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Cinco passagens de Dino Buzzati no livro As noites difíceis

Dino Buzzati (foto daqui


"O homem é, na realidade, uma imprevista anomalia no curso do processo evolutivo da vida, não o resultado ao qual a evolução devia necessariamente chegar. De fato, é concebível que a oficina da natureza tenha posto deliberadamente em circulação um animal ao mesmo tempo fraco, inteligentíssimo e mortal, isto é, inevitavelmente infeliz? Foi uma espécie de erro, um acaso quase inverossímil que racionalmente não tem motivo para se repetir em nenhum planeta – existem talvez bilhões de bilhões de bilhões – que apresentem condições ambientais iguais às da Terra."


"(...) o pior, quando se morre, é ir embora sozinho. Se partimos todos juntos, e aqui não fica mais ninguém, não digo que seja uma festa, mas quase. Que medo se pode ter quando a sorte é comum? (...) como é bom ver abolida de repente a escandalosa superioridade de quem tem o único mérito de ter nascido depois de nós. E que belíssima lição para certos patifes que lutam dia e noite para avançar como búfalos para uma lira a mais no cofrezinho, por um degrau a mais de poder, por um aplauso a mais, por uma mulher a mais, por uma trapaça a mais e que já planejaram seus sucessos por uma horrível quantidade anos futuros. Que sacrossanta ducha para tantos jovenzinhos que se julgam os donos absolutos do mundo, da inteligência, do justo e do belo e olham para nós, velhos, como baratas petrefactas, como se fossem viver eternamente, que magnífica surpresa, todos carregados como um sopro no mesmo carro negro fúnebre e lá, de ponta-cabeça, nas cataratas do nada (...) 'Oh sim, venha, bendito asteroide, não erre o caminho (...)'"


"(...) A morte física é um fenômeno eterno e, afinal de contas, excessivamente banal. Mas há outra morte, que algumas vezes é até pior. O desmoronamento da personalidade, o hábito mimético, a capitulação ao ambiente, a renúncia a si mesmo... Olhe ao seu redor. Fale com as pessoas. Não percebe que estão mortas, pelo menos 60%? E a cada ano cresce esse número. Apagadas, niveladas, submissas. Todos desejam a mesma coisa, dizem as mesmas coisas, todos pensam as mesmas e idênticas coisas. Nojenta civilização de massa (...) Há hoje nações imensas, todas feitas de pessoas mortas. Centenas de milhões de cadáveres. E trabalham, constroem, inventam, criam terríveis ocupações, estão felizes e contentes. Mas são uns pobres mortos."


"(...) O que é desagradável num hospital? A doença, talvez? Não. O que é desagradável é ver todos os outros, que não estão doentes. Quando chega a noite, nós condenados, para a cama, e os médicos, as enfermeiras, os assistentes etc. vão embora como passarinhos pela cidade, para casa, para a casa de amigos, para o restaurante, o cinema, o teatro, o amor. E isso deprime terrivelmente, creia, nos faz sentir diminuídos, influi de forma decisiva no processo. Ao contrário, se a gente está moribundo e os outros já estão todos mortos, a gente se sente um imperador. E aqui, exatamente, realizamos o milagre. Em primeiro lugar, nenhuma visita de parentes e de amigos, para evitar comparações desagradáveis. E depois, depois... médicos, assistentes, cirurgiões, anestesistas, enfermeiras etc., todos gravemente doentes. Ao fazer a comparação, os doentes sentem-se donos, sentem-se sãos. Sentem-se? Tornam-se sãos. Às vezes curam-se sem nem precisar de uma pílula."


"Embora nunca o tenha dito a ninguém, minha mulher, meus filhos e os médicos percebem claramente o que estou pensando e se esforçam de todas as maneiras para me tranquilizar. Riem, brincam, falam de coisas agradáveis e frívolas, fazem projetos a longo prazo (...) Minha cura completa está sendo descontada a partir do ponto de partida. Em dez dias, no máximo, estarei de novo em casa; em vinte, estarei ótimo como antes (...) Contudo, quanto mais se demonstra despreocupação e alegria ao meu redor, tanto mais me convenço de que tenho razão (...) a alegria e a serenidade que se dispensa ao doente na véspera das operações são, em geral, diretamente proporcionais ao perigo. É sobretudo quando os médicos asseguram, sorrindo, que não existe nenhum perigo, que mais devemos ficar alerta."





Presente no livro As noites difíceis (Nova Fronteira/2004), páginas 164, 252-253, 171-172, 259 e 249-250, respectivamente, na tradução de Fulvia M. L. Moretto.




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