segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Sete poemas de Marcus Vinícius Rodrigues no livro Arquivos de um corpo em viagem

Marcus Vinícius Rodrigues - Foto: Divulgação


Tudo o que sei

Posso saber do mar distante
pelo barulho longe

e do sol que brilha
pela sombra que o esconde.

Posso saber que a terra gira
só de olhar para o alto

e, tonto, olhos fechados,
ainda o sangue em correnteza

pela erosão do corpo gasto
na marcha da vida,

sei o que você não disse
na hora da despedida:

– Somos nossa única certeza.


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Saber do corpo

É preciso saber do corpo como nave,
os passos de uma precisa navegação
que mais nos aproxime que afaste
e mova-se sempre mais ao encontro
do seu outro também barco e porto.

É preciso saber do corpo como praça
que alimenta as aves e a multidão
e permite, na marcha, abrir as asas
do caminho que por dentro rasga
os muros que nos dizem não.


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Ilhéus

Você me verá ao cais
vazio da cidade onde nasci,

andando sobre o lodo
do mar que esvai.

Também eu parti
rumo à saudade,

esta nova pátria
de onde não posso fugir.


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Mar da vida
                           Para Ananda Amaral

Toma a vida
aos goles curtos
que o mar é
todo afogamento.

Toma-os, porém, muitos,
em quantidade reiterada,
até abrir-se dentro
um oceano para cada
amante que te navega,

tantos quantos forem
as vagas de tua alma.

E, depois,
faze-te ao largo, esquece o porto,
abandona-te à saga.


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Andar de bicicleta

Meu amor me ensina a andar de bicicleta,
o equilíbrio delicado da aventura.

Ele segura firme e me ampara
quando hesito e ameaço a queda.

O vento no rosto, o chão fugindo sob os pés,
tudo me engole em vertigens.

Quando, cansados, deitamos debaixo das árvores,
as nuvens tortas de nossa festa na relva,

sou eu quem ensina, professor aplicado,
a verdadeira arte: desequilibrar-se.


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Além dos delitos

Porque não sei do mar e das vagas
que os dias claros trazem à praia

vivo a adivinhar, dentro da noite,
os ventos úmidos que por sobre

cordilheiras e vales me vêm
contar o mundo que houve,

o estranho mundo em que amores
navegam líquidos movediços

e derivam para além do sabor,
muito além de todos os delitos.


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Um corpo em viagem

O corpo, mapa de viajantes perdidos.
O desejo, bússola tresvariada.

Cultivei em mim desencontros
em lavras e lanhas de disciplinas sacras.

Fui fértil de atrasos e enganos,
fui na vida avaria trágica.





Presentes no livro Arquivos de um corpo em viagem (Mondrongo/2015), páginas 36, 50, 13, 28, 41, 27 e 14, respectivamente.

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