segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Seis passagens de Joana Rizério no livreto É pegar ou largar

Joana Rizério (foto: Lígia Rizério)


"Amarraremos uma fitinha nas grades da Igreja do Bonfim vertendo lágrimas, mas não saberemos que um funcionário vai lá, a cada três meses, para tesourar os desejos de todo mundo e jogar no lixão de Canabrava."


"(...) até as surucucus reais, até a mais viril das anacondas (até aquele cara que nos bastidores apelidamos de 'madeirada luxo' – não por ser grande, mas por ser delicioso); até estes abençoados machos serão, um dia, graduados como teus parceiros de infortúnio. (...) Porque a pequenez é uma espécie de falecimento do pinto. E todo pinto um dia se vai, seja por idade, defeito ou pelo bater de botas do dono inteiro. O fim sempre espreita, implacável, como toda morte."


"(...) Posso ver daqui a água que trouxe Caramuru, a água que é de Yemanjá. (...) Nomes de nomes, como ladeira da água brusca, água de meninos, águas claras. Água por todo lado, água pingando da torneira de minha pia: água, que toda menina baiana é d'Oxum (...) em direção ao Rio Vermelho em que eu me perco, na praça da Piedade em que me resolvo, na noite da noite escura da avenida Contorno (...)"


"E todas brocham, completa e instantaneamente, quando alguém dá um certo conselho maroto, limpando um invisível veneno do canto da boca antes de dizer: – Mas ele tem o pau muuuuuito pequeno. (...) 'Parecia um lápis', diz chorosa a minha vizinha, que deu um baratino inacreditável: fugiu pela janela do banheiro do hotel (...)"


"Minha mãe (...) faz suas roupas, pães, geleias, mói o café na manivela, tem serra elétrica, furadeira de impacto e até broca de diamante. De suas mãos saíram minha cama, minha estante e minha linda mesa, defronte ao mar – para que eu pudesse, com todo o capricho, confeccionar esta carta. (...) Sob a asa dos meus pais vivo o êxtase de um afago eterno, uma lombra terrivelmente feminina (...)"


"(...) ainda bem que existe a internet, pra pôr fim à sanha obrigatória de papel e tinta que vocês ainda insistem em prensar todo dia, e que não passa de uma cara embalagem pra peixe, como o senhor sabe. (...) Se não for muito abuso, põe uma assinaturazinha do teu folhetim que chegue toda manhã na minha laje? É que aqui tem muita vidraça, e dizem que papel de jornal é uma beleza para limpar janela."





Presentes no livreto de crônicas É pegar ou largar (2015), páginas 06, 12, 04, 10. 17 e 18-19, respectivamente.

domingo, 30 de agosto de 2015

Nove passagens de Sérgio Sant'Anna no livro O voo da madrugada

Sérgio Sant'Anna (foto daqui)


"A velha senhora sabia muito bem que em regiões muito mais distantes que aquela onde se encontrava a estrela havia bilhões de outras, em espaços onde estariam ocorrendo explosões nucleares de um poder espantoso, que se alimentavam de si próprias, sem o testemunho de nenhum ser por perto. No entanto, em algum ponto do universo havia pelo menos um ser pensando nisso, que era a velha senhora, ocupando seu lugarzinho ínfimo, como o de uma formiga de apartamento, iluminado pela luz do abajur, e lançando seu pensamento tão precário para aqueles eventos grandiosos e invisíveis, como estrelas emitindo seu brilho portentoso desde há milhões de anos-luz. Aquilo deixava a velha senhora completamente humilde, e entretanto muito orgulhosa de fazer parte daquele todo universal em cujo interior muito em breve se perderia."


"Não durou mais do que aqueles instantes de reconhecimento para que a aparição se dissipasse, deixando-me para sempre na dúvida de se ela se manifestara independentemente de mim ou se fora eu a criá-la num momento agudo de fadiga e histeria, depois de tudo o que vivera nas últimas horas. (...) Mas esse mínimo tempo fora suficiente para que eu, sendo também o que ali estivera sentado à cama, pudesse ver duas faces de mim mesmo. Numa delas, à porta, estavam marcados os vincos de um cansaço mortal; da melancolia e solidão exasperadas, como as vividas no Hotel Viajante. Na outra face, porém, vi-me como me teria visto e sentido a minha companheira de voo, atravessando minha máscara crispada para poder amar-me do jeito que eu a amava: como aquele que eu poderia ser, ou, quem sabe, como aquele que verdadeiramente eu era, vencidas as barreiras mais entranhadas."


"Eu saboreava um vinho de razoável qualidade e, talvez inspirado por seus eflúvios, aquele processo de desagregação nos mortos me vinha ao pensamento como uma forma refinada de criação, pois eliminaria, ao seu termo, todas as repugnâncias do corpo, seus odores, seus excrementos e ânsias sexuais, suas dores físicas e aquelas outras que provêm de um ponto imponderável que às vezes chamamos de mente, às vezes de espírito, e que parece não se abrigar em matéria alguma, não estar preso a nada (...)"


"(...) Tem ainda uma esperança vaga, quase irracional, de que na escalada dele rumo à vileza, à destruição, uma dádiva tão extremada dela possa ter algum poder transformador. E, como se neutralizasse toda a violência contida naquele ato, ela afaga a nuca dele e pronuncia: 'Meu filho, meu filho'. E ele a penetra, sim, e ela está úmida o suficiente para que isso possa acontecer e há um espanto nele, e nela, de que isso esteja ocorrendo, e o mundo continue girando no eixo e cheguem ali no quarto os ruídos dos carros na rua, das vozes numa tevê ligada em outro apartamento, dos latidos de um cão. E ela continua tão lucidamente louca que diz: 'Não goza dentro'. E ele obedece."


"Durante a escrita do conto há sempre a iminência do fracasso, de o contista não conseguir manifestar os seus fantasmas, entes, pensamentos mais soterrados, e não lograr traduzir em imagens uma ânsia desesperada de poesia, como salvação de um vazio, angústia, solidão e depressão profundos, que clamam por um aniquilamento do próprio contista. A iminência do fracasso por não alcançar, com as palavras, momentos de beleza e amor com personagens vivos a ponto de libertá-lo da sua solidão, pois bastaria abrir as páginas certas do livro e visitá-los."


"(...) um desejo de clandestinidade, de novidade, de encontrar naqueles seios o que sua mulher, depois de dois filhos, não podia mais oferecer, nem que fizesse uma operação plástica, porque era também - e isso para ele - uma questão psicológica envolvendo a maternidade, leite nos seios, numa relação que já seguira uma parte de seu curso de família feliz e convencional, quando então podia sentir-se mortalmente entediado. Não era de admirar que tantos casais se separassem, muitas vezes apenas para recuperar, na vida, as emoções."


"Ao tomar um táxi, à porta do hotel, meu olhar foi inevitavelmente atraído para o beco. Não havia ninguém lá, e fui possuído por uma raiva intensa, que, agora que escrevo estas linhas que se impõem a mim, posso discriminar como uma mistura de indignação e ressentimento. A primeira, porque imaginava algum dos homens brutos daquela terra, ou talvez aquele protetor demoníaco, profanando o corpo da menina; o segundo, porque sentia como se a tivessem roubado de mim. É, isso mesmo, que ninguém se espante, pois os sentimentos humanos são sempre partidos no mínimo em dois, e, se há homens dignos, são apenas seres que conseguem vedar seus compartimentos secretos."


"(...) O Robert tem uma teoria que ele considera absolutamente comprovada pela História, de que os religiosos são muito mais cruéis e prejudiciais à humanidade que os ateus, que só querem aproveitar a vida. E quem aproveita a vida não quer ver a caveira de ninguém. (...)"


