terça-feira, 30 de junho de 2015

O grito do mar na noite no portal G1 Bahia

O grito do mar na noite no site G1 Bahia de 30/06/2015


O lançamento do meu livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015) em destaque hoje, 30/06/2015, no portal de notícias G1 Bahiaem uma matéria massa da jornalista Tatiana Dourado. Leia aqui. O lançamento será hoje, terça-feira, dia 30/06, às 19h na Confraria do França, Info aqui.


O grito do mar na noite em destaque na capa do portal G1 Bahia de 30/06/2015

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Trechos dos contos



O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015) é o novo livro do escritor e produtor Emmanuel Mirdad, e traz dez contos, que tiveram alguns trechos selecionados para que o público pudesse ter uma noção do conteúdo da obra. Confira abaixo, na ordem de aparição no livro.




Um bisavô é abandonado pela filha e tem de viver em um asilo contra sua vontade, até que ele tem a chance de retribuir a covardia. Leia aqui






A história da cabocla Lourdes, a sanfoneira caolha, uma homenagem para a canção Assum preto, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga. Leia aqui






O opressor que é oprimido e o oprimido que pratica a opressão, que devoram e são devorados num ritmo cinematográfico de um farto banquete. Leia aqui






A saga de Pedro Henrique, um autodestrutível Casanova às avessas, que recebe uma série tragicômica de foras de mulheres. Leia aqui






Um menino sofre de câncer e é maltratado pela babá. Porém, se aqui, em vida, você faz, às vezes, com a vida, você paga. Leia aqui






A descartabilidade das relações afetivas e seus inúmeros desencontros. Leia aqui







Criança, jovem, velho. Todos estão se movendo ao irremediável encontro com o gume do fim. Leia aqui







Monique, a mulher que nunca gozou e não se importa. Leia aqui







A transformação de um putão bombado, que se encanta e deseja um travesti. Leia aqui







O livro de alguns dias escorrendo a vida formada por efemérides inúteis e a rotina ordinária. Leia aqui







Trechos do posfácio Pulsando como um coração imortal, de Mayrant Gallo. Leia aqui







Trechos da orelha Sobre pugilatos e capitulações, de Márcio Matos. Leia aqui








O grito do mar na noite no jornal Correio

O grito do mar na noite no jornal Correio de 29/06/2015


O lançamento do meu livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015) em destaque no jornal Correio de hoje, 29/06/2015, em uma matéria massa da jornalista Ana Paula Lima. O lançamento será amanhã, terça-feira, dia 30/06, às 19h na Confraria do França, Info aqui.


Versão digital da matéria

Origem do título O grito do mar na noite



Anagrama formado por títulos dos livros do escritor Hélio Pólvora (1928-2015): O grito da perdiz, Mar de Azov e Noites vivas, todos da coleção lançada pela Casarão do Verbo em 2013 - veja as Pílulas da coleção aqui. O livro O grito do mar na noite, de Emmanuel Mirdad, é dedicado ao mestre do conto. Release aqui.


O grito do mar na noite no traço do seu autor


domingo, 28 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Chá de boldo - Trechos do conto



Um bisavô é abandonado pela filha e tem de viver
em um asilo contra sua vontade, até que ele
tem a chance de retribuir a covardia.


“O velho tava sossegado. A filha pediu: ‘É tipo endoscopia, não posso ir sozinha, e ele não pode ir’. O marido, sempre imprestável, desses que remexem suas coisas porque você mora de favor na casa dele, arrumou um serviço de ontem pra hoje. E saiu antes do pão ficar pronto; da torradeira para o lixo – ninguém mais lidava com o glúten. O pai velho respondeu que sim, antes que a filha terminasse o pedido, desses que te amam com a disposição imediata, independente, sem custo, critério, condição.” (p. 12)


“O velho parou de ouvir. Deixou a assistente social, amparada pelo segurança desnecessário, falando sozinha e saiu sem rumo do hospital, sem fome, sem sede, sem a dignidade que possuía horas atrás, numa manhã que começou normal, como todas as outras nesses quase oitenta anos. Teve medo. Na carteira, documentos, pouco dinheiro, cartão do banco. Todos os irmãos e amigos mais próximos mortos – costuma contar vantagem que é o último, o sobrevivente. A sobrinhada e seus descendentes se disseminaram pelo norte, e nunca mais teve notícias ou uma mísera ligação. Por insistência do neto, embora a mulher dele não permitisse acolhê-lo, deixou o interior. A filha pareceu não se importar; sempre foi carrancuda, de mal com o simples, o comum. O normal é estar de mal com algo.” (p. 14 e 15)


“Uma vez por mês, uma violonista, já senhora, ia tocar para os velhinhos de um asilo privado. Não tinha objeção em tocar para os mais ricos; é mais comum encontrar rancor, traumas e tendências suicidas na riqueza. O abandono de quem teve ou ainda tem muitas posses costuma ser empreendido na ausência quase completa de amor – muitas vezes, um reflexo do que o velho rico praticou em sua vida estritamente dedicada ao trabalho, ao acúmulo de bens, ou à futilidade, distorcendo os vínculos com os filhos e netos a meras relações de consumo. A senhora também tocava no asilo público e servia a todos com igual entusiasmo. Era a sua terapia. Um fazer o bem por outro. Afeta-se que isso é incondicional, mas nunca o é.” (p. 15 e 16)





Trechos do conto Chá de boldo, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

sábado, 27 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Sol de abril - Trechos do conto



A história da cabocla pernambucana Lourdes,
a sanfoneira caolha, exímia instrumentista,
uma homenagem para a canção Assum preto,
de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga.


