quarta-feira, 30 de abril de 2014

Dorival Caymmi, 100 anos

Dorival Caymmi (foto Portal EBC - interferido por Mirdad)


Hoje, 30 de abril de 2014, é o centenário do mestre Dorival Caymmi, cantor, compositor e entidade baiana, eternizado por sua obra e permanência enquanto paisagem humana emoldurada de memórias e valores de raiz e frutos do tempo homem. Pensei em escrever uma homenagem ao mestre maior, mas como não tenho autoridade e nem aproximação suficiente, decidi apenas pedir para que leiam o belíssimo texto de Caetano Veloso, homenageando o "koan baiano, uma lição do Buda-Nagô, como sintetizou Gil. Zen-yoruba", que tem passagens incríveis como "A canção brasileira é uma entidade em que as pessoas que por acaso se encontraram nesta parte do extremo Ocidente em que se fala português reconhecem-se, quase se justificam. Dorival Caymmi é um centro dessa entidade. O centro. Um polo. Um ponto fora da circunferência. Ele e só ele pode ser tudo isso". Leiam aqui.


Também aproveito para relembrar sua obra-prima, "Caymmi e seu Violão", de 1959, com as minhas canções prediletas abaixo. Esse álbum é o que mais me toca, especialmente por ser voz e violão apenas, a essência do folk. Zanom, guitarrista do Orange Poem, itapuãzeiro como o mestre, depõe: "Um dia me pediram que fizesse uma lista com os discos que mais me tocaram. Não consegui fazer a lista, sou incapaz, mas em poucos segundos de reflexão cheguei ao primeiro colocado, pois este era sem dúvida alguma. Caymmi e seu violão. Conciso e inacabado, puramente contraditório, sempre melhorando a cada audição. Em tempos que a palavra "genial" não é mais tão "genial" assim, este é a minha referência do que é genial". E como bem pontuou meu amigo folk facão Glauber Guimarães, "não há nada igual nem antes, nem depois". Nem haverá.





















segunda-feira, 28 de abril de 2014

25 poemas selecionados do livro Nostalgia da Lama, de Emmanuel Mirdad - Parte 02

Tela Enfrascafatos (distorcida pelo Blogger), terceira parte do livro Nostalgia da Lama, de Emmanuel Mirdad












Por algum motivo, o Blogger distorceu as imagens e as escureceu desta maneira acima. No álbum do livro no Facebook (aqui), as imagens serão postadas durante o dia de hoje e você poderá visualizar melhor. Os cinco poemas acima estão no livro Nostalgia da Lama (Cousa/2014), de Emmanuel Mirdad, a ser lançado em maio.

domingo, 27 de abril de 2014

Composições de Emmanuel Mirdad: Antiga Poesia - Pássaros de Libra e Mirdad



Considerada pelo compositor a sua melhor canção pop em português, foi também a melhor realizada na gravação do projeto Pássaros de Libra (duo com o músico Juracy do Amor, cantor e guitarrista) no ano 2000, a primeira experiência de Emmanuel Mirdad como produtor de álbuns. Oito anos depois, ganhou uma nova versão, mais lenta e com algumas pequenas modificações na letra, gravada no EP ID, o primeiro trabalho solo de Mirdad. Embora a letra tenha ficado definitiva, o beat da versão original é muito melhor, por isso é preciso registrar uma terceira e definitiva versão, que una os arranjos e andamento da primeira, e a letra da segunda. Quem sabe algum dia? "Então, quando você volta?" Para ouvir as duas versões, basta clicar nos botões laranjas de "play" abaixo.




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Antiga Poesia
(Emmanuel Mirdad)
BR-N1I-08-00004

Eu tenho que trabalhar todos os dias
Eu tenho que agradecer com sinais
Eu tenho que fazer muitas coisas
Que não estão certas como são

Eu tenho que perguntar por você?
Então, quando você volta?