"Um conto de semântica distorcida, de sons insuspeitados como o de cordas soadas pelo vento feito música do Uakti ou de Smetak (...) Um conto jogo de espelhos a refletir ao infinito um torso de mulher no instante em que mãos lhe acariciam os seios criando a sensação de capturar uma felicidade para sempre (...) Um conto em que espreitam as figuras mais guardadas do desejo, como a menina que se trancou no armário com o menino na festa dos dez anos, as mãos dadas, as respirações se misturando e os vestidos a tocar os rostos com a textura acetinada do segredo, evitando-se as palavras ou os movimentos bruscos para que não avance o tempo e se aparte o amor que se levará pela vida agora."





Presentes no livro de contos O voo da madrugada (Companhia das Letras/2003), páginas 86, 26-27, 18-19, 33, 53-54, 37, 14, 159 e 43, respectivamente.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O grito do mar na noite no programa Soterópolis da TVE

Emmanuel Mirdad e a jornalista Vânia Dias


O meu livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015) foi destaque ontem, 27/08/2015, encerrando o programa Soterópolis da TVE, em entrevista feita pela jornalista Vânia Dias. Veja abaixo:



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terça-feira, 25 de agosto de 2015

Homem-formiga

Foto daqui


Desde pequeno, resolvo as tarefas dos outros. O último a apagar a luz. O último dos moicanos. SOS Malibu. Como o mestre Hélio Pólvora me ensinou: "Ser homem é assumir a realidade". Lembrou-me um lema que criei para a primeira sociedade que tive na área cultural: "A gente resolve". Mas não é nenhum bicho de sete cabeças resolver. Nem lida para especiais. Não tem, absolutamente, nada de diferencial ou especial. É apenas compromisso. A profissão à frente do ego. O trabalho acima da vaidade. A engrenagem primeiro que a dor. A responsabilidade a vencer a preguiça. A coragem de assumir o que deve ser feito acima do que você deseja. O método, o planejamento, o império da razão a vencer a artimanha, o comodismo, o corporativismo, a corrupção. Simples: você é uma formiga. Trabalhe. Cumpra a sua função. É o único sentido que te mantém vivo. O resto é distração. Desnecessária.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

15 anos de Last Fly, 15 anos do Orange Poem

Papel original digitalizado da letra escrita na contracapa 
do módulo do PhD no ano 2000, mas com as correções da última versão


Pode uma canção gerar um projeto? Pois quinze anos atrás, no dia 24 de agosto do ano 2000, uma quinta-feira, compus Last Fly, que originou o projeto e banda Orange Poem, trampo que me dediquei até 2007, e ano passado finalizei com a produção de seis EPs (reunidos em um disco duplo - ouça aqui).

Na série Composições deste blog, contei a história da canção - leia aqui. Um trechinho sobre a debutante:

"(...) Era manhã, estava ensaiando para a gravação de um demo com canções de amor dedicadas à namorada da época. Entre uma música e outra, fiquei tocando notas a esmo no violão Alhambra de minha mãe (o mesmo em que ela tocava Bossa Nova comigo na barriga pra espantar o tédio da gravidez em casa). Por um acaso (ou uma quase psicografia), passei do meu acorde preferido menor para o maior (de F#m para F#) e segui pela harmonia A, E, F#m e G#m duas vezes. Simples e triste. Lento e fluido. Um voo. Segui cantando palavras em inglês a esmo. Coincidentemente (ou sincronia?) o módulo de estudos do cursinho PhD estava aberto na disciplina de inglês (que nem era a minha, pois fiz espanhol), lição de verbos. O primeiro que meu olho bateu: to know. Cantei a lição: "I knew...". (...) Empolgado com a melodia, parei para escrever a letra, diretamente em inglês com alguns erros gramaticais. Last Fly ficou pronta, um presente do inconsciente que provocou uma bagunça no desejo. Mostrei primeiro ao colega de PhD Maurício Borges (o que insistiu por Zanom). Opinião: 'Tá bem Pink Floyd'. Orgulho bateu. (...)"

A banda Orange Poem gravou a canção em 2004/2005, e o cantor e compositor Glauber Guimarães colocou a sua voz em dezembro de 2013. Ouça abaixo:



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Em 2010, pra comemorar o aniversário da música, gravei um vídeo tosco, desafinado, só pra ter o registro da canção crua, tal como criei no ano 2000. Ouça abaixo:



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No perfil da banda no Soundcloud, além de ouvir Last Fly em streaming, você pode fazer o download. Faça aqui.

No aniversário de 20 anos, prometo reunir a banda ou fazer um som pra comemorar. Grato, minha filha, mas a festa não teve baile por falta de recursos. No fim, o que vale, é o amor. E eu te amo, mãe laranja.

domingo, 23 de agosto de 2015

Sete passagens de Dalton Trevisan no livro Cemitério de elefantes

Dalton Trevisan (foto daqui)


"Na primeira noite ele conheceu que Santina não era moça. Bento havia se casado por amor e ficou desesperado; matar a esposa e suicidar-se era deixar o outro sem castigo. Depois de muita insistência, ela revelou que, há dois anos, quando se achava deitada à noite, pajeando uma criança, entrara no quarto um primo chamado Euzébio e lhe fizera mal, sem que pudesse defender-se. (...) Santina pediu perdão, mas ele respondeu que era tarde – ela casara de grinalda sem ter direito. (...) Por mais que ela se enfeitasse, com banho no rio e fita no cabelo, Bento mastigava a sua raiva no prato de feijão. (...) Ficou muito nervoso, comia pouco e quase não dormia, de olhos acesos na escuridão. A moça estirava-se a seu lado, sem que um pudesse consolar o outro. Nunca mais ele fez qualquer carinho. (...) Não podia esquecer o agravo, ofendido com o primo, e sentia gana de se vingar. (...) Ah, se lhe houvesse contado antes... quem sabe pudesse perdoar e, pelo caminho, berrava palavrões e feria as árvores com o machado."


"(...) Dormia embriagado todas as noites, não no quarto do casal, mas no paiol da lenha. Trazia um embrulho de pastéis, que mastigava entre goles de aguardente; estavam frios e úmidos de gordura, o que era indiferente, pois não descobria sabor. (...) E olhava: as velhas telhas encardidas e cobertas de teias. Quando chovia, despregavam-se as aranhas de ventres peludos. A cabeça debaixo do lençol, mordendo os dedos, tremia sufocado de pavor. (...) o ronco estertoroso da velha encobre a respiração dos filhos. (...) Bem que ela o preveniu: – Você está perdendo a melhor idade dos seus filhos. (...) Embora aberta a porta do aposento, ele se afasta sem voltar o rosto: é uma jaula o amor dos filhos, dourada quem sabe, mas não furam os olhos do passarinho para que cante mais doce?"


"Encomendando o corpo na igreja, e ainda com chuva, D. Irailde insiste em acompanhar a filha ao cemitério. Na sepultura do padrinho, foi aberta uma cova, cheia de água suja. Com aquela água, a mãe não permite que enterrem Dorinha – o vestido ficaria estragado. (...) Impossível esgotar o buraco, sempre um pouco d'água no fundo. (...) Com permissão do prefeito, manda erguer às pressas um túmulo no terreno mais alto do cemitério. E dois dias depois, numa tarde de sol, assiste à exumação. Desenterrado o ataúde, exige que seja aberto, para ver se a filha não está molhada. Os coveiros recuam, enquanto ela penteia a longa cabeleira grisalha da moça. Só então regressou em paz para casa."


"Embevecido, passando e repassando os olhos ávidos nas minhas vestes em desalinho e nos cabelos em graciosos caracóis que se espalhavam sobre a testa pálida, sua excelência buscava sub-repticiamente devassar as minhas belezas escondidas. Enquanto eu ouvia enlevada o seu fogoso discurso, o velho sátiro arrastava-se, ainda de joelhos, pelo tapete escarlate. Agarrou de súbito o meu pezinho descalço e cobriu o centro de seus desejos com beijos úmidos e quentes. Um resto de pudor sustinha-me à beira do precipício. (...)"


