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O grito do mar na noite - Trechos do posfácio de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo - Foto: Ricardo Prado


“Emmanuel Mirdad não pretendeu, por sua própria vocação e escolhas estéticas, apenas contar histórias neste volume. E consegue um feito altamente elogiável: trabalhar com tipos, sem meramente repeti-los, revitalizando-os, inclusive. Acompanhamos, com igual interesse, tanto o infortúnio do homem de terceira idade, do menino doente, do sujeito infeliz em seus relacionamentos amorosos, da mulher assexuada, quanto o dos mulherengos contemporâneos, que agem in situ e ‘in sites’. Aliás, os signos da contemporaneidade sobejam em todo o volume, numa evidência explícita à vida que levamos, em meio a uma multiplicação infindável de ícones da propaganda, internet, dos aparelhos de celulares, tablets, games, canais de tevê por assinatura etc. Num instante, estamos aqui; noutro, em Berlim. Tal condição nos leva a uma existência sem duração nem permanência, em que os sentidos, estimulados a todo instante, não se detêm em nada. Estão em constante movimento, em constante permuta de preferências e escolhas, em constante mutação.”


“Conhecedor e usuário deste mundo ‘suprafísico’, rarefeito a extremo, Mirdad projetou seus contos como se desejasse – e isso é um julgamento meu, bem pessoal, e que em nada depõe contra o autor e seus leitores –, ao mesmo tempo, reproduzi-lo e ironizá-lo. Não foi o primeiro a fazer isso, nem será o último. O que importa é o que ele obteve, tanto para o deleite quanto para o mal-estar do leitor, afinal de contas o ‘efeito de estranhamento’, se nem sempre é bem recebido (Alain Resnais é a prova, com seu Ano passado em Marienbad), contribui e muito para a perpetuação e propagação da obra de arte. E não se pode deixar de lado o método do autor, que, a exemplo de Poe no conto e de Baudelaire na poesia, busca estruturar sua narrativa no intento de, ao fim, surpreender ou socar tanto seus leitores quanto seus personagens.”


“Cada conto de Mirdad aqui é uma nova proposta extraída de um propósito único: retratar o nosso mundo. Cada conto é uma fotografia de um álbum espúrio. E ele o constrói com tamanho êxito, que chego a temer que, por isso, seu livro acabe rotulado. Mas acho que não, pelo contrário: se no futuro, alguém necessitar saber como era a vida neste início de século XXI, espécie de Belle Époque de la Technologie, deverá forçosamente ir aos documentos, entre os quais a literatura é um dos mais poderosos, por sua singularidade autoral, e, encontrando O grito do mar na noite, achará a própria vida daquela ‘nossa presente época’, pulsando como um coração imortal.”


“(...) a tarefa do contista é árdua: requer talento, vontade, imaginação, leituras, habilidade com as palavras e constante deslocamento de ponto de vista; ser muitos em um só. Não menos árdua é a condição do leitor de contos, ainda que ele pretenda tão somente se divertir: a cada relato terá que se situar num novo mundo e estilo; é como se lesse vários romances concentrados ao extremo. Jorge Luis Borges costumava dizer que, se imaginasse a trama de um romance, preferia, a escrevê-lo, perpetrar um conto sobre um hipotético autor, numa época remota e num país mítico, que o tivesse escrito e discorrer sobre as implicações que a existência de tal livro acarretasse. Concordemos que, ao pensar assim, Borges elegeu o conto como o gênero de sua preferência, declarou-se contista e se privou, de antemão, da hercúlea empresa que é redigir um romance.”




O escritor e revisor Mayrant Gallo, autor dos livros O inédito de Kafka e O gol esquecido, entre outros, escreveu o posfácio Pulsando como um coração imortal para o livro de contos O grito do mar na noite (Via Litterarum/2015), de Emmanuel Mirdad, que será lançado aqui.



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