, ofendido com o primo, e sentia gana de se vingar. (...) Ah, se lhe houvesse contado antes... quem sabe pudesse perdoar e, pelo caminho, …

Dedicatórias: Livros de Carlos Barbosa, Tarcísio Buenas, Joana Rizério, Georgio Rios, Marcus Vinícius Rodrigues e Catarina Guedes

Livros de Carlos Barbosa, Tarcísio Buenas, Joana Rizério,  Georgio Rios, Marcus Vinícius Rodrigues e Catarina Guedes

2015 - Obscenas (P55/2015)


"Ao Emmanuel Mirdad, escritor de cepa, com um abraço amigo do Carlos Barbosa. SSA, 29.07.15" -----------
2015 - 18 de maio, quanto tens por dizer (Buenas Books/2015)


"Para Mirdad, este belo e doloroso 18 de maio, quanto tens por dizer... Meu primeiro livro. Grande abraço, Buenas. Salvador/15." -----------
2015 - É pegar ou largar (da autora/2015)


"Mirdad, muito obrigada por organizar o meio de campo. Só não canto 'dono da minha cabeça' de Alceu pra você não se achar tanto. Beijão! Jojô" -----------
2015 - Ficções ao mar (P55/2012)


"Ao comparsa Mirdad, as ondas deste meu estuário. Georgio Rios" -----------
2015 - Arquivos de um corpo em viagem (Mondrongo/2015)


"Para Mirdad, alguns poemas da memória do corpo. Um grande abraço. Marcus Vinícius Rodrigues. 28/06/2015" -----------
2015 - Isadora, su…

Sete passagens de Hélio Pólvora no livro A mulher na janela

Hélio Pólvora (foto: Erno Schneider)

"Quando o dinheiro acabou e já não havia cigarros, ele embrulhou o melhor terno (possuía dois) e desceu a escada. Pisava nos cantos dos degraus para não despertar a madeira e atrair o dono da pensão. Ultimamente evitavam-se – um com vergonha de cobrar o dinheiro, o outro de entrar em longas explicações. Por isso ele renunciara ao jantar; a tortura repetia-se apenas ao meio-dia. De cima, do seu quarto, espreitava a descida dos hóspedes, e quando o volume de vozes alteava-se, descia, procurava mesa encostada à parede e desdobrava o guardanapo nos joelhos. O dono da pensão aproximava-se com a terrina de sopa. Não se falavam, mas era como se travassem, um de cabeça baixa, o outro encarando-o do alto, áspero diálogo (...) De modo que ele desceu a escada a pisar de leve, o embrulho de roupa batendo-lhe na ilharga. Avançou pela sala agora vazia, em largas passadas – mas como se o pressentisse, ou estivesse à sua espera, o dono da pensão abriu uma por…

Oito passagens de Carlos Barbosa no livro de minicontos Obscenas

Carlos Barbosa no lançamento do livro (foto: Sarah Fernandes)

"O homem que lê contempla o mar.
Do alto da torre em que mora.
Enquanto afaga seu barril de amontilado.
O mar, matéria por demais agitada, entontece.
O homem, que lê bem conhece.
Prefere o mar que tem aberto nas mãos.
Encadernado.
Onde costumeiramente mergulha (...)"


"A mulher prepara um cozido (...)
Molho de pimenta reservado.
O copo de cerveja na bancada a lacrimar.
Depois de um gole, a mulher enxuga a testa com o dorso da mão esquerda.
Só então começa a esquartejar o desgraçado."


"Quero uma noite primária e tonta.
Um tempo de mármore para esculpir seu nome.
Um beijo que vibre na varanda, que rompa o lacre da madrugada.
Quero escrever em sua carne branda com meus dentes implantados.
Quero a dor embalada pra presente.
Um dia de inverno no leito rachado de um riacho.
Eu a quero como teto, como janela pro mar.
Um ardil que aprisione nosso áspero odor (...)"


"Bandido prende o cidadão honesto…

Cinco passagens de Catarina Guedes no romance Isadora, sua camisola La Perla e a Br

Catarina Guedes (foto: Ricardo Prado)

"(...) Normal é um conceito bem relativo. O meu normal certamente enche os olhos da indústria farmacêutica, mas ela não fatura comigo, porque não arrisco mais que um frasco de fitoterápico floral conservado no conhaque, direto na boca, sem conta-gotas (...) O dia amanheceu com um cheiro de cuscuz, e ovo frito. Acertei as contas com a senhora na portaria e fingi que não vi os casais esquisitos que saíam lá de dentro. A mulher, que também não parecia nada normal - ou, ao contrário, era tão normal e ambientada que parecia ter sido feita da mesma argamassa daquelas paredes - perguntou se eu por acaso não tomaria o café da manhã (...)"