"– Homens... – resmungou Ivone, quando eu voltei. – Fazer com ela o que o Zeca fez.
– Que foi que ele fez, meu bem?
– Ainda você pergunta? Jogou-a fora, naquele estado.
– Eu não faria isso com o meu amor.
– Você também não presta. Pensa que eu não sei do seu caso com Doralice?
Começou a chorar – as lágrimas doces do álcool. Descansei a cabeça dela no meu ombro. Estávamos sós na sala, os dois e a velha, sem contar Doralice. A noite não tinha fim, éramos os vivos."


"O noivado seguinte foi com uma prima de terceiro grau, bem ao jeito de D. Cecília, que fez gosto no casamento. Chamava-se Laura, era magra, bonitinha e anêmica. José não se decidia a marcar a data e ela acabou morrendo, doente do peito, cinco anos depois. Uma tarde surgiu na casa a mãe de Laura, que vinha reclamar as cartas da filha. José ficou em dúvida se as teria ou não devolvido. Acompanhado das duas senhoras, foi vasculhar o quarto, enquanto D. Cecília se desculpava das migalhas pela cama. Após muita busca, encontraram as cartas amorosas de Laura perdidas no fundo de um baú – o noivo as jogara lá e se esquecera delas."


"– Olhe que amanhã é dia de regime!
Lambiscam e discutem os sonhos. Em nenhum deles aparecem borboleta ou esquilo. Os bichos dos sonhos são proporcionais: rinocerontes, focas, hipopótamos. As noites de Rosa povoam-se de cavalos empinados relinchantes. Augusta sonha com um elefante branco:
– O elefante chegou, ergueu as patas e ficou sorrindo pra mim.
– Não se olhe tanto ao espelho – resmunga o marido."





Presentes no livro de contos Cemitério de elefantes (Civilização Brasileira/1970), páginas 03-04, 18-19, 74-75, 46, 105, 08-09 e 23. respectivamente.


sábado, 22 de agosto de 2015

Dedicatórias: Livros de Carlos Barbosa, Tarcísio Buenas, Joana Rizério, Georgio Rios, Marcus Vinícius Rodrigues e Catarina Guedes

Livros de Carlos Barbosa, Tarcísio Buenas, Joana Rizério, 
Georgio Rios, Marcus Vinícius Rodrigues e Catarina Guedes


2015 - Obscenas (P55/2015)


"Ao Emmanuel Mirdad, escritor de cepa, com um abraço amigo do Carlos Barbosa. SSA, 29.07.15"
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2015 - 18 de maio, quanto tens por dizer (Buenas Books/2015)


"Para Mirdad, este belo e doloroso 18 de maio, quanto tens por dizer... Meu primeiro livro. Grande abraço, Buenas. Salvador/15."
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2015 - É pegar ou largar (da autora/2015)


"Mirdad, muito obrigada por organizar o meio de campo. Só não canto 'dono da minha cabeça' de Alceu pra você não se achar tanto. Beijão! Jojô"
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2015 - Ficções ao mar (P55/2012)


"Ao comparsa Mirdad, as ondas deste meu estuário. Georgio Rios"
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2015 - Arquivos de um corpo em viagem (Mondrongo/2015)


"Para Mirdad, alguns poemas da memória do corpo. Um grande abraço. Marcus Vinícius Rodrigues. 28/06/2015"
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2015 - Isadora, sua camisola La Perla e a Br (Kalango/2015)


"Mirdad, querido, acelerei, troquei a marcha e me encontro nessa estrada longa e sinuosa que vai dar não sei onde... E você é um veterano que tem todo o meu apreço. Catarina Guedes. 24.07.2015"
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domingo, 16 de agosto de 2015

Sete passagens de Hélio Pólvora no livro A mulher na janela

Hélio Pólvora (foto: Erno Schneider)


"Quando o dinheiro acabou e já não havia cigarros, ele embrulhou o melhor terno (possuía dois) e desceu a escada. Pisava nos cantos dos degraus para não despertar a madeira e atrair o dono da pensão. Ultimamente evitavam-se – um com vergonha de cobrar o dinheiro, o outro de entrar em longas explicações. Por isso ele renunciara ao jantar; a tortura repetia-se apenas ao meio-dia. De cima, do seu quarto, espreitava a descida dos hóspedes, e quando o volume de vozes alteava-se, descia, procurava mesa encostada à parede e desdobrava o guardanapo nos joelhos. O dono da pensão aproximava-se com a terrina de sopa. Não se falavam, mas era como se travassem, um de cabeça baixa, o outro encarando-o do alto, áspero diálogo (...) De modo que ele desceu a escada a pisar de leve, o embrulho de roupa batendo-lhe na ilharga. Avançou pela sala agora vazia, em largas passadas – mas como se o pressentisse, ou estivesse à sua espera, o dono da pensão abriu uma porta e escorou-se no portal, silencioso – uma aparição. Olharam-se e ele moderou os passos, balançou o embrulho com ar de descaso, assim como quem leva roupa suja à lavanderia. Ele sabe; sabe que estou liquidado."


"Então a música irrompeu. Ninguém, na estação dos bondes, onde havia tabuleiros de laranjas descascadas, e onde um rapaz de avental sujo fritava pastéis, viu o cego chegar. Veio de manso, apalpando o terreno, a estender os braços. Alguém lhe deu um tamborete: arriou-se, circunvagou os olhos mortos de estátua e abraçou dolorosamente a sanfona. Tocou uma velha canção. Os italianos, a caminho da hospedaria, pararam. Bonita, o diabo da música. Falava de jangadeiros. Havia um que partira, não voltou. A amada, na praia, chorava a perda. O cego curvava-se sobre o fole, queria introduzi-lo no peito. Balançava a cabeça ao compasso da música. Os olhos mortos, protuberantes, pareciam querer destacar-se do rosto, como frutos, e cair ao chão, maduros."


"(...) o homem da espingarda refazia as armadilhas; senhor do dia e da noite, violava solidões, imprimia no barro liso das encostas, na lama fina das margens dos ribeirões, a marca do seu pé de dedos espalhados. (...) – Tem cara de assassino – diziam as mulheres."


"Pela manhã, dia de São João, coberta a manhã de névoa ainda mal esgarçada, lançava-se à procura de bombas que haviam retido o tiro. (...) investigava os matagais próximos, revolvia o monturo. Espalhava as cinzas ao pé da fogueira morta e recolhia bombas molhadas de orvalho, esquentava-as na palma da mão, transmitia-lhes as vibrações do seu coração inquieto. (...) Não, elas ainda pulsavam. Haviam consumido a mecha, ardido à flor da pele, mas o secreto mecanismo sustara o disparo. Sopesava-as: estavam gordas de fogo concentrado. Necessário aviventá-las, que a manhã estava fria, mal desperta, e o orvalho umedecera o papelão. Juntava brasas no terreiro, agachava-se e aproximava a bomba do calor do braseiro. Soprava. Inchava as bochechas, esvaziava o ar aprisionado, via o papelão chamuscar-se. A fumaça subia e cegava-o. Escorriam lágrimas, a tosse lhe prendia a garganta. Novo sopro, difícil, estertoroso. Era preciso salvar a bomba da destruição matinal para o estampido da noite de São João."


"– Foi o diabo-a-quatro. (...) Os miúdos recolhiam a expressão e a submetiam a torturante análise. Diabo-a-quatro. Devia ser um diabo multiplicado por quatro, quatro diabos juntos, tentações enormes. Terrível. (...) O abraço da rede fechou-se, gélido, sobre o corpo de tio Julião. Estava muito frio lá fora, e o frio também procurou aconchego, lugar mais quente; bateu às portas e às janelas, esquivou-se, insinuou-se, descobriu frechas, telhas rachadas, buracos nas tábuas – e foi entrando. Tio Julião afundava-se mais na rede, desesperado. Sentia o frio penetrar, em agulhadas, até os ossos. As juntas emperravam-se, estalavam. Procurava em vão saliva para umedecer os beiços endurecidos. Frio como o diabo-a-quatro."