“A senhora, séria, reconhece o apelido como se fosse de batismo; parece que o tapa-olho, preto como o de um pirata de fábula, a cara fechada, de raras expressões e nenhum sorriso e a perda de um olho de forma trágica rendem uma aura de valentia e o espaço suficiente para ser respeitada como uma sobrevivente, quiçá temida. Sapiência? Quase como um bluesman da Louisiana, a sanfoneira deixou o tom maior, infantil e inócuo, para emocionar melodias em tom menor, a cor e a textura do idioma do coração. Instrumentaliza um forró em ré menor, mas é um blues, um lamento, sertanejo, sincronicamente ligado aos cânticos do banzo, da melancolia dos escravos, de qualquer tempo, raça e sofrimento.” (p. 23)


“Quase sempre abria o fole da sanfona com o sol. Talvez fosse uma mania, ou um gesto ingênuo – o breve escape, munido da delicadeza, a afrontar as asperezas da rua. Que fosse. Para Lourdes, a junção das notas sol, si e ré no acorde de sol maior representava a luz do teu sertão, lá no povoado de Caboclo, em Afrânio, extremo oeste de Pernambuco, divisa com o Piauí. Nordeste brasileiro, onde o pássaro assum preto, se estiver cego, canta de dor. Aquele pássaro preto, de tantos outros nomes, como graúna, arranca-milho ou chupão, o gnorimopsar chopi – o tio Chico, certa feita, chegou da estrada com um monte preso, de vez. Chamou a menina para lhe dar o melhor. Feliz, numa brincadeira de quintal com os primos, campou-se no espinho da cerca de quiabento: ela perdeu a vista de um olho, sem volta. Sem ver a luz pelo direito, Lourdes ficou macambúzia, mas não chorou pelo esquerdo. Na flor dos seus dez anos, com uma boniteza que chegava doer, surpreendeu a todos: ‘Só tein um agora; se chorá, pode estragá o ôto. Deus é mais!’” (p. 22 e 23)


“A fama da sanfoneira caolha correu o Nordeste profundo, no começo dos anos 1970. Tocava bem demais a moça. ‘Ô, sanfona arretada, sinhô!’ À parte dos empresários, que não quiseram investir numa estética troncha para a época – mulher com tapa-olho era vista como feiticeira, gente ruim, de mau agouro –, das rádios e dos grandes circuitos e festas, Lourdes fez muito show em tudo que é bodega, pardieiro mequetrefe, cafundó após cafundó, vida circense, rodando num pequeno caminhão pau de arara, com um agente xibungo, improvisado: seu tio Chico (...) Completando a equipe da turnê, um zabumbeiro esquálido e um triangueiro capenga. Uma caolha, um faquir e um cotó. Praticamente um circo dos horrores. Mas quando a bela cabocla abria o fole...” (p. 26 e 27)


“Uma noite, quando se arrumava para sair de Lajes, no Rio Grande do Norte, Lourdes ganhou um beijo que custou a sua virgindade, de boca. Bené, um marceneiro galanteador, bonito e forte, parou de dançar ainda na primeira música e ficou a cobiçar a cabocla formosa, de um olho só, o show inteiro. Bom de conversa e bem arrumado, ganhou o tio Chico num papo de parente de coronel, duas cervejas pro esquálido, que pagava de xereta, até se achegar na sanfoneira, ressabiada; o capenga, que jamais tinha voz, não incomodava. Divertiu-a muito, boas risadas, tirou do chão a vergonha da moça em olhar diretamente para um moço, ainda mais um charmoso que não ligava para a sua deficiência. Antes do pequeno caminhão partir, Bené segurou a mão de Lourdes, tirou o tapa-olho com a outra, e delicadamente beijou o olho direito, cego e fechado, demorando-se no carinho, um pouco. Ela abriu os dois olhos, um da cor de mel, outro da cor de nuvem, e abriu as pernas de seus lábios, pedindo. Ele a beijou. O romance aconteceu.” (p. 27 e 28)


“Vez ou outra, a pernambucana toca sanfona na principal praça de Canela. Não porque anseia público, mas sim pela admiração ao templo de Nossa Senhora de Lourdes. Católica por origem, deixou de ser praticante desde que enfrentou o infortúnio definidor de suas chagas vitalícias. Por isso não entra. E não rende conversa às cobranças eventuais da comunidade; sua eficiente cara fechada impõe respeito, até da guarda. Em dia de folga da lojinha, ajeita-se num dos bancos da praça e toca pela manhã inteira; nas pausas, espia a belíssima Catedral de Pedra, e os pensamentos a conduzem para longe, a recordar mais da metade da vida passada no calor, e a outra restante pousada no frio, astronauta desse destino torto que é a sincronia – compreensível apenas na linguagem do inefável.” (p. 24)





Trechos do conto Sol de abril, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


O grito do mar na noite no A Tarde online e no blog Rock Loco


Original daqui



Original daqui

Sobre o lançamento clique aqui

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O grito do mar na noite - O banquete - Trechos do conto



O opressor criminoso e o oprimido vítima. E o opressor
que é oprimido e o oprimido que pratica a opressão.
Encadeados, lésbica, negro, machista, velho, racista,
pobre, estrangeiro, nordestino, nazista, entre outros tipos urbanos que devoram e são devorados num ritmo cinematográfico de um farto banquete.


