domingo, 25 de novembro de 2012

Pílulas: Pedra Só, de José Inácio Vieira de Melo

JIVM, interferido por Mirdad, em foto de Ricardo Prado

Pedra Só é o sétimo e mais novo livro do poeta alagobaiano José Inácio Vieira de Melo, lançado este ano pela editora Escrituras. Não é o meu predileto (que são A Terceira Romaria e A Infância do Centauro - veja a Pílulas deste livro aqui no blog), mas é um excelente livro, com destaque para a entrevista que o jornalista Gabriel Gomes fez com o poeta no Posfácio da obra, e para os poemas pilulados a seguir:


“...
para o voo ser só voo e asas,
é preciso que o baú sinta a fome
dos cupins e traças.

A arte da pedra é ser o silêncio que cresce.

E o que toda a gente quer
é sombra e rede e água.
Mas o tamanho da sede
é de acordo com o merecimento.

E o que mais se vê pelo mundo
é gente engolindo gente

O desejo cego dos homens habita suas cabeleiras:
saltar para o amplo vazio dos elementos
e ver na soleira da arte o assombro e a magia.

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apesar da cara de totem,
ela era mesmo um mantra.

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Pão, antes de ser palavra, é vontade de comer.
Pão é uma palavra que começa na fome.

A seca, às vezes, me dá vontade de desistir.

Ainda assim, persiste em mim a poesia
e essa vontade de inundar o mundo.

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Com o tempo não tem acordo certo.
Num instante ele chega e tudo vira cinza.

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O tempo está passando e continua o mesmo,
as minhas dores é que são cada vez mais reais.
O tempo está passando e eu continuo a esmo.
Já estou cansado de olhar para a mulher
que não me quer, já estou ficando vesgo
de olhar para o firmamento e ver a linha
que nada indica – nem início nem fim nem meio.
Já olhei bem no centro de tudo que alcanço,
para os lados e para os cantos e para os recantos,
já até me perdi dentro do olhar buscando encontrar,
mas nunca vi o olho de Deus na palma da minha mão.

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Com o olhar perscrutador
e com estas sete vidas
dos meus vinte dedos é
que sondo o mapa do mito

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Sou teu irmão.
O que semeou em teu ventre
as sementes que esperaram milênios
para serem salmos.


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O outro nome de Moisés
é Michelangelo,
mas foi o teu pincel, Leonardo,
que abriu o Mar Mediterrâneo
e com ele escreveste
as formas de uma deusa
que em sua face
traz todos os nomes.



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Enquanto a mulher esquenta a água
para espantar o frio, cozinho meu juízo
na poesia da noite que chega

Depois da chuva do fim de tarde
fica sempre esse gosto de febre,
fica sempre um cheiro de terra úmida,
vontade doida de germinar.

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O mistério segue de casa em casa
a balançar a criança na rede.

Depois, abre a porta dos sonhos
e toca a Nona Sinfonia

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Incrustadas por brasas aflitas
as fêmeas se enlaçam aos machos
e afloram gerações e gerações
para desfolhar as pedras de Deus.

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Pega o livro!
A realidade é fazer o livro de novo,
com nova caligrafia codificar a jornada.

Ter o mistério na concha das mãos,
as palavras certas para os sons da lonjura,
a imagem do mundo dentro da pedra
e fazer com que os rituais da transparência
ganhem ritmos e formas.

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Seguraste o Sol nas costas.
Agora, reconheces nas cicatrizes
os nomes que queimaram teu corpo,
marcas que anunciam os sofrimentos
que fizeram de ti este ser estranho
que fez uma espera para tocaiar

o silêncio.

Meus camelos trazem oceanos no bojo
e são mais desertos que o Saara.

O sonho dorme nos espelhos
e acorda dentro do sono
para celebrar os encantos
e os tumultos do chacal.

..."

Trechos dos poemas, na ordem deste post, Pedra Só, Tia Aurora, Vozes Secas, Tempo, Jokerman, Rastro de Teseu, Cantiga para Mariana, Cantiga para Leonardo, Chuva de Páscoa, Beethoven, Parábolas, Castelos de Letras e Mandalas, de José Inácio Vieira de Melo, publicados no livro Pedra Só, Escrituras (2012).