"(...) Não havia adversários para João da Verdura. Ele corria com o vento no rosto e nos cabelos, o ar da madrugada, a frescura do sol que se deitava – isso era o seu alimento, gás para o motor possante do seu peito. (...) Porque é um primitivo. Nasceu para correr, não nas raias oficiais, com tiro de pistola, camiseta e sapatos de tênis, mas nos caminhos, através do mato rasteiro, de pés nus, tabuleiro na cabeça – e o vento, o sol se pondo, a suavidade do mundo que se deita ou se ergue. (...)"


"Isso se ele despertava aos domingos de amores com a terra que a lâmina da enxada revolvia durante a semana. Pois me lembro de tê-lo visto muitas vezes em seu despertar ronceiro, ensimesmado – e não querer conversa. O seu lírico renascer para o mundo domingueiro, em funeral. Demorava-se à mesa, lerdo, a talhada de cuscuz custando a desfazer-se no prato raso. Olhando-lhe o rosto, eu o via como um pedaço de chão, acidentado, que pulsava, latejava, na força de uma insopitável quão desconhecida criação."






Presentes no livro A mulher na janela (Estante/1961), páginas 23-24, 52, 16, 75-76, 32-33, 45-46 e 145, respectivamente.


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Oito passagens de Carlos Barbosa no livro de minicontos Obscenas

Carlos Barbosa no lançamento do livro (foto: Sarah Fernandes)


"O homem que lê contempla o mar.
Do alto da torre em que mora.
Enquanto afaga seu barril de amontilado.
O mar, matéria por demais agitada, entontece.
O homem, que lê bem conhece.
Prefere o mar que tem aberto nas mãos.
Encadernado.
Onde costumeiramente mergulha (...)"


"A mulher prepara um cozido (...)
Molho de pimenta reservado.
O copo de cerveja na bancada a lacrimar.
Depois de um gole, a mulher enxuga a testa com o dorso da mão esquerda.
Só então começa a esquartejar o desgraçado."


"Quero uma noite primária e tonta.
Um tempo de mármore para esculpir seu nome.
Um beijo que vibre na varanda, que rompa o lacre da madrugada.
Quero escrever em sua carne branda com meus dentes implantados.
Quero a dor embalada pra presente.
Um dia de inverno no leito rachado de um riacho.
Eu a quero como teto, como janela pro mar.
Um ardil que aprisione nosso áspero odor (...)"


"Bandido prende o cidadão honesto.
Cidadão honesto elege o corrupto.
Corrupto posa de autoridade.
Autoridade se entrega ao capital.
O capital virucida o mundo.
E o mundo aplaude o bandido."


"(...) - Barbosa já morreu.
- Pois é, morreu culpado pela derrota brasileira na final para o Uruguai. Ele mesmo denunciou a pena eterna que lhe aplicaram. Pensava nisto: no gosto brasileiro por penas eternas aos outros e absolvição antecipada a si mesmo (...)"


"Fazia música como um aparelho de ressonância magnética.
Bombou na rede, causou na mídia, rolou shows até no exterior.
Passou a viajar de jatinho.
Decidiu, então, fazer música como turbina de jato em colchão de nuvem.
Fracassou.
Voltou a animar bailinhos na periferia.
Agora faz música tipo escapamento aberto de moto: ronco, estalo e pipoco (...)"


"A certa altura, a moça reivindicou penetrá-lo."


"(...) O amor, meu caro, é um caminho de cortinas que se deve abrir, uma a uma, com interesse de desbravador e sutileza de espadachim."





Presentes no livro de minicontos Obscenas (P55/2015), páginas 08, 03, 43, 29, 41, 15, 21 e 34, respectivamente.


quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Cinco passagens de Catarina Guedes no romance Isadora, sua camisola La Perla e a Br

Catarina Guedes (foto: Ricardo Prado)


"(...) Normal é um conceito bem relativo. O meu normal certamente enche os olhos da indústria farmacêutica, mas ela não fatura comigo, porque não arrisco mais que um frasco de fitoterápico floral conservado no conhaque, direto na boca, sem conta-gotas (...) O dia amanheceu com um cheiro de cuscuz, e ovo frito. Acertei as contas com a senhora na portaria e fingi que não vi os casais esquisitos que saíam lá de dentro. A mulher, que também não parecia nada normal - ou, ao contrário, era tão normal e ambientada que parecia ter sido feita da mesma argamassa daquelas paredes - perguntou se eu por acaso não tomaria o café da manhã (...)"


"— Paula Oliveira, por favor. — A Paula não veio hoje, nem virá nos próximos 30 dias. Saiu de férias — falou uma dessas criaturas de redação que, embora não seja a norma culta, nem tampouco o hábito local, não dispensa um artigo definido antes do nome próprio."


"Theo é do tipo que ama as coisas e utiliza as pessoas, como diz um velho provérbio. A raquete era tão especial quanto uma caçarola francesa, um taco de golfe ou um barbeador elétrico, simplesmente pelo fato de que ele pagou por todas essas coisas. Por associação, todo esforço em conquista diária, todo avanço rumo à admiração do próximo, ou qualquer ganho em intimidade ficam em segundo plano, pois não envolveram diretamente cifras para a obtenção. Logo, não são fáceis de mensurar. Estranho fazer esta observação sobre alguém que, como já disse, era capaz de chorar diante de uma obra de arte (...)"


"O lobby do hotel estava animado. Uma interessante aglomeração masculina. Nada que valesse a pena, mas a testosterona, ainda que pouco destilada, recarrega as minhas forças e me enche de confiança. Estranhamente, ali naquele hotel, ao contrário do que me acontecia em bares, jantares e convenções importantes, na badalada vida mundana em que eu desfilava prodigamente minha coleção de trejeitos intrigantes e frases inteligentes, fiquei tímida e passei dura sem encarar ninguém ou expressar qualquer sentimento (...) Já ia pagando a conta e quase respirei aliviada, quando veio a pergunta.
— Está aqui com seu marido, moça?
— Não. Sozinha.
— A trabalho?
— Não...
— Família no interior?
— Não — retruquei quase impaciente e, confesso, um pouco desconcertada (...)
— Se a senhora está de coração partido, tem uma pessoa aqui que não erra uma.
E, tirando um panfletinho da registradora, me entregou.
IRACEMA - ALMA MÍSTICA (...)"


"(...) resolvi que ia fugir dos hotéis e pousadas mais graduados do meu guia de viagem e me instalei num hostel no centro da cidade. Já que para todo mundo do meu círculo urbano de amigos eu era uma fracassada sentimental em fuga, melhor era manter as más aparências e me atolar logo de uma vez por todas na imagem de fugitiva expiadora, para evitar qualquer impressão de auto-piedade compensatória que um hotel ou pousada de mais de duas estrelas pudesse causar (...) Óbvio que eu procurei um quarto com banheiro porque, depois dos 30, baixar o nível de exigência a rés do chão envolve muito risco e sacrifícios aos vários rituais de higiene e beleza que a gente adquire ao longo do tempo (...)"





Presentes no romance Isadora, sua camisola La Perla e a Br (Kalango/2015), páginas 11 e 14, 08, 49. 40-41 e 74, respectivamente. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Terminei de escrever o livro de contos Olhos abertos no escuro


Hoje, concluí a produção literária do meu próximo livro, Olhos abertos no escuro, composto por 18 contos curtos do inédito Paisagem da insônia (veja post sobre este aqui) e mais os 12 melhores contos do Abrupta sede, lançado em 2010 pela Via Litterarum, que foram revisados e reescritos (atualmente desconsidero esse meu primeiro livro, que foi feito numa época não profissional).

O título Olhos abertos no escuro foi retirado de uma passagem do conto Gravidade, do escritor e mestre Mayrant Gallo, presente no livro O inédito de Kafka (Cosac Naify, 2003). Assim como fiz no livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015), em que prestei uma homenagem ao escritor e mestre Hélio Pólvora, agora homenageio o amigo Mayrant, e trago uma epígrafe dele abrindo cada um dos meus 30 contos em Olhos abertos no escuro.

O original seguirá, então, para a revisão e posterior finalização, e a previsão de lançamento é para o começo de 2016.