“Um homem corre. Um bando corre atrás, com pedaços de pau, soqueiras, canivetes e rojões. A camisa dele é de cores frias, diferente das cores quentes da turba uniforme. Ele tem um nome: Carlito Alarcón. Tem um rosto, preferências, trabalho. Parentes, mulher, amigos, mãe. É moreno, um chapaco da cidade de Tarija, sul da Bolívia. A massa, não; é apenas impulso, vômito, ação assassina. Sem rosto, sem indivíduos, inimputável – relativa e absurdamente pode até ser considerada mais vítima que a vítima que está sendo caçada, caso a análise parta de algum fascinado que presuma a onipresença de um opressor hipotético: o sistema (...) Um homem e seu erro: desgarrou-se da sua turba para telefonar. Individualizou-se. Tornou-se um alvo e só pode correr, desesperado. Encurralou-se, por não conhecer a área dos até então adversários; agora, inimigos. Enquanto os times começavam o embate no primeiro tempo, dentro do estádio ali próximo, a surra foi visceral, num beco, longe da interferência da polícia. (...) Milagrosamente alguém, do alto de um prédio no fundo de um beco, se comove e decide agir: atira em direção à massa, para salvar o boliviano. Um covarde sem face cai morto. Vítima? (...) Carlito agoniza, mas está vivo e salvo da humilhação final, graças ao desconhecido, que se tornou o seu herói. Um herói que mata. É herói quem mata? (...) A polícia, montada, chega no momento em que ninguém mais necessita, exceto o fotógrafo do jornal.” (p. 36 e 37)


“Dentro do carro, a sensação entre os três assassinos era de dever cumprido. Chacotas. O celular passou de mão em mão. Miseravelmente um deles apagou uma por uma as fotos da viagem que a gordinha fizera com a namorada para o litoral, como se pudesse excluir da existência a opção que tanto odiava. Como se fosse possível, apenas com o seu grave distúrbio mental e atitudes criminosas passíveis de punição, exterminar bilhões de seres humanos.” (p. 39 e 40)


“A senhora se ajeitou para descer num ponto e recebeu um pisão no dedo, acidental. Esquentada, esbravejou vários palavrões antes de olhar a cara do algoz. Quando viu que era um homem com feição e forma do clichê de um nordestino – cabeça grande e chata, pequeno, atarracado –, descarregou toda a sua frustração acumulada pela perda de poder num repertório bizarro de frases feitas, elitistas (...) E ela bateu todos os recordes de acúmulo de culpabilidades por segundo, enumerando uma porrada de misérias humanas na conta do êxodo, enquanto fazia seu lento percurso do ônibus para a rua. O homem, que era mesmo nordestino – de Catolé do Rocha, na Paraíba –, surpreendeu a todos, inclusive o motorista, filho de maranhenses, com a sua elegante calma; não revidou nem disse uma só palavra, escutando todas as bravatas em completo silêncio, inexpressivo. O seu carro estava na oficina, e a bela morena suburbana, com quem ia se encontrar logo mais, não pode esperar até terça-feira, intimando-o. Sereno. O único gesto foi coçar a ponta da pistola em sua cintura, só isso. Por um breve assovio na mente, pensou em matar. Ou prender. Preferiu o anonimato e aturou; tinha método: antes de cumprir um mandato, era preciso ter paciência” (p. 38 e 39)


“Possesso com a confusão, o âncora correu atrás, atirando contra o seu próprio carro. No cruzamento, uma viatura deixou o importado passar e fechou pra cima do atirador maluco. Por um acaso da sorte, o jornalista não levou bala de um dos policiais; a arma falhou, talvez por causa da chuva. Por ser negro e estar armado (em muitos casos, nem isso), é como se todos os seus direitos humanos fossem sumariamente cassados e ele pudesse ser imediatamente abatido – as estatísticas da violência expõem claramente a diferença de tratamento entre um branco, antecipadamente inocente, e um negro, imediatamente culpado. Foi algemado com força e enfiado no camburão, tomando vários tapas de ‘Cala boca, marginal!’, enquanto tentava se explicar quem era e que era famoso.” (p. 45 e 46)





Trechos do conto O banquete, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Receba - Trechos do conto



A saga de Pedro Henrique, um autodestrutível
Casanova às avessas, que recebe uma série tragicômica
de foras de mulheres, em fracassos e vergonhas dos
jogos de conquista e sedução barata.


