quarta-feira, 28 de julho de 2010

Pílulas: Nem mesmo os passarinhos tristes, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Cosac & Naify - interferida por Mirdad)


"Disse que ia sair para comprar cigarros... E o fez mesmo. Voltou para casa e está dormindo" (pg. 98)

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"Sonhou que transava com três mulheres. Mais: que as satisfazia. Acordou, e nem a esposa estava ao seu lado" (pg. 134)

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"Foi somente quando se deu conta de que não podia mais ser pai e já não era mais filho que ele foi feliz" (pg. 12)

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"Por distração ou descuido, parado na esquina, o homem perdeu um dos lados do rosto na carroceria de um caminhão. Mas não há infelicidade que não se desmanche, em parte ou em todo: a esposa, em casa, pensou que ele fosse outro e o levou direto pra cama" (pg. 78)

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"Por vários dias admirou aquela modelo-viva na vitrine. Quando soube que não era viva, não deu a menor importância. Voltaria lá tantas quantas vezes quisesse sua lembrança" (pg. 66)

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"Aqueles que sentados no bar bebem não bebem porque querem. Bebem porque, colados às cadeiras coladas ao bar, nada lhes resta senão. São sempre os mesmos que vejo quando passo, ontem e hoje, na ida e a volta, e também nos dias posteriores. São sempre os mesmos, e eu o mesmo em movimento à margem deles – o que talvez não represente nenhuma vantagem, pois vou andando para o abraço da morte, tanto quanto eles que, parados, correm" (pg. 59)

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"Anos mais tarde, quando retornou – fatigado de sonhos, barba branca, ar cansado, dois filhos à frente, outro no braço, uma segunda mulher –, sua mãe, como um antigo retrato à parede, ainda o olhava como antes" (pg. 15)

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"Não, não queria ser a foto que ele guardaria na carteira... Nem aquela outra que ele poria, mais tarde, em sua mesa de trabalho... Menos ainda a de uma mulher grávida, de expressão fatigada e azeda (...) Melhor seria tomar um trago e dar um trepada" (pg. 76)

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"A mãe não é somente o lugar de onde se veio. É também para onde não se deve voltar" (pg. 52)


Mayrant Gallo
(Multifoco/2010)


"Vi um bêbado andando em volta de uma árvore.
Parei e perguntei por que fazia aquilo, por que rodava em volta da árvore. Queria ir para casa, disse, e se andasse reto daria voltas e voltas... Depois de um silêncio – ou de um afastamento decisivo – em que seus olhos por pouco não se fecharam, concluiu:
– E a não ir prefiro não ir" (pg. 10)

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"Quando a mãe do astronauta soviético Yuri Gagarin soube, por sua sobrinha, que o filho estava em órbita no espaço, olhou de lado para a distância e comentou: 'E Valentina sozinha em Moscou com duas crianças...'" (pg. 25)

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"No circo, às escondidas, o palhaço e a menina... Na vida, depois que ela cresce e se perde, nem ele se arrisca. Mas ela comparece ao cemitério – vestida" (pg. 33)

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"Mesmo em companhia de tantas pessoas, é sempre doloroso chegar ao parapeito de uma sacada. Lá embaixo, as verdades ferem. Pior ainda é olhar para cima e não perceber, no prédio em frente, à janela, a morte – disfarçada e pura" (pg. 61)

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"Depois da tempestade, vêm as crianças – que correm, brincam e pulam, olhos que são, literalmente, as últimas gotas de chuva" (pg. 64)

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"E o menino, ingênuo, pôs sua meia na janela, esquecido de que meses antes, quando se mudaram para aquele apartamento – no décimo-segundo andar –, o pai instalara telas em todas as janelas" (pg. 123)

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"'Se você pudesse voar, eu não existiria'.
O passarinho voou. Ele não" (pg. 86)

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"Era um casanova genuíno. Deixava-se um pouco em cada corpo.
Até que desapareceu de todo" (pg. 24)

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"(...) ninguém jamais está só, não verdadeiramente, embora todos estejam sozinhos – como pregos na parede" (pg. 46)

