Pular para o conteúdo principal

Seis passagens de Mayrant Gallo no livro de contos O enigma dos livros

Mayrant Gallo (foto: Ricardo Prado)

"(...) Lá fora, ao vencer o corredor ensolarado e de cuja superfície, de cimento áspero, subia um indefectível odor de aridez, amuou-se, certo de que ia morrer, em breve. Talvez. Esta é uma possibilidade sempre presente, o forro da própria existência, o pouco de sentido que diariamente a envolve, sob os clarões do nada."

"(...) Pela lembrança de instantes em que dois corpos e duas almas se unem. Uma sensação irrepetível, indissolúvel, única como a vida (...) É isto que perdemos quando estacionamos em alguém. E é isto que recuperamos quando alguém nos diz que nos ama ou que deseja estar conosco. Não é o amor em si, mas os instantes seguintes, os arredores. Encontros, esperas, as perspectivas de um rosto e um corpo ao nosso lado. (...)"

"(...) a imagem que melhor define a efervescência de sua mente é esta: um telhado. Nela, os fatos, as lembranças, as dúvidas, os estigmas, como telhas cuidadosamente imbricadas sob o sol, jazem em perfeito plano e todos igualmente à disposição de uma mão carente ou um possível vendaval. Não há hierarquia de natureza alguma. Há somente uma devoção cega à sua vontade, e silêncio, silêncio branco."

"(...) Pensou que, por mais que sejamos ruins, há quem nos aprecie. Por mais que sejamos loucos, irreverentes, incompreensíveis, tolos... Haverá sempre quem chore ao fim, quem diga alguma palavra sincera e quem silencie, diante de nossa imobilidade, o peito em destroços."

"(...) Os que morriam de bala perdida ganhavam a vida. Jamais eram esquecidos. Ainda que fossem idiotas ou pessoas horríveis, más e elementares, tornavam-se uma legenda, uma unanimidade, um silêncio tocante. Não era difícil compreender isso."

"(...) De certo modo, era como se trouxesse dentro de si o esqueleto das coisas. Talvez fosse isso, e era o que certamente deixava as pessoas irritadas e hostis, o fato de nunca precisar delas, nunca lhes solicitar ajuda, caminhar com as próprias pernas e por uma trilha pessoal, ímpar."




Presente no livro de contos O enigma dos livros (P55, 2015), páginas 08, 12, 05, 16, 19 e 32-33, respectivamente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Oito poemas de Ana Martins Marques no livro Risque esta palavra

Ana Martins Marques (foto daqui ) História Ana Martins Marques Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem uma história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma calça jeans de 4 anos e uma camiseta de não mais do que 3, troco com meu vizinho palavras de cerca de 800 anos e piso sem querer numa poça com 2 horas de história desfazendo uma imagem que viveu alguns segundos. Belo Horizonte, 7 de novembro de 2016. -------- Parte alguma Ana Martins Marques Não te enganes: viajar é aborrecido. Num ponto, ao menos, todos os lugares  se parecem: neles já se passou  algo terrível.  As viagens cansam e são tristes.  Viajando apenas constatamos  a repetição tediosa do que existe. Pois para onde quer que compremos passagem levamos a nós mesmos na bagagem. Viajar é conduzir o corpo — esse comboio imundo — a...

Dez passagens de Jorge Amado no romance Capitães da Areia

Jorge Amado “[Sem-Pernas] queria alegria, uma mão que o acarinhasse, alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os muitos anos (talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam sempre longos anos) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca tivera família. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava ‘meu padrinho’ e que o surrava. Fugiu logo que pôde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu fome, um dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u’a mão que passe sobre os seus olhos e faça com que ele possa se esquecer daquela noite na cadeia, quando os soldados bêbados o fizeram correr com sua perna coxa em volta de uma saleta. Em cada canto estava um com uma borracha comprida. As marcas que ficaram nas suas costas desapareceram. Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora. Corria na saleta como um animal perseguido por outros mais fortes. A...

Dez passagens de Clarice Lispector no livro Laços de família

Clarice Lispector (foto daqui ) “A mãe dele estava nesse instante enrolando os cabelos em frente ao espelho do banheiro, e lembrou-se do que uma cozinheira lhe contara do tempo do orfanato. Não tendo boneca com que brincar, e a maternidade já pulsando terrível no coração das órfãs, as meninas sabidas haviam escondido da freira a morte de uma das garotas. Guardaram o cadáver no armário até a freira sair, e brincaram com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo somente para depois poder beijá-la, consolando-a. Disso a mãe se lembrou no banheiro, e abaixou mãos pensas, cheias de grampos. E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz. Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor. Então olhou para o filho esperto como se olhasse para um perigoso estranho. E teve horror da própria alma que, mais que seu corpo, havia engendrado aquele ser apto à vida e à felici...