Meu poema predileto no livro é Caligrafias. Confira (clique em cima da imagem para ampliar):



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terça-feira, 20 de novembro de 2012

Resenha do novo CD de Tiganá Santana

Show de lançamento do novo CD de Tiganá Santana na Suécia (foto: Iñaki Marconi)


"The Invention of Colour" é o novo CD de Tiganá Santana, que será lançado em breve no Brasil. Confira a crítica do sueco Peter Sjöblom para o site Tidningen Kulturen (original aqui), traduzida por Sebastian Notini:

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Talvez "The Invention of Colour" seja o disco mais contraditório do ano, tanto em termos de design e conotações culturais. Primeiro o disco vem, com um título forte colorido, com uma capa de cor modesta. Segundo, ele é feito por um brasileiro, então seria fácil a associação de percussão e dança exuberante, mas o cantor/compositor Tiganá Santana é praticamente o oposto disso. Críticos têm o hábito de o tempo todo traçar paralelos com Nick Drake ao escrever sobre qualquer artista que faz música melancólica e que também é guitarrista original e talentoso, mas no caso de Santana, na verdade é a comparação mais adequada. Até mesmo a voz velada de Santana tem traços da suave voz compositor inglês. Uma referência mais difusa, mas não irrelevante, é Terry Callier quando ele está em seu estado mais meditativo.

Tiganá Santana é incomum mesmo em outros aspectos. Ele canta em várias línguas africanas e europeias, que, sem dúvida, contribui para a coloração emocional da música. Mas, novamente, não é paleta farta que ele oferece; a música vai andando em cores quentes e suaves. Eu digo bege sem querer dizer nada sombrio, eu digo marrom, querendo dizer macio, marrom acolhedor. Vermelho fino e saturado. Cores que não se intrometem, mas trazem uma calma devota.

Eu não sei por que eu fiquei realmente surpreso ao saber que "The Invention of Colour" foi gravado em Estocolmo, com a ajuda de, entre outros, Ane Brun e Joakim Milder. Talvez consiste a real surpresa em que Santana vive em São Paulo. Talvez porque a sua música está tão longe do clima austero sueco, isso é música que pertence a esferas completamente diferentes. Mas, realmente, essa música tem nada a ver com meteorologia. E mais sobre o estado interior que não obedece nem tempo nem continentes. Mais adequado ainda então que Santana alterna entre os idiomas sem cerimônias. Contribui para o clima pancultural e "panemocional" do disco.

"The Invention of Colour" é o que os críticos me levaram a acreditar que José González seria, mas eu nunca pensei que ele era. Onde González sempre parou em uma simplicidade um pouco seca, Tiganá Santana tem uma intensidade delicada, com camadas e camadas de sonoridades leves, deslocamentos rítmicos cautelosos, movimentos e contra-movimentos. Os gestos são pequenas, mas o resultado é grande. Realmente grande.
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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Vamos ouvir o 1º CD da Ana Gilli

Ana Gilli - Sabe Qual?




Não consegue visualizar o player? Ouça aqui


Sabe aquela cantora, a atriz Ana Gilli? Ela mesma, tá lançando seu 1º CD! Sabe qual?


“Sabe Qual?” é o álbum de estreia da cantora e atriz paulista Ana Gilli. Premiado pelo Edital de Gravação de Primeiro Disco do PROAC da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, traz nove faixas em que a interpretação peculiar da cantora fica em evidência: uma voz suave, delicada, repleta de recursos cênicos que dialogam com a essência das melodias, soando natural e com grande sensibilidade.

Atriz formada pela EAD-USP, graduada também em canto popular e em comunicação, o que Ana Gilli quer é dialogar com o seu público, marca singular de seus shows. Inspirada nas grandes intérpretes da música global, deixa de lado o aspecto autoral, tão em evidência nesses tempos, pra poder trazer de volta o foco na interpretação, nas minúcias do canto, pra poder comunicar melhor às pessoas o que as belas composições mais buscam: emocionar.