É a minha despedida dos contos, pois só me dedicarei, exclusivamente, aos romances, após o lançamento de Olhos abertos no escuro.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Entrevista com o autor do livro O grito do mar na noite

Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite no lançamento em Salvador/BA 
Foto: Yomã Ferreira Mattiello


Semana passada, o blog CultVerso publicou uma entrevista com o escritor Emmanuel Mirdad (leia aqui), que falou do seu novo livro de contos, O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015), lançado no final de julho, entre outros assuntos. O blog reproduz abaixo a entrevista:


1 - Qual a inspiração em escrever um livro de contos? Quais as temáticas abordadas nos contos do livro?

A inspiração de escrever um livro de contos é vibrar com a possibilidade de trazer ao leitor várias histórias distintas num mesmo livro.

O grito do mar na noite é formado por dez contos, e, logo na abertura, Chá de boldo fala sobre o abandono de pessoas pela própria família. Sol de abril apresenta a bela e triste história de Lourdes, a sanfoneira caolha, uma homenagem à canção Assum Preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e Assexuada traz o dilema de Monique, a mulher que nunca gozou e não se importa, mas quer vivenciar o amor - sem sexo, é possível?

No conto O banquete, segundo o escritor Mayrant Gallo, que escreveu o posfácio do livro, racismo, imigração ilegal, preconceito social e racial, além de heroísmo efêmero, se apresentam tão a gosto do jornalismo televisivo e funcionam como uma espécie de painel difuso do nosso mundo cotidiano, tão caótico. Gallo se divertiu com as desventuras amorosas do “autodestrutível Casanova às avessas” Pedro Henrique, no conto Receba, em que o protagonista, “muito embora consciente de seus quase êxitos, e especialmente de seus fracassos, mantém a linha, segue em frente e volta a se aventurar, como o boxeador tonto de Chaplin”.

Em Bonecas, o macho alfa se liberta aos desejos homossexuais; Quase onze dias, o maior do livro, traz uma vasta pesquisa histórica em que efemérides são relacionadas com fatos ordinários do cotidiano. Além desses contos, O grito do mar na noite traz mais três contos, sobre os desencontros das relações afetivas, o encontro irremediável com a morte e o gira mundo talião que surpreende os algozes.


Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite 
no lançamento em Salvador/BA 
Foto: Yomã Ferreira Mattiello


2 - "O Grito do mar na noite" é o segundo volume de contos de uma trilogia. Quais as diferenças de um volume para o outro?

A ideia surgiu do meu editor Agenor Gasparetto, da editora Via Litterarum, de lançar os três livros de contos em um box, no final deste ano (Abrupta sede, de 2010, O grito do mar na noite, de 2015, e Paisagem da insônia, inédito). Porém, desistimos, porque sou um autor iniciante e é muita audácia lançar, agora, uma trilogia no formato de caixa, como se fosse uma coleção. Ainda não é o momento para isso. E, o primeiro livro de contos, Abrupta sede, de 2010, está sendo refeito e não será lançado mais. Descartei muitos contos e os melhores estão sendo revisados, com várias partes sendo refeitas, e serão incorporados no terceiro livro de contos, que será lançado em breve. É um reboot, pois só me tornei um escritor profissional no ano passado.

O novo livro será dedicado ao amigo, escritor e professor Mayrant Gallo. Por conta dessa homenagem, terei de mudar o nome Paisagem da insônia, como foi anunciado anteriormente, porque o título terá de ser em relação a Mayrant, e Paisagem... foi retirado de uma crônica de Clarice Lispector. É uma repetição do que fiz em O grito do mar na noite, que dediquei ao saudoso mestre Hélio Pólvora (1928-2015), e o título é um anagrama para títulos do grande contista: O grito da perdiz, Mar de Azov e Noites vivas.

Entre O grito do mar na noite e o próximo e último livro de contos, não há diferenças substanciais. Em ambos, apresento histórias distintas entre si, com personagens complexos em situações-limite. Brinco com o meu editor que todos os contos poderiam ser reunidos em um livro só (risos).


Mirdad mostra uma epígrafe do mestre Hélio Pólvora (1928-2015) para a sua viúva Maria, 
que honrosamente prestigiou o lançamento do livro (foto: Yomã Ferreira Mattiello)


3 - Em entrevista, você disse que Hélio Pólvora é fonte de inspiração. Em quais aspectos Hélio Pólvora é inspiração na sua escrita?

Hélio Pólvora foi um gigante da nossa cultura, um gentleman, generoso e amigável, um intelectual e tradutor valioso, e um dos nossos melhores escritores de todos os tempos, gênio do estilo. A Coleção Hélio Pólvora (contendo cinco livros de contos, essenciais na bibliografia do mestre), lançada em 2013 pela editora Casarão do Verbo, é sagrada, para mim. Sempre volto aos seus contos, principalmente para ter respeito à palavra, ser preciso e claro, rebuscar poeticamente a ficção, ser implacável e denunciar as misérias e contradições humanas, e honrar o compromisso com o leitor: não enganá-lo com autoelogios desnecessários, livrar-se das armadilhas da história que fracassa no fim, e surpreendê-lo com uma boa história. Carregarei Hélio sempre comigo, um busto de seu fantasma a aparecer durante o meu processo de criação, e dizer: “Menos, Mirdad”, ironizando o enigma do resultado com o seu sorriso comedido de um homem que bem viveu.


Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite no lançamento em Salvador/BA 
Foto: Yomã Ferreira Mattiello


4 - Você tem um conto preferido no livro?

Tenho! Sol de abril é o meu conto predileto no livro O grito do mar na noite, uma homenagem ao Nordeste que faço parte, de onde nasci, mesmo no litoral, e das heranças que o meu saudoso pai, o filósofo e poeta sergipano Ildegardo Rosa (1931-2011), fã de Luiz Gonzaga e do sertão, me fez reconhecer, cultuar e celebrar. Acho tocante e bela a triste história da sanfoneira caolha Lourdes, que tocava como ninguém. Homenagear a canção Assum preto, nosso maior blues sertanejo, no ano do centenário do poeta cearense Humberto Teixeira, letrista da canção, foi um imenso prazer.

Gosto também de Chá de boldo, O banquete, No palheiro e Receba. E não posso deixar de ter carinho por Quase onze dias, pela trabalheira que a sua pesquisa histórica me deu (risos).


Emmanuel Mirdad autografa O grito do mar na noite no lançamento em Salvador/BA 
Foto: Yomã Ferreira Mattiello


5 - O que esperar do próximo livro?

Como revelei, de primeira mão, o título não será mais Paisagem da insônia. Esse novo livro terá os melhores contos do meu primeiro livro, revisados e refeitos, e mais diversos contos pequenos, inspirados pelas leituras de Anton Tchekhov, Dino Buzzati e Mayrant Gallo. Aproveito para esclarecer que será o último livro de contos porque a partir de 2016 me dedicarei exclusivamente à escrita de romances.

Prefiro que os leitores do CultVerso conheçam O grito do mar na noite. Vamos, agucem os seus ouvidos e deixem que o mar lhes berre, à noite, as histórias com tipos interessantes, como o sedutor barato Pedro Henrique, a assexuada Monique, o macho alfa Bodão, o bisavô abandonado e, claro, a sanfoneira caolha Lourdes, entre outros. Boa leitura!



Trechos do livro aqui

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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Oito passagens de Tarcísio Buenas no livro 18 de maio, quanto tens por dizer...

Tarcísio Buenas (foto: Divulgação)


"- Tá me paquerando?
- Não, por quê?
- Você piscou pra mim.
- É sono."


"(...) Deve ser mesmo um incômodo pros babacas ser rico, rocker e poeta talentoso com muita grana pra gastar. Nunca entendi por que o poeta tem que ser o pobre fodido de bolso. O que vaga por aí trabalhando em troca de comida e bebida. De um lugar pra dormir (essas coisas que falam sobre o poeta marginal). Um poeta marginal pode morar na cobertura do Leblon, frequentar grandes festas nos lugares mais quentes e não ser babaca como muitos artistas (...) Só discurso. O primeiro disco do Barão é uma obra-prima. Isto se deve em boa parte ao talentoso poeta Caju e seu canto escrachado. Mais um 'filhinho de papai' a deixar sua marca indelével em nossas vidas (...)"