E quando eu quero a justiça no meu caso
Percebo o movimento de todos indo embora...
E quando eu quero a justiça no meu caso
Percebo que conheço essa velha história...

Eu tenho que relaxar os meus dias
Eu tenho que esquecer a chave no cinzeiro
Eu tenho que perder toda a manhã

Quero escrever uns poeminhas pra você
Quero dizer que eu mudei por você
E então, será que você volta?
Então, será que perderei os envelopes?

E quando eu quero a justiça no meu caso
Percebo o movimento de todos indo embora...
E quando eu quero a justiça no meu caso
Percebo que conheço essa velha história...

PS - a letra acima é a definitiva, e está registrada na versão II do EP ID

Faixa 02 - Pássaros de Libra - EP O Primeiro Equilíbrio (2000) | Composta e produzida por Emmanuel Mirdad | Juracy do Amor - Voz, guitarras e arranjos de cordas | André Magalhães - Arranjos MIDI (piano, bateria, baixo, etc.) e programação de samplers | Faixa demo gravada por André Magalhães em 1999/2000 no Submarino Studios em Salvador/BA

Faixa 04 - Mirdad - EP ID (2008) | Composta e produzida por Emmanuel Mirdad | Mirdad - voz | Hosano Lima Jr. - bateria | Artur Paranhos - baixo | Eric Gomes - guitarra | Tito Menezes - sintetizador | Gravado e Mixado por Tito Menezes e Masterizado por André Magalhães no Submarino Studios em Salvador/BA | Arte encarte: Emmanuel Mirdad


Cifra original digitalizada da canção "Antiga Poesia (envelopes perdidos)"


ORIGEM

No criativo mês de dezembro de 1999, compus uma boa leva de canções, com destaque para "Canção Adeus" (que originou "Farewell Song", história aqui) e "Antiga Poesia" (composta no dia 03) que, assim como a primeira, foi uma das poucas faixas que não me envergonha na estreia como produtor de álbuns no ano 2000 (das 14 músicas gravadas no CD "O Primeiro Equilíbrio", do projeto Pássaros de Libra, só reconheço cinco, que estão no EP divulgado na internet em 2014 - ouça aqui).

Estava em processo de gravação do referido disco e o planejamento era registrar 12 músicas. Dessas, quatro eram as "canções acústicas", que não teriam os samplers e arranjos de MIDI de André Magalhães, apenas voz, violão e outros instrumentos acústicos. Mas ao ficar satisfeito com os arranjos que André vinha gravando, decidi não "gastar" espaço no álbum com músicas sem os arranjos do genial pianista e MIDI man e descartei as acústicas. O parceiro Juracy do Amor não estava com vontade de criar melodia em cima de poemas meus como "Pátria" e "Fundo do Fígado", e eu resolvi compor então. Como sempre, buscando primeiro nos arquivos algo que possa ser reaproveitado, encontrei uma letra chamada "Uma Outra da Antiga Poesia", que tinha sido escrita para um projeto do disco tributo a Renato Russo (que nunca foi realizado e não passou de uma ideia furada de um fã legionário) e foi a única que encaixou na melodia criada no dia 03 de dezembro - uma fusão de duas harmonias recém-criadas no teclado PSR-630 Yamaha da aluna de minha mãe Martha Anísia (parte I em C9 e refrão) com um fragmento de melodia da descartada canção minha "Fundo do Fígado" (parte II em Dm).

GRAVAÇÃO

Composição pronta, fui mostrar ao arranjador André Magalhães que, mexendo no arquivo de samplers, transformou a melodia dançante produzida num teclado Yamaha em um groove funk cativante. Dei então os retoques finais e surgiu um hit eletrônico (com "Antiga Poesia", "Canção Adeus" e mais outras, além do rock, o álbum tomava uma direção de eletro pop). O parceiro Juracy do Amor mandou ver na guitarra suingada e trouxe uma interpretação da melodia bem própria.

