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Seis passagens de Anton Tchekhov no conto Inimigos

Anton Tchekhov em 1887, ano em que escreveu o conto "Inimigos" (foto daqui)


“Reinava ali um silêncio mortal. Tudo, até o derradeiro pormenor, falava ali com eloquência da tormenta recentemente vivida, do cansaço (...) Na cama colocada bem junto da janela, estava deitado o menino, de olhos abertos, e uma expressão de surpresa no rosto. Não se movia, mas seus olhos abertos pareciam tornar-se a cada momento mais escuros e penetrar mais fundo no crânio. Diante da cama, permanecia ajoelhada a mãe, com as mãos sobre o corpo dele e o rosto escondido nas dobras da roupa de cama. Ainda que imóvel como o menino, que intensidade de vida sentia-se nas curvas de seu corpo e em suas mãos! Estava pregada àquela cama com todo o seu ser, com todas as suas forças e ansiedade, como se temesse perder a tranquila e cômoda postura que, finalmente, havia encontrado para seu corpo exausto (...)”


“Estava ausente do quarto o horror repulsivo, em que se pensa quando se fala em morte. Naquela petrificação geral, na postura da mãe, na indiferença do semblante do médico, havia algo atraente, comovedor, aquela beleza sutil, apenas perceptível, da aflição humana, que ainda se tardará a compreender e descrever e que somente a música, ao que parece, sabe transmitir. Sentia-se a beleza, mesmo naquela quietude sombria. (...)”


“(...) A frase, geralmente, por mais bela e profunda, atua unicamente sobre os indiferentes, mas nem sempre pode satisfazer àqueles que são felizes ou infelizes, pois o silêncio constitui, com maior frequência, a mais elevada expressão da felicidade ou do infortúnio. Os que se amam compreendem-se melhor quando calados, e um discurso ardente, apaixonado, proferido sobre o túmulo de alguém, comove unicamente as pessoas estranhas ao defunto, parecendo frio e insignificante a sua viúva e filhos.”


“A voz e os movimentos que fazia o recém-chegado indicavam um estado de extrema agitação. Como alguém assustado por um incêndio ou por um cão raivoso, mal continha a respiração precipitada, falava rapidamente, com voz trêmula, e percebia em sua voz algo realmente sincero, algo de temor infantil. Como toda pessoa assustada e atordoada, falava com frases curtas, entrecortadas, e proferia muitas palavras supérfluas, que nada tinham a ver com o caso.”


“Abóguin seguiu-o e agarrou-o pela manga.
– O senhor está em aflição, eu compreendo, mas eu não o convido para tratar os dentes de alguém ou para uma peritagem, trata-se de salvar uma vida humana! – continuou implorando, como um mendigo. – Essa vida está acima de qualquer aflição individual! Estou lhe pedindo que tenha valor, que faça um sacrifício sublime! Em nome do amor à humanidade!
– O amor à humanidade é uma faca de dois gumes – disse irritado Kirilov. – Em nome do mesmo amor à humanidade, eu lhe peço que não me leve daqui. Como é estranho, meu Deus! Mal consigo me manter em pé e o senhor me ameaça com o amor à humanidade! Não sirvo para nada, neste momento... não irei, por nada nesse mundo. Além disso, quem cuidaria de minha mulher? (...)”


“Abóguin e o médico ficaram parados um em face do outro e, irados, continuaram a lançar-se ao rosto ofensas imerecidas. Em sua vida, seguramente, mesmo em delírio, jamais haviam dito tantas palavras injustas, cruéis e absurdas. Pela boca de ambos, falava o egoísmo dos infelizes. Os infelizes são egoístas, maus, injustos, cruéis e menos capazes de se entender entre si que os imbecis. A infelicidade não une, mas separa os homens e, mesmo nos ambientes em que, parece, eles deveriam ficar unidos pela paridade do infortúnio, comentem-se muito mais injustiças e crueldades que num meio de gente relativamente satisfeita.”





Trechos do conto Inimigos, presente no livro de contos A dama do cachorrinho e outros contos (Editora 34/2014), páginas 188-189, 189, 191-192, 186-187, 190-191 e 200, respectivamente, na tradução de Boris Schnaiderman.

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