Pular para o conteúdo principal

Sete poemas de Marcus Vinícius Rodrigues no livro Arquivos de um corpo em viagem

Marcus Vinícius Rodrigues - Foto: Divulgação


Tudo o que sei

Posso saber do mar distante
pelo barulho longe

e do sol que brilha
pela sombra que o esconde.

Posso saber que a terra gira
só de olhar para o alto

e, tonto, olhos fechados,
ainda o sangue em correnteza

pela erosão do corpo gasto
na marcha da vida,

sei o que você não disse
na hora da despedida:

– Somos nossa única certeza.


---------


Saber do corpo

É preciso saber do corpo como nave,
os passos de uma precisa navegação
que mais nos aproxime que afaste
e mova-se sempre mais ao encontro
do seu outro também barco e porto.

É preciso saber do corpo como praça
que alimenta as aves e a multidão
e permite, na marcha, abrir as asas
do caminho que por dentro rasga
os muros que nos dizem não.


---------


Ilhéus

Você me verá ao cais
vazio da cidade onde nasci,

andando sobre o lodo
do mar que esvai.

Também eu parti
rumo à saudade,

esta nova pátria
de onde não posso fugir.


---------


Mar da vida
                           Para Ananda Amaral

Toma a vida
aos goles curtos
que o mar é
todo afogamento.

Toma-os, porém, muitos,
em quantidade reiterada,
até abrir-se dentro
um oceano para cada
amante que te navega,

tantos quantos forem
as vagas de tua alma.

E, depois,
faze-te ao largo, esquece o porto,
abandona-te à saga.


---------


Andar de bicicleta

Meu amor me ensina a andar de bicicleta,
o equilíbrio delicado da aventura.

Ele segura firme e me ampara
quando hesito e ameaço a queda.

O vento no rosto, o chão fugindo sob os pés,
tudo me engole em vertigens.

Quando, cansados, deitamos debaixo das árvores,
as nuvens tortas de nossa festa na relva,

sou eu quem ensina, professor aplicado,
a verdadeira arte: desequilibrar-se.


---------


Além dos delitos

Porque não sei do mar e das vagas
que os dias claros trazem à praia

vivo a adivinhar, dentro da noite,
os ventos úmidos que por sobre

cordilheiras e vales me vêm
contar o mundo que houve,

o estranho mundo em que amores
navegam líquidos movediços

e derivam para além do sabor,
muito além de todos os delitos.


---------


Um corpo em viagem

O corpo, mapa de viajantes perdidos.
O desejo, bússola tresvariada.

Cultivei em mim desencontros
em lavras e lanhas de disciplinas sacras.

Fui fértil de atrasos e enganos,
fui na vida avaria trágica.





Presentes no livro Arquivos de um corpo em viagem (Mondrongo/2015), páginas 36, 50, 13, 28, 41, 27 e 14, respectivamente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

Informações sobre o livro (trechos, release, fotos, crítica, etc.) aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…