Com direção musical do violonista e arranjador gaúcho Leandro Brenner, que acompanha Ana Gilli há quatro anos, e produção da empresa Cult Cultura, “Sabe Qual?” é um álbum de MPB, reunindo diversos estilos como pop, bossa, soul, baião, samba, moda de viola, balada voz e violão, maracatu e muito groove. Além do prêmio do Edital do PROAC, o disco levou uma verba complementar através do Catarse, site de crowdfunding, para gravação da faixa “Como Dizia o Poeta” (Vinicius de Moraes e Toquinho), 1ª composição deles em parceria, que teve a ilustre participação do cantor e compositor Toquinho. As outras participações do CD são do sanfoneiro Enok Virgulino (do Trio Virgulino), da MC Dani Nega e dos violeiros do Duo Catrumano.

Acompanhada pelos músicos Fernando Silveira (percussão), Bruno Tessele (bateria) e Fil Caporali (baixo), além do diretor musical Leandro Brenner, Ana Gilli inicia com “Sabe Qual?” a sua pesquisa pelos novos sons contemporâneos do Brasil. Para montar o repertório, entrou em contato com a nova geração da MPB através de festivais, saraus e redes sociais, recebendo mais de 400 propostas de músicas de todo o Brasil. Chegou a uma seleção em que apresenta três canções premiadas em festivais (“O Nome, a Pessoa”, “Pétalas de Cinza” e “Horizonte”), e músicas de compositores em ascensão como Vinicius Calderoni, do grupo 5 a Seco, Dani Gurgel, Daniel Conti e o baiano Daniel Mã.

No partido alto “Primeiro Samba” (destaque do CD ao lado do single “Saci” e da pop “De Casa”), Ana Gilli, na simpatia malandra de chegar com calma, pede “licença pra cantar meu primeiro samba ... peço a benção pra cantar”. Pois bem, bela voz, pode vir, tá abençoada!


www.anagilli.com.br

www.soundcloud.com/anagilli

www.facebook.com/anagillioficial


Ana Gilli


Ana Gilli tem formação em canto popular pelo Centro de Estudos Musicais Tom Jobim (antiga Universidade Livre de Música – ULM) e é atriz graduada pela tradicional Escola de Arte Dramática da USP – EAD.

Teve como sua maior influência a música de seu país: bossa nova, samba, choro, baião e a música caipira de raiz. O contato com o Jazz ocorreu nos Estados Unidos, onde estudou Arte Dramática. Sua viagem não apenas mudou suas referências musicais como também suas referências teatrais. Foi no Teatro Musical que Ana Gilli encontrou sua expressão artística mais completa. Ao voltar ao Brasil em 2002, mudou-se para São Paulo onde desenvolveu pesquisas e trabalhou com grandes nomes do Teatro Brasileiro, tais como Celso Frateschi, Iacov Hillel, Roberto Lage, Beto Andreeta, Carlos Bauzys, Bete Dorgam, Cristiane Paoli-Quito e Mônica Montenegro.

Desde 2006 dedica-se à carreira de cantora solo, tendo se apresentado em casas de show na cidade de São Paulo. Tributos a grandes nomes da música estão presentes em seu currículo musical, como: “Como Dizia o Poeta - Tributo a Vinícius de Moraes”, “Tributo a Baden Powell” (ambos em parceria com violonista Leandro Brenner), “Tributo a Elis Regina”, “Tributo a Billie Holiday” (ambos em parceria com os pianistas Beto Bertrami e Fernando Henna) e “Tributo ao Samba”, em parceria com as cantoras Livia Camargo e Luanna Belini, o cavaquinista Marcel Martins, o violonista Emerson Negão e o percussionista Fernando Silveira.

Em 2008, ganhou dois prêmios de Melhor Intérprete em Festivais de Poesia Falada (Festival Internacional de Poesia de Varginha e Festival de Poesia Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro). Em 2009, estreou o Musical Infantil “Bichos do Mundo” (Companhia de Bonecos Pia Fraus) onde atuou como atriz e cantora. O resultado deste trabalho deu-se na gravação de um CD, lançado em todo o país no ano seguinte.