"(...) Estes caras com quem você anda vivem no salão de beleza fazendo as unhas e bebendo Martini com cereja pra enfeitar o copo. Eu corto minhas unhas com canivete. E bebo do Jack Daniels do Marião (...)"


"- Eu não sei se te amo.
- Mas você me disse na semana passada que me amava.
- Eu mudo."


"(...) Não tenho medo do escuro, nem da morte. Acho insuportável esse papo de que qualidade de vida é dormir cedo e acordar cedo. Não beber, nem fumar. Praticar esportes e coisa e tal. É insuportável. (...) Já briguei em empregos hediondos e caí na estrada em busca de aventura. Você já deve ter visto momentos como esse em algum filme ou livro. Sei que sim. Este desejo não é só meu. Nunca será. (...) Cheguei recentemente de uma viagem que durou três meses. Fiz o que mais almejei nos últimos três anos (...) Quanto ao remédio que eu tava tomando pra depressão, deve ter sido esmagado pela roda de algum caminhão e virado pó, se misturando com o pó da estrada."


"(...) Bebi uma cerva no boteco do Pedrinho que ficava em frente lá de casa com o velho Edgar sentado na porta, sempre me recebendo com um enorme sorriso e apertando a minha mão com maior prazer. Ele bebia todos os dias. Toda vez que eu voltava do colégio ele tava lá sentado, sempre no mesmo lugar, com a velha camisa branca de botão com bolso no lado esquerdo para guardar o cigarro. Minha mãe bebia com ele de noite. Os dois cuspiam grosso! (...)"


"Desde meus tempos de escola, eu vivia solitariamente no meu canto. Não gostava de ficar no meio dos demais [mesmo quando ela me convidava para entrar, eu não entrava]. Um dia, ela se aproximou usando uma saia curta; se abaixou mostrando seus pelos pubianos - eram pretos - e estava saindo da calcinha. Apertou minha mão contra seu peito e me convidou para entrar. No canto escuro da parede, a imagem de Cristo olhando pacificamente para meus olhos solitariamente tristes. E nada mudou."


"(...) Olhando agora minha foto quando criança vejo um misto de candura e melancolia que parece não acabar mais. A candura deve ter escorrido pelos cantos dos meus olhos tristes; já a melancolia, é eterna (...) alguém vai ler isso aqui e comunicar à minha mãe e ela vai ler e me ligar chorando como é de costume nos fins de noite quando estamos bêbados em sintonia afinada - é quando a solidão e a melancolia se misturam (...) Na trilha sonora Cohen com suas canções dolorosas me fará melhor (...) Vou acender uma vela para Jack Kerouac daqui a pouco e pedir a Deus pro bem de sua alma. Acenderei outra pra John Fante. Os meus heróis não merecem passar pelo que eu tô passando agora. É doloroso ficar aqui sozinho no sétimo andar de um prédio quase em ruínas (...)"





Presentes no livro de crônicas, memórias, resenhas e poemas 18 de maio, quanto tens por dizer... (Buenas Books/2015), páginas 35, 25-26, 16, 64, 65, 49, 47 e 19, respectivamente. Acompanhe o blog do autor aqui e aqui.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Hoje fomos eternos

What dreams may come interferido por Mirdad


2011 - Uma odisseia de um domingo só
Emmanuel Mirdad

Guerra, ignorância, poluição e fome
Mas o homem não consegue parar o mundo
Terremotos, tsunamis, tempestades, seca extrema
E nem a Terra consegue parar o mundo, quiçá a si própria
Nunca houve um freio após o gênese, nos confins da origem

Entretanto,
Subestimado como micro ao calendário insípido dos astros,
Hoje, um domingo de março, ousado e desprendido, foi
O dia em que a Terra parou

Malucos não somos, e não foi um sonho, seu Raulzito
Saímos de casa, confrontamos a tempestade
E o nosso oásis maktubou-se materializado

O amor freou o mundo, e confundiu o tempo,
Que não soube mais o que contar e mensurar
Quando a força do incrível gigante brecou a rotação do planeta
Só pra que os nossos braços pudessem rodopiar
As sensações dos deuses
Abraçados como ficamos,
Reconhecendo o ninho em que as galáxias são gestadas
Hoje fomos eternos

Seis passagens de Georgio Rios no livro de minicontos Ficções ao mar

Georgio Rios (foto: Divulgação)


"Desenterrou do quintal a lata de leite recheada de gudes. Depois de muitos anos lembrou-se de tê-las enterrado naquele lugar. Despejou o conteúdo vítreo no chão da sala e, ao ver rolar cada esfera, lembrou-se do universo. Lembrou-se que cada pequenina gude daquelas era a seu modo um pequeno planeta em que habitavam muitas histórias da galáxia distante que foi sua infância, derramada de dentro daquela enferrujada lata de leite."


"(...) Sulamita era mulher de pedra. Uma rocha que viu o marido e os quatro filhos descerem ao pó da terra. Tudo sem choro. Na secura das terras que enterrou o seu umbigo. Viu as poucas vacas morrerem, os bodes desembestarem na caatinga seca. Nem uma lágrima (...) E agora, depois de noventa anos sem sair do chão onde nasceu, cismou que queria ver o mar. Logo ela, tão acostumada com tamanha secura (...) Seguiu que nem menina. Forte, livre... Desembestada nas águas salobras. Molhou as mãos, a cabeça, e deixou cair o que pareceu ser as duas lágrimas que verteu na vida."


"Uma dose de esperança. Tomou tudo num só amargo gole. Seguiu, sem maiores sentimentos, para a estação de trem ao fim do arruado. Buscava, em vão, a máquina que o levasse aos rincões da tão longínqua e pequena infância. Por fim, resignado, admirava o mar impresso num cartaz na parede cinza da estação, onde um menino e seu cão admiravam o mar infinito no vão da tarde."


"Escondeu as moedas num furo do bloco, cobriu-as com papel e saiu como se não tivesse roubado a mãe."


"Carlos içou a linha, estava pesada, puxando muito. Era um dos grandes, e a briga estava boa. Dez dias depois, já exausto, o pescador resolveu admitir que a história fosse em verdade mais uma fábula de pescador, e a foto que ostentava nas rodas de papo, era arte do seu filho, um menino arretado no tal de photoshop."


"- Mestre? (...) - Mestre! (...) - Mestre. (...) Depois de descer a montanha, o discípulo deixou o casaco de peles de ovelha e seguiu resoluto pelo único caminho."





Presentes no livro de minicontos Ficções ao mar (P55/2012), páginas 46, 10, 41, 17, 27 e 31, respectivamente.

Sete poemas de Marcus Vinícius Rodrigues no livro Arquivos de um corpo em viagem

Marcus Vinícius Rodrigues - Foto: Divulgação


Tudo o que sei

Posso saber do mar distante
pelo barulho longe

e do sol que brilha
pela sombra que o esconde.

Posso saber que a terra gira
só de olhar para o alto

e, tonto, olhos fechados,
ainda o sangue em correnteza

pela erosão do corpo gasto
na marcha da vida,

sei o que você não disse
na hora da despedida:

– Somos nossa única certeza.


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Saber do corpo

É preciso saber do corpo como nave,
os passos de uma precisa navegação
que mais nos aproxime que afaste
e mova-se sempre mais ao encontro
do seu outro também barco e porto.

É preciso saber do corpo como praça
que alimenta as aves e a multidão
e permite, na marcha, abrir as asas
do caminho que por dentro rasga
os muros que nos dizem não.


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Ilhéus

Você me verá ao cais
vazio da cidade onde nasci,

andando sobre o lodo
do mar que esvai.

Também eu parti
rumo à saudade,

esta nova pátria
de onde não posso fugir.