"— Paula Oliveira, por favor. — A Paula não veio hoje, nem virá nos próximos 30 dias. Saiu de férias — falou uma dessas criaturas de redação que, embora não seja a norma culta, nem tampouco o hábito local, não dispensa um artigo definido antes do nome próprio."


"Theo é do tipo que ama as coisas e…

Terminei de escrever o livro de contos Olhos abertos no escuro

Hoje, concluí a produção literária do meu próximo livro, Olhos abertos no escuro, composto por 18 contos curtos do inédito Paisagem da insônia (veja post sobre este aqui) e mais os 12 melhores contos do Abrupta sede, lançado em 2010 pela Via Litterarum, que foram revisados e reescritos (atualmente desconsidero esse meu primeiro livro, que foi feito numa época não profissional).

O título Olhos abertos no escuro foi retirado de uma passagem do conto Gravidade, do escritor e mestre Mayrant Gallo, presente no livro O inédito de Kafka (Cosac Naify, 2003). Assim como fiz no livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015), em que prestei uma homenagem ao escritor e mestre Hélio Pólvora, agora homenageio o amigo Mayrant, e trago uma epígrafe dele abrindo cada um dos meus 30 contos em Olhos abertos no escuro.

O original seguirá, então, para a revisão e posterior finalização, e a previsão de lançamento é para o começo de 2016.

É a minha despedida dos contos, pois só me dedicarei,…

Entrevista com o autor do livro O grito do mar na noite

Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite no lançamento em Salvador/BA  Foto: Yomã Ferreira Mattiello

Semana passada, o blog CultVerso publicou uma entrevista com o escritor Emmanuel Mirdad (leia aqui), que falou do seu novo livro de contos, O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015), lançado no final de julho, entre outros assuntos. O blog reproduz abaixo a entrevista:


1 - Qual a inspiração em escrever um livro de contos? Quais as temáticas abordadas nos contos do livro?

A inspiração de escrever um livro de contos é vibrar com a possibilidade de trazer ao leitor várias histórias distintas num mesmo livro.

O grito do mar na noite é formado por dez contos, e, logo na abertura, Chá de boldo fala sobre o abandono de pessoas pela própria família. Sol de abril apresenta a bela e triste história de Lourdes, a sanfoneira caolha, uma homenagem à canção Assum Preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e Assexuada traz o dilema de Monique, a mulher que nunca gozou e não se importa, mas…

Oito passagens de Tarcísio Buenas no livro 18 de maio, quanto tens por dizer...

Tarcísio Buenas (foto: Divulgação)

"- Tá me paquerando?
- Não, por quê?
- Você piscou pra mim.
- É sono."


"(...) Deve ser mesmo um incômodo pros babacas ser rico, rocker e poeta talentoso com muita grana pra gastar. Nunca entendi por que o poeta tem que ser o pobre fodido de bolso. O que vaga por aí trabalhando em troca de comida e bebida. De um lugar pra dormir (essas coisas que falam sobre o poeta marginal). Um poeta marginal pode morar na cobertura do Leblon, frequentar grandes festas nos lugares mais quentes e não ser babaca como muitos artistas (...) Só discurso. O primeiro disco do Barão é uma obra-prima. Isto se deve em boa parte ao talentoso poeta Caju e seu canto escrachado. Mais um 'filhinho de papai' a deixar sua marca indelével em nossas vidas (...)"


"(...) Estes caras com quem você anda vivem no salão de beleza fazendo as unhas e bebendo Martini com cereja pra enfeitar o copo. Eu corto minhas unhas com canivete. E bebo do Jack Daniels do M…

Hoje fomos eternos

What dreams may come interferido por Mirdad

2011 - Uma odisseia de um domingo só
Emmanuel Mirdad

Guerra, ignorância, poluição e fome
Mas o homem não consegue parar o mundo
Terremotos, tsunamis, tempestades, seca extrema
E nem a Terra consegue parar o mundo, quiçá a si própria
Nunca houve um freio após o gênese, nos confins da origem

Entretanto,
Subestimado como micro ao calendário insípido dos astros,
Hoje, um domingo de março, ousado e desprendido, foi
O dia em que a Terra parou