“Domingo de Carnaval, único dia saindo em bloco, PH se perdeu dos sócios. Sozinho, preferiu ‘casar’ com alguma gatinha. Sintonizou com uma linda negra, elegante e esguia, pescoço nobre, tal qual uma rainha. Carioca, usava umas tranças coloridas e tinha um sorriso do tamanho do mundo (...) Casaram pelo trecho final do bloco, com muita dança, pulos, alegria, e PH de rei, com sua rainha e as princesas do Rio, todas babando com seu jeito engraçado, solto, feliz. Maravilha! (...) A segunda-feira de Carnaval passou, e o camarote foi um tédio. Os sócios reclamaram, e quando a gauchada voltou pra mais uma orgia, PH preferiu dormir trancado no quarto menor do apê. Macambúzio, adolescente tardio e apaixonado, orou diante do espelho: ‘Quero reencontrá-la, me ajuda, Senhor!’ (...) No dia seguinte, último do Carnaval, o acerto era curtir na pipoca. Os dois sócios estavam pendurados na corda de um bloco elitista pra pescar gatinhas ricas, mas só vinha tribufu se oferecer aos pipoqueiros. PH olhava perdido pra dentro do bloco, na esperança de encontrar sua bela imperial. E não é que o Senhor ouviu suas preces? Ele foi visto por uma das amigas cariocas, a mais gordinha, que celebrou o encontro com euforia e foi buscar a tão querida e desejada carioca. Lá no meio do bloco, as outras amigas ficaram emocionadas, pulando e apontando para onde estava o apaixonado da vez. Quando a gata imperial avistou de longe PH na pipoca, deu um tchauzinho e só. Ele se enfureceu, não entendendo porque ela não veio até a corda. Nem as amigas, que logo fecharam a cara ou se espalharam, fingindo pular e curtir o mais do mesmo da música eletrizada. Do amor ao ódio em segundos, PH revoltou-se e quase invadiu o bloco; foi contido pelos cordeiros. Berrava e balançava com força sua camisa regata: – É só de abadá, é?! É?! (...) A gata respondeu com um sorrisinho desdenhoso, à Mona Lisa, emoldurado com seus lábios do tamanho do mundo: – É. (...) #receba” (p. 62, 63 e 64)


“Pedro Henrique encerrou sua conta no Facebook. Soube que a sua ex tinha ficado noiva, foi fuçar a página dela e encontrou as fotos do noivado, todas devidamente publicadas em um álbum de livre acesso no seu perfil, tiradas em Bali, Indonésia, em mais uma viagem pelas praias paradisíacas do mundo, acompanhada pelo engenheiro bonitão e rico. Pra arrematar o alvoroço adolescente do ‘facecídio’ de PH, a gata paranaense, sua ex-estagiária e ex-paquera, atualizou seu status de relacionamento; passou de solteira para mulher do chefe (...) Não se deve brincar com o ressentimento da mulher. Bastaram poucos dias no cargo de primeira dama do maior escritório de advocacia do Estado, e PH passou a ser perseguido pelo chefe, escanteado até pelo Amaro, maltratado pelos clientes e descartado das principais reuniões. Ainda lascado psicologicamente pela ex, perdeu feio em dois processos importantes do escritório e foi demitido.” (p. 55 e 56)


“Pedro Henrique namorou uma moça bonita, doze anos mais nova que ele. No começo, ostentou a silhueta de carne dura e boca fechada da beldade, mas ela se cansou rapidamente da atuação em segundo plano e assumiu o controle, isolando PH dos amigos, recorrendo à birra insofismável. A inversão do domínio estreou na crueldade: o namorado teve de acompanhá-la a uma badalada festa – ou micareta – de verão em outro Estado, no raçudo esquema bate-e-volta em ônibus de excursão. Seis horas de viagem boiando em cachaça e esculhambação, todos enchendo a cara e paquerando adoidado, exceto o único casal no microespaço: Pedro Henrique e a sua dona encrenca. Três horas de festa – ou micareta – gastas apenas na função de pitbull-segurança, cravado num abraço por trás em sua namorada para que nenhum playboy pudesse sequer passar o dedo. Duas horas de mofo aguardando os quarenta e dois bêbados e bebaças aparecerem no local combinado pela excursão. Seis horas de estrada na madrugada, de volta ao Estado de todos os santos, motorista sem dormir, porque foi visitar a família durante a festa – ou micareta –, único ônibus na estrada insegura, banquete de vômitos e mijo batizando os pés. O irremediável não aconteceu, mas PH não encontrou seu carro no maldito ponto de desembarque, porque foi alterado de última hora sem qualquer explicação. Não havia responsáveis pela excursão, nem táxi por perto, mais celular descarregado e namorada de porre a base de cravinho e enjoo de sono. Teve de aceitar carona do pai bebum da amiga bebum de sua gatinha, que coincidentemente era o seu cliente mais insuportável, pior ainda de pileque de final de domingo. Sua namorada não sabia o motivo, mas PH parou de beber por recomendação médica e preferiu continuar sem mencionar o assunto, mal resolvido.” (p. 50 e 51)





Trechos do conto Receba, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.

O grito do mar na noite na rádio CBN Salvador


Ouça aqui a entrevista de Emmanuel Mirdad no programa CBN Bate-Papo de hoje, rádio CBN Salvador, divulgando o lançamento do livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015). Também segue disponível abaixo, via Youtube. Info sobre o lançamento aqui.











Post de divulgação aqui


Flyer de divulgação


Flyer de divulgação

O grito do mar na noite no jornal A Tarde

O grito do mar na noite no jornal A Tarde de 25/06/2015
Clique na imagem para ampliar.