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Mar da vida
                           Para Ananda Amaral

Toma a vida
aos goles curtos
que o mar é
todo afogamento.

Toma-os, porém, muitos,
em quantidade reiterada,
até abrir-se dentro
um oceano para cada
amante que te navega,

tantos quantos forem
as vagas de tua alma.

E, depois,
faze-te ao largo, esquece o porto,
abandona-te à saga.


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Andar de bicicleta

Meu amor me ensina a andar de bicicleta,
o equilíbrio delicado da aventura.

Ele segura firme e me ampara
quando hesito e ameaço a queda.

O vento no rosto, o chão fugindo sob os pés,
tudo me engole em vertigens.

Quando, cansados, deitamos debaixo das árvores,
as nuvens tortas de nossa festa na relva,

sou eu quem ensina, professor aplicado,
a verdadeira arte: desequilibrar-se.


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Além dos delitos

Porque não sei do mar e das vagas
que os dias claros trazem à praia

vivo a adivinhar, dentro da noite,
os ventos úmidos que por sobre

cordilheiras e vales me vêm
contar o mundo que houve,

o estranho mundo em que amores
navegam líquidos movediços

e derivam para além do sabor,
muito além de todos os delitos.


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Um corpo em viagem

O corpo, mapa de viajantes perdidos.
O desejo, bússola tresvariada.

Cultivei em mim desencontros
em lavras e lanhas de disciplinas sacras.

Fui fértil de atrasos e enganos,
fui na vida avaria trágica.





Presentes no livro Arquivos de um corpo em viagem (Mondrongo/2015), páginas 36, 50, 13, 28, 41, 27 e 14, respectivamente.

Cinco passagens de Anton Tchekhov no livro A dama do cachorrinho e outros contos

Anton Tchekhov (foto daqui)


“Sob a invasão desordenada dos devaneios, das imagens poéticas do passado e de um doce pressentimento de felicidade, o pobre homem cala-se e apenas move ligeiramente os lábios, como se estivesse murmurando para si mesmo. Não lhe sai do rosto um sorriso embotado de beatitude. (...) Na quietude outonal, quando uma névoa gélida passa da terra para o coração humano, quando ela se alça como uma parede de prisão e testemunha ao homem a limitação de sua vontade, torna-se doce pensar nos rios largos e rápidos, de margens amplas e escarpadas, nas florestas impenetráveis, nas estepes sem fim. A imaginação desenha, lenta e tranquilamente, a imagem de um homem que, de manhã cedo, quando ainda não sumiu do céu o rubor da aurora, atravessa, qual mancha, a margem deserta e escarpada. Os pinheiros seculares, que parecem mastros e se agrupam como em terraços, de ambos os lados da torrente, olham com severidade para aquele homem livre e resmungam taciturnos. Vendam-lhe o caminho raízes, pedras enormes e arbustos espinhosos, mas ele é forte de corpo e espírito, não teme os pinheiros, nem as pedras, nem sua solidão, nem o retumbar do eco, que repete cada uma de suas passadas.”


“Saber que não o compreendem, que não querem e não podem compreendê-lo, impede Macar de se deliciar com a primavera. Tem a impressão de que, se o compreendessem, tudo se tornaria maravilhoso. Mas, como podem compreender se é talentoso ou não, se, em todo o distrito, ninguém lê coisa alguma, e, se lê, seria melhor que não o fizesse. Como fazer compreender ao general Striemoúkhov que aquela coisinha francesa é insignificante, vulgar, banal, surrada, como explicar-lhe isto, se ele nada leu na vida, a não ser tais coisinhas vulgares?”


“Os animais domésticos desempenham um papel quase imperceptível, mas indiscutivelmente benévolo, na educação e na vida das crianças. (...) Tenho, às vezes, a impressão, até, de que a paciência, a fidelidade, a capacidade de perdoar e a sinceridade, inerentes aos nossos bichos caseiros, atuam sobre o cérebro infantil de modo muito mais forte e positivo que as longas homilias do seco e pálido Karl Kárlovitch ou as digressões nebulosas da governante, procurando demonstrar à garotada que a água é composta de hidrogênio e oxigênio.”


“(...) Veio-lhe o pensamento: e se a mulher viajasse realmente para o estrangeiro? Viajar é agradável sozinho, ou em companhia de mulheres sem compromissos, despreocupadas, que vivam apenas o momento presente, e não daquelas que, durante toda a viagem, falem de filhos, suspirem, assustem-se com as despesas. Ivan Dmítritch imaginou a mulher no trem, carregada de cestos e pacotinhos, suspirando sempre por alguma coisa e queixando-se de que a viagem lhe deu dor de cabeça, que já gastou muito dinheiro; a cada momento, é preciso correr para a estação, arranjar água quente, sanduíches, água potável... Ela não quer jantar, porque a refeição é cara (...) pela primeira vez na vida, reparou em que a mulher envelhecera, ficara mais feia, estava impregnada de cheiro de cozinha, enquanto ele ainda era moço, sadio, viçoso, bom para casar novamente.”


“(...) Com a embriaguez, passara-lhe a vontade de enganar a si mesma e, a partir daquele instante, via claramente que não amava e não podia amar o marido, que tudo aquilo era tolice, estupidez. Casara-se por cálculo, porque ele, segundo diziam suas companheiras de escola, era terrivelmente rico (...) Se pudesse supor, quando estava se casando, que seria tão difícil, tão terrível e indecente, não concordaria em casar-se, por riqueza nenhuma no mundo. (...) Imaginou que, antes de chegar a velhice e a morte, ainda se arrastaria uma vida bem longa e, dia a dia, seria preciso levar em conta a presença do homem que não amava, que já entrara no quarto e estava se deitando para dormir, e seria necessário abafar dentro de si o amor sem esperança pelo outro, que era moço, sedutor e, como ela pensava, extraordinário. Olhou para o marido e quis desejar-lhe boa noite, mas, em vez disso, pôs-se de repente a chorar. Sentia despeito contra a si mesma.”





Presentes no livro de contos A dama do cachorrinho e outros contos (Editora 34/2014), páginas 103, 130, 149, 158-159 e 262 a 264, respectivamente, na tradução de Boris Schnaiderman.

domingo, 2 de agosto de 2015

O grito do mar na noite no blog CultVerso

O grito do mar na noite no blog CultVerso em 02/08/2015


Dei uma entrevista sobre o meu novo livro de contos, O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015), entre outros assuntos, para o blog CultVerso e ela foi publicada hoje, 02/08/2015. Leia aqui.

Seis passagens de Anton Tchekhov no conto Inimigos

Anton Tchekhov em 1887, ano em que escreveu o conto "Inimigos" (foto daqui)


“Reinava ali um silêncio mortal. Tudo, até o derradeiro pormenor, falava ali com eloquência da tormenta recentemente vivida, do cansaço (...) Na cama colocada bem junto da janela, estava deitado o menino, de olhos abertos, e uma expressão de surpresa no rosto. Não se movia, mas seus olhos abertos pareciam tornar-se a cada momento mais escuros e penetrar mais fundo no crânio. Diante da cama, permanecia ajoelhada a mãe, com as mãos sobre o corpo dele e o rosto escondido nas dobras da roupa de cama. Ainda que imóvel como o menino, que intensidade de vida sentia-se nas curvas de seu corpo e em suas mãos! Estava pregada àquela cama com todo o seu ser, com todas as suas forças e ansiedade, como se temesse perder a tranquila e cômoda postura que, finalmente, havia encontrado para seu corpo exausto (...)”


“Estava ausente do quarto o horror repulsivo, em que se pensa quando se fala em morte. Naquela petrificação geral, na postura da mãe, na indiferença do semblante do médico, havia algo atraente, comovedor, aquela beleza sutil, apenas perceptível, da aflição humana, que ainda se tardará a compreender e descrever e que somente a música, ao que parece, sabe transmitir. Sentia-se a beleza, mesmo naquela quietude sombria. (...)”