Em 2010, Ana Gilli iniciou uma parceria com a Cult Cultura, empresa de Marketing e Gestão Cultural que começou a gerenciar sua carreira através de estratégias de marketing e comunicação. Sua logomarca foi reformulada e os perfis de Ana Gilli começaram a ser criados nas redes sociais mais adequadas para seu público. Nesse mesmo ano, Ana Gilli apresentou o show “Como Dizia o Poeta” em diversos locais e eventos, como: “Vinícius Bar”, localizado à Rua Vinícius de Moraes, em Ipanema (RJ); “Estação Catraca Livre”, promovido pelo site Catraca Livre, do jornalista Gilberto Dimenstein; “Seresta na Praça”, em Campinas, onde Ana Gilli abriu os shows de Jair Rodrigues e Wanderléa; “Casa São Jorge”, entre outros.

Em 2011, a cantora abriu sua agenda de shows na conceituada casa “Ao Vivo Music”, participou da gravação e do pré-lançamento do 2º CD da Orquestra Filarmônica de Violas (dirigido por Ivan Vilela), cujo repertório também conta com a participação de Tetê Espíndola e organizou, ao lado da Cult Cultura, o AnaGilli.Domingo.conVida, evento multicultural realizado no Bar Kabul (centro de São Paulo), que reuniu, em 3 edições, talentos de diversas áreas da arte e da cultura e finalizando sempre com o show “Como Dizia o Poeta”. Também participou do projeto “O Fim está próspero”, do grupo “Meia Dúzia de 3 ou 4”, em que atuou como atriz em um clipe da banda e como cantora na música “Nibiru Geral”, com o músico Maurício Pereira.

 Em 2012, o projeto de Ana Gilli no site de crowdfunding (financiamento colaborativo) Catarse teve excelente destaque, e conseguiu viabilizar a gravação da música “Como Dizia o Poeta”, com a participação do reconhecido compositor e músico Toquinho. Esse projeto foi tema de uma matéria realizada pelo site “Cultura e Mercado”, referência em políticas culturais (http://www.culturaemercado.com.br/crowdfunding/crowdfunding-une-geracoes-em-projeto-promovido-no-catarse/). A música gravada com Toquinho está no repertório do CD “Sabe Qual?”, lançado em outubro de 2012.

Como atriz, Ana Gilli mantém a valorização da cultura nacional, interpretando as cantoras Marília Batista e Araci de Almeida na peça musical “Noel, o Poeta da Vila e Seus Amores”, escrita por Plínio Marcos e com direção de Dagoberto Feliz, apresentada na cidade e no interior do estado de São Paulo em teatros e SESCs diversos.

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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Julio Cortázar, preciso.


Julio Cortázar, interferido por Mirdad

Trechos de Julio Cortázar, extraídos do livro Papéis Inesperados:

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Acho ridículo que um romancista tenha úlcera no estômago porque seus livros não são suficientemente famosos e organize minunciosas políticas de autopromoção para que os editores ou a crítica não o esqueçam; diante do que nos mostra a primeira página dos jornais quando acordamos diariamente, não será grotesco imaginar esses esperneios espamódicos visando a uma "duração" cada vez mais improvável frente a uma história em que os gostos e suas formas de expressão terão mudado vertiginosamente em pouco tempo?

Quando a Life me pergunta o que penso do futuro do romance, respondo que não dou a mínima; só o que importa é o futuro do homem.

O futuro dos meus livros ou dos livros alheios me é absolutamente indiferente; esse entesouramento tão ansioso me faz pensar nesses doidos que guardam suas aparas de unhas ou de cabelo; no terreno da literatura também é preciso acabar com o sentimento de propriedade privada, porque a literatura só pode servir para ser um bem comum.

Um escritor de verdade é aquele que tensiona o arco a fundo enquanto escreve e depois o pendura num prego e vai tomar vinho com os amigos. A flecha já está no ar, e se fincará ou não no alvo; só os imbecis podem pretender modificar sua trajetória ou correr atrás dela para dar-lhe empurrõezinhos suplementares rumo à eternidade e às edições internacionais.
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