O lançamento do meu livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015) em destaque no jornal A Tarde de hoje, 25/06/2015, em uma matéria massa do jornalista Chico Castro Jr. O lançamento será na próxima terça, dia 30/06, às 19h na Confraria do França, Info aqui.


O lançamento em destaque na capa do caderno 2+ do jornal A Tarde de 25/06/2015 


Versão digital da matéria - clique na imagem para ampliar




quarta-feira, 24 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Aqui se paga - Trechos do conto



Um menino sofre de câncer e é maltratado pela babá.
Porém, se aqui, em vida, você faz, às vezes, com a vida,
você paga. É o menor conto do livro.


“O pequenino tem os cabelos ralados pela quimioterapia agressiva, e a cabecinha começa a doer muito na escada rolante de um shopping. Chora silenciosamente, sente a dor aguda, mas as lágrimas, quando escorrem, costumam agredir a quase microscópica e incipiente paciência do intolerante. A babá vocifera cuidadosamente ao ouvido do pequenino, com os maquiavélicos bons modos de quem não desperta a curiosa atenção alheia: – Se você chorar, te levo ali na farmácia pra tomar injeção. Não chore! Quer tomar injeção?!” (p. 70)


“A dor era tão forte, que o pequenino nem conseguia gemer, só escorrer lágrimas e contrações no rosto, e a mãozinha esquerda roçando o cocuruto ralo de fios como numa prece pelo fim da dor aguda, certeira e impiedosa. E, ao ouvir a palavra injeção, o terror disparou a mãozinha a enxugar freneticamente as lágrimas, o que só fazia jorrar mais e mais. Dessa vez, a sutileza deu lugar a um tranco, sacudido: – Você tá teimando, é? Vai agora mesmo tomar injeção! Vai parar ou não?!” (p. 70)






Trechos do conto Aqui se paga, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


terça-feira, 23 de junho de 2015

O grito do mar na noite - No palheiro - Trechos do conto



A descartabilidade das relações afetivas
e seus inúmeros desencontros.


“Carnaval de Salvador, Bahia, fevereiro de 2010. Fernando, carioca, estava de abadá, dentro do bloco, segmentado pelas cordas, atrás do trio, no asfalto da Avenida Oceânica. Carine, soteropolitana, estava de camisa colorida e salto alto, dentro de uma estrutura confortável, à frente da grade, rodeada por gente ‘diferenciada’, no alto do camarote. Quando ele a viu, sumiu dos amigos e das rodinhas de xibiatagem. Quando ela o viu, já tinha sumido do seu companheiro de enfeite e das amigas previsíveis. A ponte foi construída no exato instante em que ambos se entreolharam em magnetismo não-aleatório (...) Ele fixou o olhar. Ela desviou, mas voltou e desviou umas três vezes, até fixá-lo definitivamente. O tempo não parou, mas foi como se. E o sorriso veio cúmplice, só de boca, sem dentes. Ali e assim, compartilharam a longínqua possibilidade de um grande amor, de filhos, família, viagens e aquele maravilhoso pacote de felicidade a dois, que a comédia romântica já tanto explorou e delegou ao limbo dos clichês imperdoáveis (...) O bloco seguiu o caminho da massa, e Fernando foi junto, na confusão alegre da diversão escancarada, amparado nos abraços e garganteios dos amigos cariocas sarados a bater recordes de pegação. O camarote continuou onde fixamente se sustenta; Carine suspirou a inércia e se voltou ao mundo confortável e corretinho, sorrindo amarelo ao namorado Gusmão e dizendo amenidades às amigas, em tom anasalado.” (p. 74)


“Aproveitando o descanso das horas ‘túmulo-sofá’ do marido de férias em casa, a esposa se trancou no quarto do casal. Quatro mensagens de número desconhecido no celular e uma da filha única, Carine, que voltara do Rio, curada de uma ressaca de fim de namoro. Ansiosa, telefonou para o número estrategicamente não reconhecido pela agenda (...) – Venha. A gente se encontra no estacionamento do Bompreço. Seja rápido, porque só temos duas horas e eu ainda tenho que comprar coentro.” (p. 76)


“Foi a primeira vez que Gusmão se apaixonou. Ela era explicitamente uma piriguete, mignon, siliconada, toda carne pra fora de um vestido curtíssimo em fiapos, fervendo com as amigas no Twist Pub, no Rio Vermelho. E ele fixou a voz suave, sem vícios e sussurrada; o sorriso simétrico, alvo e frágil; o olhar limpo, ingênuo e quase infantil. Foi a primeira vez que um homem a olhou assim. Chocou-se, desnudada pela possibilidade de ser uma pessoa e não um corpo. Ela lhe deu com naturalidade seu número de celular, após beijos quimicamente atiçados, e a primeira saída foi um passeio dominical de cinema e sorveteria. Michelle quis uma bola de sorvete de cajá no copinho e quase chorou, boba, ao deleitar-se com o inédito primeiro homem que trocou a sua bunda magnífica pela cara típica de uma baiana comum, redonda.” (p. 76)





Trechos do conto No palheiro, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.