Malucos não somos, e não foi um sonho, seu Raulzito
Saímos de casa, confrontamos a tempestade
E o nosso oásis maktubou-se materializado

O amor freou o mundo, e confundiu o tempo,
Que não soube mais o que contar e mensurar
Quando a força do incrível gigante brecou a rotação do planeta
Só pra que os nossos braços pudessem rodopiar
As sensações dos deuses
Abraçados como ficamos,
Reconhecendo o ninho em que as galáxias são gestadas
Hoje fomos eternos

Seis passagens de Georgio Rios no livro de minicontos Ficções ao mar

Georgio Rios (foto: Divulgação)

"Desenterrou do quintal a lata de leite recheada de gudes. Depois de muitos anos lembrou-se de tê-las enterrado naquele lugar. Despejou o conteúdo vítreo no chão da sala e, ao ver rolar cada esfera, lembrou-se do universo. Lembrou-se que cada pequenina gude daquelas era a seu modo um pequeno planeta em que habitavam muitas histórias da galáxia distante que foi sua infância, derramada de dentro daquela enferrujada lata de leite."


"(...) Sulamita era mulher de pedra. Uma rocha que viu o marido e os quatro filhos descerem ao pó da terra. Tudo sem choro. Na secura das terras que enterrou o seu umbigo. Viu as poucas vacas morrerem, os bodes desembestarem na caatinga seca. Nem uma lágrima (...) E agora, depois de noventa anos sem sair do chão onde nasceu, cismou que queria ver o mar. Logo ela, tão acostumada com tamanha secura (...) Seguiu que nem menina. Forte, livre... Desembestada nas águas salobras. Molhou as mãos, a cabeça, e deixou cair o…

Sete poemas de Marcus Vinícius Rodrigues no livro Arquivos de um corpo em viagem

Marcus Vinícius Rodrigues - Foto: Divulgação

Tudo o que sei

Posso saber do mar distante
pelo barulho longe

e do sol que brilha
pela sombra que o esconde.

Posso saber que a terra gira
só de olhar para o alto

e, tonto, olhos fechados,
ainda o sangue em correnteza

pela erosão do corpo gasto
na marcha da vida,

sei o que você não disse
na hora da despedida:

– Somos nossa única certeza.


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Saber do corpo

É preciso saber do corpo como nave,
os passos de uma precisa navegação
que mais nos aproxime que afaste
e mova-se sempre mais ao encontro
do seu outro também barco e porto.

É preciso saber do corpo como praça
que alimenta as aves e a multidão
e permite, na marcha, abrir as asas
do caminho que por dentro rasga
os muros que nos dizem não.


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Ilhéus

Você me verá ao cais
vazio da cidade onde nasci,

andando sobre o lodo
do mar que esvai.

Também eu parti
rumo à saudade,

esta nova pátria
de onde não posso fugir.


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Mar da vida
Para Ananda Amaral

Toma a vida
aos goles curtos
que o m…

Cinco passagens de Anton Tchekhov no livro A dama do cachorrinho e outros contos

Anton Tchekhov (foto daqui)

“Sob a invasão desordenada dos devaneios, das imagens poéticas do passado e de um doce pressentimento de felicidade, o pobre homem cala-se e apenas move ligeiramente os lábios, como se estivesse murmurando para si mesmo. Não lhe sai do rosto um sorriso embotado de beatitude. (...) Na quietude outonal, quando uma névoa gélida passa da terra para o coração humano, quando ela se alça como uma parede de prisão e testemunha ao homem a limitação de sua vontade, torna-se doce pensar nos rios largos e rápidos, de margens amplas e escarpadas, nas florestas impenetráveis, nas estepes sem fim. A imaginação desenha, lenta e tranquilamente, a imagem de um homem que, de manhã cedo, quando ainda não sumiu do céu o rubor da aurora, atravessa, qual mancha, a margem deserta e escarpada. Os pinheiros seculares, que parecem mastros e se agrupam como em terraços, de ambos os lados da torrente, olham com severidade para aquele homem livre e resmungam taciturnos. Vendam-lhe o cam…

O grito do mar na noite no blog CultVerso

O grito do mar na noite no blog CultVerso em 02/08/2015

Dei uma entrevista sobre o meu novo livro de contos, O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015), entre outros assuntos, para o blog CultVerso e ela foi publicada hoje, 02/08/2015. Leia aqui.

