Pular para o conteúdo principal

Oito passagens de Tarcísio Buenas no livro 18 de maio, quanto tens por dizer...

Tarcísio Buenas
Foto: Divulgação


"– Tá me paquerando?
– Não, por quê?
– Você piscou pra mim.
– É sono."


"(...) Deve ser mesmo um incômodo pros babacas ser rico, rocker e poeta talentoso com muita grana pra gastar. Nunca entendi por que o poeta tem que ser o pobre fodido de bolso. O que vaga por aí trabalhando em troca de comida e bebida. De um lugar pra dormir (essas coisas que falam sobre o poeta marginal). Um poeta marginal pode morar na cobertura do Leblon, frequentar grandes festas nos lugares mais quentes e não ser babaca como muitos artistas (...) Só discurso. O primeiro disco do Barão é uma obra-prima. Isto se deve em boa parte ao talentoso poeta Caju e seu canto escrachado. Mais um 'filhinho de papai' a deixar sua marca indelével em nossas vidas (...)"


"(...) Estes caras com quem você anda vivem no salão de beleza fazendo as unhas e bebendo Martini com cereja pra enfeitar o copo. Eu corto minhas unhas com canivete. E bebo do Jack Daniels do Marião (...)"


"– Eu não sei se te amo.
– Mas você me disse na semana passada que me amava.
– Eu mudo."


"(...) Não tenho medo do escuro, nem da morte. Acho insuportável esse papo de que qualidade de vida é dormir cedo e acordar cedo. Não beber, nem fumar. Praticar esportes e coisa e tal. É insuportável. (...) Já briguei em empregos hediondos e caí na estrada em busca de aventura. Você já deve ter visto momentos como esse em algum filme ou livro. Sei que sim. Este desejo não é só meu. Nunca será. (...) Cheguei recentemente de uma viagem que durou três meses. Fiz o que mais almejei nos últimos três anos (...) Quanto ao remédio que eu tava tomando pra depressão, deve ter sido esmagado pela roda de algum caminhão e virado pó, se misturando com o pó da estrada."


"(...) Bebi uma cerva no boteco do Pedrinho que ficava em frente lá de casa com o velho Edgar sentado na porta, sempre me recebendo com um enorme sorriso e apertando a minha mão com maior prazer. Ele bebia todos os dias. Toda vez que eu voltava do colégio ele tava lá sentado, sempre no mesmo lugar, com a velha camisa branca de botão com bolso no lado esquerdo para guardar o cigarro. Minha mãe bebia com ele de noite. Os dois cuspiam grosso! (...)"


"Desde meus tempos de escola, eu vivia solitariamente no meu canto. Não gostava de ficar no meio dos demais [mesmo quando ela me convidava para entrar, eu não entrava]. Um dia, ela se aproximou usando uma saia curta; se abaixou mostrando seus pelos pubianos – eram pretos – e estava saindo da calcinha. Apertou minha mão contra seu peito e me convidou para entrar. No canto escuro da parede, a imagem de Cristo olhando pacificamente para meus olhos solitariamente tristes. E nada mudou."


"(...) Olhando agora minha foto quando criança vejo um misto de candura e melancolia que parece não acabar mais. A candura deve ter escorrido pelos cantos dos meus olhos tristes; já a melancolia, é eterna (...) alguém vai ler isso aqui e comunicar à minha mãe e ela vai ler e me ligar chorando como é de costume nos fins de noite quando estamos bêbados em sintonia afinada – é quando a solidão e a melancolia se misturam (...) Na trilha sonora Cohen com suas canções dolorosas me fará melhor (...) Vou acender uma vela para Jack Kerouac daqui a pouco e pedir a Deus pro bem de sua alma. Acenderei outra pra John Fante. Os meus heróis não merecem passar pelo que eu tô passando agora. É doloroso ficar aqui sozinho no sétimo andar de um prédio quase em ruínas (...)"



Presentes no livro de crônicas, memórias, resenhas e poemas "18 de maio, quanto tens por dizer..." (Buenas Books, 2015), de Tarcísio Buenas, páginas 35, 25-26, 16, 64, 65, 49, 47 e 19, respectivamente.

Comentários

Rounds disse…
Mirdad, obrigado por divulgar.
Grande abraço.

Postagens mais visitadas deste blog

Dez passagens de Jorge Amado no romance Capitães da Areia

Jorge Amado “[Sem-Pernas] queria alegria, uma mão que o acarinhasse, alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os muitos anos (talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam sempre longos anos) que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca tivera família. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava ‘meu padrinho’ e que o surrava. Fugiu logo que pôde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu fome, um dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u’a mão que passe sobre os seus olhos e faça com que ele possa se esquecer daquela noite na cadeia, quando os soldados bêbados o fizeram correr com sua perna coxa em volta de uma saleta. Em cada canto estava um com uma borracha comprida. As marcas que ficaram nas suas costas desapareceram. Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora. Corria na saleta como um animal perseguido por outros mais fortes. A...

Dez passagens de Clarice Lispector nas cartas dos anos 1950 (parte 1)

Clarice Lispector (foto daqui ) “O outono aqui está muito bonito e o frio já está chegando. Parei uns tempos de trabalhar no livro [‘A maçã no escuro’] mas um dia desses recomeçarei. Tenho a impressão penosa de que me repito em cada livro com a obstinação de quem bate na mesma porta que não quer se abrir. Aliás minha impressão é mais geral ainda: tenho a impressão de que falo muito e que digo sempre as mesmas coisas, com o que eu devo chatear muito os ouvintes que por gentileza e carinho aguentam...” “Alô Fernando [Sabino], estou escrevendo pra você mas também não tenho nada o que dizer. Acho que é assim que pouco a pouco os velhos honestos terminam por não dizer nada. Mas o engraçado é que não tendo absolutamente nada o que dizer, dá uma vontade enorme de dizer. O quê? (...) E assim é que, por não ter absolutamente nada o que dizer, até livro já escrevi, e você também. Até que a dignidade do silêncio venha, o que é frase muito bonitinha e me emociona civicamente.”  “(...) O dinhei...

Oito poemas de Ana Martins Marques no livro Risque esta palavra

Ana Martins Marques (foto daqui ) História Ana Martins Marques Tenho 39 anos. Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos. Meus seios têm cerca de 12 anos a menos. Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas. Pela manhã como um pão. Ele tem uma história de 2 dias. Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma calça jeans de 4 anos e uma camiseta de não mais do que 3, troco com meu vizinho palavras de cerca de 800 anos e piso sem querer numa poça com 2 horas de história desfazendo uma imagem que viveu alguns segundos. Belo Horizonte, 7 de novembro de 2016. -------- Parte alguma Ana Martins Marques Não te enganes: viajar é aborrecido. Num ponto, ao menos, todos os lugares  se parecem: neles já se passou  algo terrível.  As viagens cansam e são tristes.  Viajando apenas constatamos  a repetição tediosa do que existe. Pois para onde quer que compremos passagem levamos a nós mesmos na bagagem. Viajar é conduzir o corpo — esse comboio imundo — a...