quarta-feira, 10 de junho de 2015

Cinco passagens de Dino Buzzati no livro As noites difíceis

Dino Buzzati (foto daqui


"O homem é, na realidade, uma imprevista anomalia no curso do processo evolutivo da vida, não o resultado ao qual a evolução devia necessariamente chegar. De fato, é concebível que a oficina da natureza tenha posto deliberadamente em circulação um animal ao mesmo tempo fraco, inteligentíssimo e mortal, isto é, inevitavelmente infeliz? Foi uma espécie de erro, um acaso quase inverossímil que racionalmente não tem motivo para se repetir em nenhum planeta – existem talvez bilhões de bilhões de bilhões – que apresentem condições ambientais iguais às da Terra."


"(...) o pior, quando se morre, é ir embora sozinho. Se partimos todos juntos, e aqui não fica mais ninguém, não digo que seja uma festa, mas quase. Que medo se pode ter quando a sorte é comum? (...) como é bom ver abolida de repente a escandalosa superioridade de quem tem o único mérito de ter nascido depois de nós. E que belíssima lição para certos patifes que lutam dia e noite para avançar como búfalos para uma lira a mais no cofrezinho, por um degrau a mais de poder, por um aplauso a mais, por uma mulher a mais, por uma trapaça a mais e que já planejaram seus sucessos por uma horrível quantidade anos futuros. Que sacrossanta ducha para tantos jovenzinhos que se julgam os donos absolutos do mundo, da inteligência, do justo e do belo e olham para nós, velhos, como baratas petrefactas, como se fossem viver eternamente, que magnífica surpresa, todos carregados como um sopro no mesmo carro negro fúnebre e lá, de ponta-cabeça, nas cataratas do nada (...) 'Oh sim, venha, bendito asteroide, não erre o caminho (...)'"


"(...) A morte física é um fenômeno eterno e, afinal de contas, excessivamente banal. Mas há outra morte, que algumas vezes é até pior. O desmoronamento da personalidade, o hábito mimético, a capitulação ao ambiente, a renúncia a si mesmo... Olhe ao seu redor. Fale com as pessoas. Não percebe que estão mortas, pelo menos 60%? E a cada ano cresce esse número. Apagadas, niveladas, submissas. Todos desejam a mesma coisa, dizem as mesmas coisas, todos pensam as mesmas e idênticas coisas. Nojenta civilização de massa (...) Há hoje nações imensas, todas feitas de pessoas mortas. Centenas de milhões de cadáveres. E trabalham, constroem, inventam, criam terríveis ocupações, estão felizes e contentes. Mas são uns pobres mortos."


"(...) O que é desagradável num hospital? A doença, talvez? Não. O que é desagradável é ver todos os outros, que não estão doentes. Quando chega a noite, nós condenados, para a cama, e os médicos, as enfermeiras, os assistentes etc. vão embora como passarinhos pela cidade, para casa, para a casa de amigos, para o restaurante, o cinema, o teatro, o amor. E isso deprime terrivelmente, creia, nos faz sentir diminuídos, influi de forma decisiva no processo. Ao contrário, se a gente está moribundo e os outros já estão todos mortos, a gente se sente um imperador. E aqui, exatamente, realizamos o milagre. Em primeiro lugar, nenhuma visita de parentes e de amigos, para evitar comparações desagradáveis. E depois, depois... médicos, assistentes, cirurgiões, anestesistas, enfermeiras etc., todos gravemente doentes. Ao fazer a comparação, os doentes sentem-se donos, sentem-se sãos. Sentem-se? Tornam-se sãos. Às vezes curam-se sem nem precisar de uma pílula."


"Embora nunca o tenha dito a ninguém, minha mulher, meus filhos e os médicos percebem claramente o que estou pensando e se esforçam de todas as maneiras para me tranquilizar. Riem, brincam, falam de coisas agradáveis e frívolas, fazem projetos a longo prazo (...) Minha cura completa está sendo descontada a partir do ponto de partida. Em dez dias, no máximo, estarei de novo em casa; em vinte, estarei ótimo como antes (...) Contudo, quanto mais se demonstra despreocupação e alegria ao meu redor, tanto mais me convenço de que tenho razão (...) a alegria e a serenidade que se dispensa ao doente na véspera das operações são, em geral, diretamente proporcionais ao perigo. É sobretudo quando os médicos asseguram, sorrindo, que não existe nenhum perigo, que mais devemos ficar alerta."





Presente no livro As noites difíceis (Nova Fronteira/2004), páginas 164, 252-253, 171-172, 259 e 249-250, respectivamente, na tradução de Fulvia M. L. Moretto.




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