Carlos Barbosa comenta sobre O grito do mar na noite



Leia aqui


Dez passagens de Dino Buzzati no livro Naquele exato momento

Dino Buzzati (foto daqui)


"É paradisíaca a escadaria de onde se assiste ao triunfo do Eterno."


"E sobre a morte, você não diz nada? Não cogitou dela? Ela continua a subir dentro de você. Ainda que em todo o seu corpo não houvesse nem uma célula gasta, da mesma forma ela avançaria. Desde o dia em que você nasceu, está subindo milímetro por milímetro (...) Você não pensa nisso, é verdade, por enquanto esqueceu completamente, mas quando parece que lhe falta somente um sopro, uma distância imperceptível, menos de um passo, para ser feliz, aí você tropeça e não avança nem consegue saber por quê, esse intervalo infinitesimal é sempre ela, a morte, e você pode fugir pelos oceanos e pelos montes, você a trará sempre dentro de si mesmo e, odiando-a mais do que qualquer outra coisa, a nutrirá de si próprio dia e noite: nunca houve mãe tão dedicada ao filho."


"As páginas da vida, quero dizer, as horas, os dias astronômicos e os meses, sem necessidade de estúpidas metáforas, se sucedem com grande rapidez (...) Caminham lentamente, como grandes senhores. Mas nunca param, os malditos, não dão nem um segundo de descanso, em vão corremos na frente, preparamos, planejamos, cálculos, projetos. Somos homens, ai de mim, e de vez em quando devemos parar. Paramos e adormecemos. Mas assim, enquanto estamos parados à beira da estrada, sonhando com estranhas coisas, as horas, os dias, meses e anos nos alcançam, um por um, com sua abominável lentidão nos ultrapassam, perdem-se no fim da estrada. Depois, pela manhã, notamos que ficamos para trás, começamos a perseguição (...) Queremos dizer simplesmente que, neste exato momento, acaba a juventude."


"(...) Nenhuma sociedade, de fato, é tão baixa e desonrosa como a que repele os velhos para as margens da estrada, humilha-os e esquece-os, dizendo-lhes com pobres palavras: - Viveram suficientemente, agora fora! (...) Nenhuma sociedade é tão ignóbil como a nossa (...) onde aos velhos se deixa mais ou menos o lixo e se acha graça (...) E então os vemos pela rua, olhando ao redor, tímidos, pedindo desculpas por ainda estarem aqui (...) As crianças têm a infinita vantagem de terem sido postas no mundo por vocês, vocês têm o crédito, enquanto os velhos carregam o erro imperdoável de terem consumido a vida por vocês, para vocês tudo, trabalho, sacrifícios, amor, na melancólica ilusão de que um dia vocês lhes restituiriam um pouco daquele bem. Pior ainda: carregam o erro de não lembrar mais a infinita conta que lhes poderiam apresentar: e aqueles olhares humildes, cansados e submissos os cortam mais do que um remorso."


"É possível que há pouco, no refúgio, antes de partir, deitado na enxerga, ele tenha devaneado longamente sobre o esquálido amanhã (...) Talvez se tenha visto andar de um lado para outro, oferecendo seus trabalhos literários ou musicais, que provavelmente precisavam de tempos mais fáceis e calmos, propensos à arte, precisavam de gente refinada; ou talvez se tenha visto bater às portas dos jornais, dos editores, dos teatros, dos velhos amigos que têm outras coisas na cabeça, dos amigos distraídos e egoístas como eu. Talvez tenha percebido este melancólico entardecer de uma tarde que nem existiu. E ao redor, o alvoroço de um mundo ávido e estrangeiro que não sabia o que fazer dele (...) – Zapparoli, Zapparoli! – gritamos, usando as mãos como porta-voz, às geleiras que não respondem; – Zapparoli, por que não volta?"


"Deixou o guichê com o certificado na mão. Estranho. Agora que o conseguira, não lhe dava mais nenhum valor. Rodeando com passos rápidos a sua fila, percebeu, com vergonha, seus semelhantes pregados ainda na espera; eram idênticos a ele meia hora antes: rostos ansiosos, tensos no estupor da inutilidade e do egoísmo, com olhares de inveja e de ódio voltados para ele, toda aquela preocupação miserável, aquele desejo, aquele fanático amor por si mesmos."


Dino Buzzati (foto daqui)


"O mais importante está lá atrás, no fundo das casas onde estagna o cheiro dos corpos nus. De lá saem as grandes descobertas, os vícios, os filhos, as ideias que fazem avançar o mundo, a morte. Misteriosos esconderijos do homem: são também a grande maravilha da vida, o que torna as pessoas suportáveis. Como poderíamos continuar, mesmo por um dia, se deles soubéssemos tudo?"


"(...) nos espelhos olha-nos um rosto ao mesmo tempo velhíssimo e novo, que conhecemos, ai de mim, bem demais; porém, nunca nos aparecera tão pálido, sarcástico e, em seu conjunto, desolado. E do silêncio profundo, sobre o pálido eco do tango, o murmúrio da água, escorrendo dos grandes mictórios de maiólica, fala-nos, traiçoeiramente, com acento humilde e amigo, lembrando-nos bondosamente as misérias do homem e as esperanças perdidas (...) Escapa-nos o domínio do mundo e, revolvendo sempre a voz dos mictórios em nossos amargos pensamentos, sacudimos a cabeça para ver o outro, aquele rosto néscio, no espelho, que nos faz um sinal negativo."