“(...) A frase, geralmente, por mais bela e profunda, atua unicamente sobre os indiferentes, mas nem sempre pode satisfazer àqueles que são felizes ou infelizes, pois o silêncio constitui, com maior frequência, a mais elevada expressão da felicidade ou do infortúnio. Os que se amam compreendem-se melhor quando calados, e um discurso ardente, apaixonado, proferido sobre o túmulo de alguém, comove unicamente as pessoas estranhas ao defunto, parecendo frio e insignificante a sua viúva e filhos.”


“A voz e os movimentos que fazia o recém-chegado indicavam um estado de extrema agitação. Como alguém assustado por um incêndio ou por um cão raivoso, mal continha a respiração precipitada, falava rapidamente, com voz trêmula, e percebia em sua voz algo realmente sincero, algo de temor infantil. Como toda pessoa assustada e atordoada, falava com frases curtas, entrecortadas, e proferia muitas palavras supérfluas, que nada tinham a ver com o caso.”


“Abóguin seguiu-o e agarrou-o pela manga.
– O senhor está em aflição, eu compreendo, mas eu não o convido para tratar os dentes de alguém ou para uma peritagem, trata-se de salvar uma vida humana! – continuou implorando, como um mendigo. – Essa vida está acima de qualquer aflição individual! Estou lhe pedindo que tenha valor, que faça um sacrifício sublime! Em nome do amor à humanidade!
– O amor à humanidade é uma faca de dois gumes – disse irritado Kirilov. – Em nome do mesmo amor à humanidade, eu lhe peço que não me leve daqui. Como é estranho, meu Deus! Mal consigo me manter em pé e o senhor me ameaça com o amor à humanidade! Não sirvo para nada, neste momento... não irei, por nada nesse mundo. Além disso, quem cuidaria de minha mulher? (...)”


“Abóguin e o médico ficaram parados um em face do outro e, irados, continuaram a lançar-se ao rosto ofensas imerecidas. Em sua vida, seguramente, mesmo em delírio, jamais haviam dito tantas palavras injustas, cruéis e absurdas. Pela boca de ambos, falava o egoísmo dos infelizes. Os infelizes são egoístas, maus, injustos, cruéis e menos capazes de se entender entre si que os imbecis. A infelicidade não une, mas separa os homens e, mesmo nos ambientes em que, parece, eles deveriam ficar unidos pela paridade do infortúnio, comentem-se muito mais injustiças e crueldades que num meio de gente relativamente satisfeita.”





Trechos do conto Inimigos, presente no livro de contos A dama do cachorrinho e outros contos (Editora 34/2014), páginas 188-189, 189, 191-192, 186-187, 190-191 e 200, respectivamente, na tradução de Boris Schnaiderman.

Seis passagens de Mayrant Gallo no livro de contos O enigma dos livros

Mayrant Gallo (foto: Ricardo Prado)


"(...) Lá fora, ao vencer o corredor ensolarado e de cuja superfície, de cimento áspero, subia um indefectível odor de aridez, amuou-se, certo de que ia morrer, em breve. Talvez. Esta é uma possibilidade sempre presente, o forro da própria existência, o pouco de sentido que diariamente a envolve, sob os clarões do nada."


"(...) Pela lembrança de instantes em que dois corpos e duas almas se unem. Uma sensação irrepetível, indissolúvel, única como a vida (...) É isto que perdemos quando estacionamos em alguém. E é isto que recuperamos quando alguém nos diz que nos ama ou que deseja estar conosco. Não é o amor em si, mas os instantes seguintes, os arredores. Encontros, esperas, as perspectivas de um rosto e um corpo ao nosso lado. (...)"


"(...) a imagem que melhor define a efervescência de sua mente é esta: um telhado. Nela, os fatos, as lembranças, as dúvidas, os estigmas, como telhas cuidadosamente imbricadas sob o sol, jazem em perfeito plano e todos igualmente à disposição de uma mão carente ou um possível vendaval. Não há hierarquia de natureza alguma. Há somente uma devoção cega à sua vontade, e silêncio, silêncio branco."


"(...) Pensou que, por mais que sejamos ruins, há quem nos aprecie. Por mais que sejamos loucos, irreverentes, incompreensíveis, tolos... Haverá sempre quem chore ao fim, quem diga alguma palavra sincera e quem silencie, diante de nossa imobilidade, o peito em destroços."


"(...) Os que morriam de bala perdida ganhavam a vida. Jamais eram esquecidos. Ainda que fossem idiotas ou pessoas horríveis, más e elementares, tornavam-se uma legenda, uma unanimidade, um silêncio tocante. Não era difícil compreender isso."


"(...) De certo modo, era como se trouxesse dentro de si o esqueleto das coisas. Talvez fosse isso, e era o que certamente deixava as pessoas irritadas e hostis, o fato de nunca precisar delas, nunca lhes solicitar ajuda, caminhar com as próprias pernas e por uma trilha pessoal, ímpar."





Presente no livro de contos O enigma dos livros (P55/2015), páginas 08, 12, 05, 16, 19 e 32-33, respectivamente.




sábado, 1 de agosto de 2015

Cinco passagens de Mayrant Gallo na coleção infantil Pato, Cachorro, Garoto e Minhoca

Mayrant Gallo autografa os livros da coleção 
no dia do lançamento em Salvador/BA (foto: Mirdad)


“Depois do impacto e do baque,
A imobilidade. A amabilidade...

E foi como se o mundo parasse.
E até o Bigode — pela primeira vez! — sonhasse.

Ali na rua aquele monte de pelo imóvel,
E em cada cabeça a dor de não se ter sido melhor.”

O cachorrinho riu (Kalango/2015)


“Imediatamente, sentiu-se feliz por não ser o único ser vivo no mundo. Mesmo um gato era bem-vindo, e ainda que lá na fazenda, antes, ele vivesse se escondendo do bichano, com medo de ser devorado, e embora fosse este o único destino dos patos, mais cedo ou mais tarde — um estômago.”

O ovo e o mundo (Kalango/2015)


“Esteve a contemplar, de cima de um prédio, equilibrado no parapeito, a vastidão de concreto e ferro desenhada pelo homem e agora inútil. Tudo ao mesmo tempo o fascinava e entristecia. De que adiantavam todas aquelas linhas de imponente arrojo, se ninguém mais, exceto ele, um serzinho ínfimo, podia contemplá-las?”

O ovo e o mundo (Kalango/2015)


“O sol pálido lá fora.
A chuva.
A gente que passava, os trens ao longe.

E ele ainda querendo que tudo fosse diferente.”

Dias de garoto (Kalango/2015)


“A execução foi marcada para a clareira pública, ao amanhecer, com a presença de muitos animais, que, nessas ocasiões, abandonam atabalhoadamente suas tocas, pois a morte alheia é um evento sempre atraente e muito disputado.”

A minhoca dorminhoca (Kalango/2015)





Coleção Pato, Cachorro, Garoto e Minhoca (Kalango/2015). Quatro livros infantis, de capa dura e ilustrados, patrocinados pela FPC e Governo da Bahia.

Dedicatórias: Livros de Mayrant Gallo em 2015

Livros de Mayrant Gallo em 2015


2015 - O enigma dos livros (P-55/2015)


"Para Mirdad, estes contos em que despontam fantasias... Abraço! Mayrant Gallo 29/7/2015"
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2015 - O ovo e o mundo (Kalango/2015)


"Pra Mirdad, esta fantasia filosófica... Mayrant Gallo 19/7/2015"
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2015 - O cachorrinho riu (Kalango/2015)


"Para Mirdad, este poema, que foi o que de primeiro escrevi para crianças. Mayrant Gallo 19/7/2015"
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2015 - Dias de garoto (Kalango/2015)


"Para Mirdad, esta história, já conhecida, mas revivida. Abraço, Mayrant Gallo 19/7/2015"
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2015 - A minhoca dorminhoca (Kalango/2015)


"Para Mirdad, amigo das palavras, esta fábula. Mayrant Gallo 19/7/2015"
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