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Nove passagens de Sérgio Sant'Anna no livro O voo da madrugada

Sérgio Sant'Anna (foto daqui)


"A velha senhora sabia muito bem que em regiões muito mais distantes que aquela onde se encontrava a estrela havia bilhões de outras, em espaços onde estariam ocorrendo explosões nucleares de um poder espantoso, que se alimentavam de si próprias, sem o testemunho de nenhum ser por perto. No entanto, em algum ponto do universo havia pelo menos um ser pensando nisso, que era a velha senhora, ocupando seu lugarzinho ínfimo, como o de uma formiga de apartamento, iluminado pela luz do abajur, e lançando seu pensamento tão precário para aqueles eventos grandiosos e invisíveis, como estrelas emitindo seu brilho portentoso desde há milhões de anos-luz. Aquilo deixava a velha senhora completamente humilde, e entretanto muito orgulhosa de fazer parte daquele todo universal em cujo interior muito em breve se perderia."


"Não durou mais do que aqueles instantes de reconhecimento para que a aparição se dissipasse, deixando-me para sempre na dúvida de se ela se manifestara independentemente de mim ou se fora eu a criá-la num momento agudo de fadiga e histeria, depois de tudo o que vivera nas últimas horas. (...) Mas esse mínimo tempo fora suficiente para que eu, sendo também o que ali estivera sentado à cama, pudesse ver duas faces de mim mesmo. Numa delas, à porta, estavam marcados os vincos de um cansaço mortal; da melancolia e solidão exasperadas, como as vividas no Hotel Viajante. Na outra face, porém, vi-me como me teria visto e sentido a minha companheira de voo, atravessando minha máscara crispada para poder amar-me do jeito que eu a amava: como aquele que eu poderia ser, ou, quem sabe, como aquele que verdadeiramente eu era, vencidas as barreiras mais entranhadas."


"Eu saboreava um vinho de razoável qualidade e, talvez inspirado por seus eflúvios, aquele processo de desagregação nos mortos me vinha ao pensamento como uma forma refinada de criação, pois eliminaria, ao seu termo, todas as repugnâncias do corpo, seus odores, seus excrementos e ânsias sexuais, suas dores físicas e aquelas outras que provêm de um ponto imponderável que às vezes chamamos de mente, às vezes de espírito, e que parece não se abrigar em matéria alguma, não estar preso a nada (...)"


"(...) Tem ainda uma esperança vaga, quase irracional, de que na escalada dele rumo à vileza, à destruição, uma dádiva tão extremada dela possa ter algum poder transformador. E, como se neutralizasse toda a violência contida naquele ato, ela afaga a nuca dele e pronuncia: 'Meu filho, meu filho'. E ele a penetra, sim, e ela está úmida o suficiente para que isso possa acontecer e há um espanto nele, e nela, de que isso esteja ocorrendo, e o mundo continue girando no eixo e cheguem ali no quarto os ruídos dos carros na rua, das vozes numa tevê ligada em outro apartamento, dos latidos de um cão. E ela continua tão lucidamente louca que diz: 'Não goza dentro'. E ele obedece."


"Durante a escrita do conto há sempre a iminência do fracasso, de o contista não conseguir manifestar os seus fantasmas, entes, pensamentos mais soterrados, e não lograr traduzir em imagens uma ânsia desesperada de poesia, como salvação de um vazio, angústia, solidão e depressão profundos, que clamam por um aniquilamento do próprio contista. A iminência do fracasso por não alcançar, com as palavras, momentos de beleza e amor com personagens vivos a ponto de libertá-lo da sua solidão, pois bastaria abrir as páginas certas do livro e visitá-los."


"(...) um desejo de clandestinidade, de novidade, de encontrar naqueles seios o que sua mulher, depois de dois filhos, não podia mais oferecer, nem que fizesse uma operação plástica, porque era também - e isso para ele - uma questão psicológica envolvendo a maternidade, leite nos seios, numa relação que já seguira uma parte de seu curso de família feliz e convencional, quando então podia sentir-se mortalmente entediado. Não era de admirar que tantos casais se separassem, muitas vezes apenas para recuperar, na vida, as emoções."


"Ao tomar um táxi, à porta do hotel, meu olhar foi inevitavelmente atraído para o beco. Não havia ninguém lá, e fui possuído por uma raiva intensa, que, agora que escrevo estas linhas que se impõem a mim, posso discriminar como uma mistura de indignação e ressentimento. A primeira, porque imaginava algum dos homens brutos daquela terra, ou talvez aquele protetor demoníaco, profanando o corpo da menina; o segundo, porque sentia como se a tivessem roubado de mim. É, isso mesmo, que ninguém se espante, pois os sentimentos humanos são sempre partidos no mínimo em dois, e, se há homens dignos, são apenas seres que conseguem vedar seus compartimentos secretos."


"(...) O Robert tem uma teoria que ele considera absolutamente comprovada pela História, de que os religiosos são muito mais cruéis e prejudiciais à humanidade que os ateus, que só querem aproveitar a vida. E quem aproveita a vida não quer ver a caveira de ninguém. (...)"


"Um conto de semântica distorcida, de sons insuspeitados como o de cordas soadas pelo vento feito música do Uakti ou de Smetak (...) Um conto jogo de espelhos a refletir ao infinito um torso de mulher no instante em que mãos lhe acariciam os seios criando a sensação de capturar uma felicidade para sempre (...) Um conto em que espreitam as figuras mais guardadas do desejo, como a menina que se trancou no armário com o menino na festa dos dez anos, as mãos dadas, as respirações se misturando e os vestidos a tocar os rostos com a textura acetinada do segredo, evitando-se as palavras ou os movimentos bruscos para que não avance o tempo e se aparte o amor que se levará pela vida agora."





Presentes no livro de contos O voo da madrugada (Companhia das Letras/2003), páginas 86, 26-27, 18-19, 33, 53-54, 37, 14, 159 e 43, respectivamente.

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