"Muita gente, ao cumprimentar um artista, faz essa maldade: a de louvar não suas obras recentes, que são realmente suas, mas trabalhos velhíssimos, cujo verdadeiro autor não existe mais. Porque o eu de vinte anos atrás é para mim um estranho, com o qual tenho muito pouca coisa em comum. E se escreveu alguma coisa realmente boa, tenho quase raiva. O eu a quem quero bem é o de hoje, no máximo o de ontem, de anteontem. Mais longe, é um estrangeiro desconhecido cujos méritos me são indiferentes."


"Uma praça imensa, portanto, tendo ao redor uma infinidade de casas, esta é a vida; e, no centro, os homens que negociam entre si e nunca alguém consegue conhecer as outras casas; somente a sua e, mesmo esta, geralmente mal, porque permanecem muitos ângulos escuros e às vezes quartos inteiros que o dono não tem paciência ou coragem de explorar. E a verdade se encontra somente nas casas e não fora delas. De maneira que, do resto do gênero humano, nunca se sabe nada."





Presente no livro Naquele exato momento (Nova Fronteira/2004), páginas 56, 59-60, 70-71, 212-213, 187, 255, 97, 134, 271 e 150, respectivamente,
na tradução de Fulvia M. L. Moretto.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Não escaparás - Trechos do conto



Criança, jovem, velho. Todos estão se movendo
ao irremediável encontro com o gume do fim.


“Dois amigos velhos e viúvos passeiam na rede mundial, cada qual com o avatar que menos se associa à carne que naturalmente os comporta, deteriorados pelo tempo. O interregno é breve, via gtalk (...) – Não há o que fazer. O que faço, então? (...) – Respire (...) – Tomei metade. Preciso da outra metade. Eu sou um covarde corajoso. Ou um corajoso covarde? (...) – Não faça (...) O que tomou os comprimidos minimiza a tela, para buscar a música My way, na voz de A Voz. O software é novo, não consegue encontrar. Mesmo com a demora, continua o silêncio. Maximiza: – Não há nada além de mim aqui. Estou só, e mal acompanhado de mim mesmo (...) – Faça (...) – É impossível” (p. 83 e 84)


“O menino estalou sua pequena coluna em formação e se cansou de ficar sentado em frente a centenas de amiguinhos virtuais. Apagou o monitor e ricocheteou pela casa, sem encontrar nada que pudesse aplacar a tão bem firmada ansiedade pós-moderna de agora. O tédio veio forte, e ele se atirou no sofá, folheando o porta-retratos digital de mais de mil fotos. Passando a esmo, sem passar o tempo, parou numa. Era o pai, com sua idade, rodeado de uma muvuca de moleques descalços e lotados de barro, unidos e sorridentes do baba recém-batido (...) – Que tosco! – riu. (...) Pela janela dos fundos, avistou a grande área verde que diferenciava o condomínio dos demais. Deserta, como sempre. Pensou em descer e só passear, para passar o tempo. Só pensou e rapidamente voltou a atenção para outra coisa. No quarto, de novo, acendeu o monitor (...) – :( ” (p. 82 e 83)


“Ela acendeu um baseado e prendeu os longos cabelos pela última vez; não havia ninguém para decifrar os sussurros que sempre escapavam. Da sala, ouvia o CD promocional de uma banda de reggae hypada, mas já estava cheia de soldados norte-americanos. Tinha coragem e muito cabelo, mas nunca foi rasta por lhe faltar fé (...) Terminou o baseado muito lentamente, acendendo-o diversas vezes, sempre com aquele movimento sinuoso que era só seu. De tacar fogo sabia, desde pequena, a queimar pontas dos cabelos das outras gurias. E ficava olhando a chama fixamente, bailando suas pupilas no inferno paralelo que tanto lhe sugeria a salvação (...) Tacou no próprio. Tacava e apagava, pelas pontinhas. E não se incomodou com o fedor de palha queimada; subiu mais rápido que a prudência e virou imolação. Girou as chamas como uma mula sem cabeça à frente do espelho e finalmente berrou a dor que vinha de dentro. Tacou a cabeça com tudo na privada. E, cravejada de tufos chamuscados, foi para a tesoura e gilete. Rapou, cada pedacinho, tirando umas lascas do cocuruto (...) Ficou uma linda Joãozinho. Asseada depois pelo iodado, preparou e acendeu um novo baseado, sozinha, na sala. Pensou nos irmãos; era Natal, e estavam todos no norte.” (p. 82)





Trechos do conto Não escaparás, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.




domingo, 21 de junho de 2015

O grito do mar na noite - Assexuada - Trechos do conto



Monique, a mulher que nunca gozou e não se importa.