Seis passagens de Anton Tchekhov no conto Inimigos

Anton Tchekhov em 1887, ano em que escreveu o conto "Inimigos" (foto daqui)

“Reinava ali um silêncio mortal. Tudo, até o derradeiro pormenor, falava ali com eloquência da tormenta recentemente vivida, do cansaço (...) Na cama colocada bem junto da janela, estava deitado o menino, de olhos abertos, e uma expressão de surpresa no rosto. Não se movia, mas seus olhos abertos pareciam tornar-se a cada momento mais escuros e penetrar mais fundo no crânio. Diante da cama, permanecia ajoelhada a mãe, com as mãos sobre o corpo dele e o rosto escondido nas dobras da roupa de cama. Ainda que imóvel como o menino, que intensidade de vida sentia-se nas curvas de seu corpo e em suas mãos! Estava pregada àquela cama com todo o seu ser, com todas as suas forças e ansiedade, como se temesse perder a tranquila e cômoda postura que, finalmente, havia encontrado para seu corpo exausto (...)”


“Estava ausente do quarto o horror repulsivo, em que se pensa quando se fala em morte. Naquela petrifica…

Seis passagens de Mayrant Gallo no livro de contos O enigma dos livros

Mayrant Gallo (foto: Ricardo Prado)

"(...) Lá fora, ao vencer o corredor ensolarado e de cuja superfície, de cimento áspero, subia um indefectível odor de aridez, amuou-se, certo de que ia morrer, em breve. Talvez. Esta é uma possibilidade sempre presente, o forro da própria existência, o pouco de sentido que diariamente a envolve, sob os clarões do nada."


"(...) Pela lembrança de instantes em que dois corpos e duas almas se unem. Uma sensação irrepetível, indissolúvel, única como a vida (...) É isto que perdemos quando estacionamos em alguém. E é isto que recuperamos quando alguém nos diz que nos ama ou que deseja estar conosco. Não é o amor em si, mas os instantes seguintes, os arredores. Encontros, esperas, as perspectivas de um rosto e um corpo ao nosso lado. (...)"


"(...) a imagem que melhor define a efervescência de sua mente é esta: um telhado. Nela, os fatos, as lembranças, as dúvidas, os estigmas, como telhas cuidadosamente imbricadas sob o sol, jazem…

Cinco passagens de Mayrant Gallo na coleção infantil Pato, Cachorro, Garoto e Minhoca

Mayrant Gallo autografa os livros da coleção  no dia do lançamento em Salvador/BA (foto: Mirdad)

“Depois do impacto e do baque,
A imobilidade. A amabilidade...

E foi como se o mundo parasse.
E até o Bigode — pela primeira vez! — sonhasse.

Ali na rua aquele monte de pelo imóvel,
E em cada cabeça a dor de não se ter sido melhor.”

O cachorrinho riu (Kalango/2015)


“Imediatamente, sentiu-se feliz por não ser o único ser vivo no mundo. Mesmo um gato era bem-vindo, e ainda que lá na fazenda, antes, ele vivesse se escondendo do bichano, com medo de ser devorado, e embora fosse este o único destino dos patos, mais cedo ou mais tarde — um estômago.”

O ovo e o mundo (Kalango/2015)


“Esteve a contemplar, de cima de um prédio, equilibrado no parapeito, a vastidão de concreto e ferro desenhada pelo homem e agora inútil. Tudo ao mesmo tempo o fascinava e entristecia. De que adiantavam todas aquelas linhas de imponente arrojo, se ninguém mais, exceto ele, um serzinho ínfimo, podia contemplá-las?”

O ovo e …

Dedicatórias: Livros de Mayrant Gallo em 2015

Livros de Mayrant Gallo em 2015

2015 - O enigma dos livros (P-55/2015)


"Para Mirdad, estes contos em que despontam fantasias... Abraço! Mayrant Gallo 29/7/2015" -----------
2015 - O ovo e o mundo (Kalango/2015)


"Pra Mirdad, esta fantasia filosófica... Mayrant Gallo 19/7/2015" -----------

2015 - O cachorrinho riu(Kalango/2015)


"Para Mirdad, este poema, que foi o que de primeiro escrevi para crianças. Mayrant Gallo 19/7/2015" -----------

2015 - Dias de garoto (Kalango/2015)


"Para Mirdad, esta história, já conhecida, mas revivida. Abraço, Mayrant Gallo 19/7/2015" -----------

2015 - A minhoca dorminhoca (Kalango/2015)


"Para Mirdad, amigo das palavras, esta fábula. Mayrant Gallo 19/7/2015" -----------