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Leia o texto "Carta aos passarinhos tristes", da professora, poetisa e editora Lidiane Nunes, aqui

quinta-feira, 22 de julho de 2010

segunda-feira, 19 de julho de 2010

domingo, 18 de julho de 2010

Mr. Hyde

foto: Suzanne Bouron


"Sem um objetivo pelo qual tenha de esforçar-se, nenhum homem pode viver.
Quando perdeu a sua finalidade e a sua ilusão, o homem transformou-se muitas vezes, com o aborrecimento, num monstro"

Fiódor Dostoiévski
- Memórias da Casa dos Mortos (1862) -

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quinta-feira, 15 de julho de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

Dia Mundial do Rock

interferência: Mirdad


Hoje é dia de relembrar as grandes referências:

Jimi Hendrix, Creedence Clearwater Revival,
Led Zeppelin, Elvis Presley, Pink Floyd,
Black Sabbath, Radiohead e Dire Straits.

Relembrei também dos bons tempos alaranjados...
Ano que vem, The Orange Poem faria 10 anos.

Mesmo aos trancos e barrancos de uma geração bufa-fria, longa vida ao rock, que reencontrará sua função primal: provocar.

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segunda-feira, 12 de julho de 2010

Lição

Frank Sinatra - My Way



"
And now the end is near
And so I face the final curtain
My friend, I'll say it clear
I'll state my case of which I'm certain

I did it my way

For what is a man, what has he got?
To say the things he truly feels
And not the words of one who kneels

I did it my way
"

Muito obrigado, Mr. Sinatra. Eu aprendi.

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domingo, 11 de julho de 2010

Minimico #02


Lendo Naquela Praia, de Marceleza de Castilho


Humana
Emmanuel Mirdad

Ela propagou a quem estivesse próximo que ele era o “amor de sua vida”. O tempo modificou as circunstâncias, naquele embalo de que com tudo o sempre acaba. E quando ainda faltava muito para a vida acabar, ela nem ao menos o atendia mais. Apagou, e recomeçou a propagar os demais amores, tal qual a coleção de contraditos e enganos. Humana.

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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Perambulando #13 - Messias

Lançamento de Messias - foto: Mirdad


Perambulando é uma seção deste blog destinada a expôr os vídeos que irei registrar nas andarilhadas por aí.

Ontem foi o show de lançamento do álbum triplo escrever-me, envelhecer-me, esquecer-me, do cantor e compositor baiano Messias. Acompanhado pela banda base formada por andré T (baixo, violão e programações), Jô Estrada (guitarra) e Mark Mesquita (bateria), Messias apresentou uma refinada seleção das 32 músicas que compõem sua trilogia. O show foi no Espaço Cultural da Barroquinha, ao lado do cinema Glauber Rocha, dentro de uma igreja reformada para espaço de eventos; muito bacana, por sinal, e histórico também - o rock é herege e não costuma freqüentar espaços sacros.


Messias - God If You Can Hear Me




Messias - The Machines are My Family




O público foi legal para uma quarta-feira à noite, chuvosa, com o show começando pra mais de 22h. Messias contou com os convidados Alex Pochat (cítara e trompete), Junix (guitarra), os hermanos da brincando de deus (Thiago - baixo, Cury - bateria, e César - guitarra), Joatan Nascimento (trompete) e Fernanda Monteiro (violoncelo), que proporcionaram o momento mais belo da noite, com a linda canção They Drug me Everyday, de Messias. A falha foi deste blogueiro que, com a bateria do celular arriada, não pode gravar o ápice do show, nem a participação da banda original do artista (brincando de deus) e o pulso mais rocker, com a participação do Junix (o vídeo abaixo com Offbeat cessa logo no início).


Messias - Avenida Contorno




Messias - Unread Books




Messias - Broadcast Your Escape




Messias - Offbeat (trecho)




Parabéns, meu caro Messias, por essa incrível empreitada de lançar um álbum triplo inteiramente do próprio bolso (inclusive esse belíssimo show de lançamento). Coragem e determinação extremamente louváveis!

Se quiser conhecer o escrever-me, envelhecer-me, envelhecer-me, faça download aqui, ou compre-o diretamente com o artista (o que é muito melhor), aqui.

Experimente ler um pouco mais sobre a trilogia do Messias, aqui, na visão letrada do caro Chico Castro Jr.

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