“Monique não era virgem. Teve alguns namoros, de curta duração, até quando estourava o saco de transar por ficção – às vezes nem isso. O melhor namorado dessa época foi um gay não assumido que também precisava do disfarce, embora não soubesse – nunca soube – da real situação da assexuada; achava que era frígida e só. Engano. Monique não era frígida. Para ser, é preciso querer sentir, mas não sente e até cansa de tentar, negando o ato sexual. Mas teve vontade. E muitas vezes continua, amortecida, a frustração. Latente. A frígida é sempre uma mulher que quis ou quer sentir prazer, mas não consegue. A assexuada é diferente; nunca sentirá prazer, porque não quer, não se interessa por sexo, não tem necessidade (...) Três meses, e ele conseguiu o que ninguém tinha feito em mais de vinte anos de falsa vida relacional. De repente, pimba! Monique ficou propensa ao amor, despertar tardio (...) Três meses após o cineminha, e o primeiro beijo, o primeiro e inesquecível ‘eu te amo’, dito de sua própria vontade – tudo bem que foi um ‘eu também’, mas está implícito! Pronto! (...) O assexuado é um ser que pode amar sim, que vibra, se apaixona e quer o bem do ser amado, e quer e dá carinho, se diverte, sintoniza-se, gruda em chamego e apertos, mas só não tem nenhum interesse em trepar (...) Como assim? É possível amar sem transar?” (p. 97, 98 e 99)


“Desconcentrada, parou. Foi longe, lá na adolescência. Quando as amigas despertaram para o sexo, ela não. Ouviu de uma coleguinha sardenta, que parecia o Dennis, o pimentinha, que a mão na xoxota dava maior onda – mais gostoso que chocolate, pode? Pois tocou a sua até doer e nada sentiu. Tentou muitas vezes. Por dias. Nada. Desistiu. Pediu ajuda até para a coleguinha, que fez com gosto e curtiu só, descendo na onda até a praia. Monique, nada. E, no círculo das confidências, ao se entregar revelando que não sentia nada, virou piada, esculhambação perigosa. Conseguiu reverter a situação, alegando que era uma brincadeira – a sardenta se mudou semanas depois, por sorte –, e nunca mais parou de mentir. Aparentar ser normal passou a ser uma obsessão, psicótica, mantida a qualquer custo. Tentar se compreender e se respeitar nem foi cogitado; é preciso o padrão avassalador da invisibilidade do ser comum.” (p. 93 e 94)


“Pois não há parafilia comparável, nem distorção e desvio de conduta mais agressivos, do que um ser se afirmar perante a sociedade como assexuado. É imediatamente censurado com o maior escárnio possível, tachado de um ser improvável, alienígena, desprovido de sentimentos, gana, paixão e atitudes nobres relacionadas à emoção (...) É impossível estabelecer relações e vivenciar o amor sem sexo? Talvez sim, caso o outro também seja assexuado – mas como encontrá-los, se o mais fácil é esconder e aplicar uma vida virtual, como muitos experimentam nos meios digitais? Mas há opções, como relações sexuais consentidas com profissionais, para suprir a necessidade do parceiro sexuado, entre outras possibilidades. Pelo amor, adapta-se a tudo?” (p. 92 e 93)


“Suíte com mezanino, odor acre de desinfetante chinfrim, preliminares extensas, dedicação minuciosa. Ele a desnudou feito um colecionador de pedaços femininos; para cada parte, um beijo, uma carícia, uma lambida, uma dedicação exclusiva. E ela, tal qual uma lagartixa morta, ficou inerte. Há anos que não praticava a farsa das reboladas, caras e bocas. Esqueceu tudo, eficientemente. E bateu um nervoso extremo, de não poder satisfazer o seu amante, que, somado à natural vergonha do nu pela primeira vez – momento crucial em que o amor já estabelecido acolhe as imperfeições com ternura e aceita o corpo do outro como seu lar e parque de diversões –, travou-a por completo. Simbolicamente mais dura que ele, em silêncio, imóvel e seca. Ele, que começou como um bom amante, foi se reduzindo aos poucos e deixou que a realidade do macho acuado aflorasse, enfiando-se à força na amada – coisas de menino mimado e criado por mãe machista. Afobado, estocou forte, menos de cinco vezes. Gozou sozinho, frouxo, covarde. Eis que o tal especialista dedicado ficou nu: era nada mais que um pixote ejaculador. Mais um homem, com sua desgraça tão comum.” (p. 100 e 101)


“O escritório da LPZVK & Motta Andrade Martins Associados passou por uma reforma recentemente. Contrariando a sina comum na cidade, ficou um serviço bem feito, justo ao preço pago. Com menos paredes e divisórias, arquivos e salas fechadas, inaugurou a modernidade do ‘parece um galpão’ em seu amplo espaço, clean, asseado, branco e envidraçado. Mas, hoje, contrariando a lógica do trabalho, estava quase vazio; era mais um dos feriados não oficiais, legítimo, de acordo com as tradições baianas: Lavagem do Senhor do Bonfim. Assim como no dia de Iemanjá, por maciça e quase unânime decisão dos sócios – baianos ou amasiados da malemolência –, decretou-se ponto facultativo. E Monique facultou-se a ir trabalhar, coerente (...) É um dia diferente mesmo. Na bolsa, o caderninho, que nunca saía de casa, escondido dentro do armário. Ela e mais dois ou três no escritório. Telefone estranhamente silencioso também – a Bahia para na primeira oportunidade que tem.” (p. 96 e 97)





Trechos do conto Assexuada, presente no livro
O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015),
de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.