Mais tarde, visando encurtar o título e deixá-lo mais fácil de ser pronunciado, troquei "Uma Outra da Antiga Poesia" por somente "Antiga Poesia". Durante a gravação, André Magalhães encucou com o verso "será que perderei os envelopes?", e ficava me apoquentando pra tentar entender que diabos essa pergunta significava dentro do sentido geral do poema. Acabou virando uma piada interna nossa, e para homenagear o amigo (que deu sangue no álbum "O Primeiro Equilíbrio", muito além do que profissionalmente deveria fazer), inseri um parêntese no título e a canção foi registrada no Pássaros de Libra como "Antiga Poesia (envelopes perdidos)".


Cifra original digitalizada da canção "Antiga Poesia"


RECOMEÇO

Em 28 de abril de 2007, revisitei a melhor canção pop em português que já tinha composto, e refiz alguns versos, chegando em sua versão definitiva. Era uma época de intenso turbilhão, pois a banda The Orange Poem tinha terminado, e eu estava formando o repertório da minha nova empreitada musical, a Pedradura. "Antiga Poesia" não entrou no repertório do que viria a ser gravado como álbum ("Universo Telecoteco", ouça aqui), e ficou como lado B. Outras canções interessantes foram alimentando o lado B da Pedradura, e eu decidi então gravar um EP solo, o ID. Foi aí que "Antiga Poesia" foi registrada no verão de 2008, de volta ao Submarino Studios de André Magalhães, dessa vez com minha voz e uma decisão infeliz enquanto produtor: tocá-la mais lenta. No ensaio preparatório, o andamento era o mesmo da versão registrada no Pássaros de Libra. Só que no dia da gravação, tive a infeliz ideia de atrasar, para ter duas versões distintas. Ficou ruim, mas o sintetizador gravado por Tito Menezes e as sequelas com a piada interna "será que perderei os envelopes?" no final da canção são legais.

sábado, 26 de abril de 2014

Pílulas: Heródoto, IV, 196, de Reinaldo Santos Neves

Reinaldo Santos Neves (foto: Fábio Vicentini - interferida por Mirdad)


"Fiz dez segundos de silêncio: suicídio sempre extrai de mim um silêncio de reverência. O silêncio que espero que um dia façam por mim, quem sabe"


"Rebaixando os olhos com simulada modéstia, acrescentou que uma noite, num hotel de Reims, onde passou com Lucien um final de semana, sucedeu que, depois de uma sessão de amor especialmente ardorosa - e clamorosa -, o casal ouviu aplauso vindo lá de baixo. Lucien chegou à sacada para ver o que era. Voltou dizendo que hóspedes e empregados do hotel, reunidos na rua, estavam batendo palmas para o desempenho de ambos na cama. E levou-a pela mão à sacada, onde Diana, entrecoberta apenas por um lençol, recebeu demorada ovação. Confesso, disse-me ela, que não é da minha natureza fazer amor em silêncio"


"Tive esperança de que ele me desse asilo como a uma refugiada: como a uma apátrida. Bastava que ele me estendesse a mão - o mesmo gesto com que me estendera o quarteto de poemas ... No entanto, vi nos seus olhos que ele achava tudo aquilo um despropósito. E era mesmo. O que eu estava fazendo ali era o absurdo de me oferecer como noiva a um homem que mal conhecia - um poeta que escrevera quatro sonetos sobre meu cabelo e nada mais. Druso teve a santa decência de não me estender a mão. Eu me levantei e saí dali e casei com Léo"


"A atração animal entre nós foi tão forte que, mesmo sem mais nada em comum, era provável que nos teríamos envolvido da maneira intensa e profunda como nos envolvemos"


"- Quer vir pra cá, vem, - disse ela. - Estamos movendo uma ação coletiva contra os homens, e os pobres coitados precisam de um advogado de defesa.
- Podem condenar, - repliquei. - Somos todos culpados"


Reinaldo Santos Neves
(Cousa/2013) 


"É isso que nos faz diferentes: não o suicídio em si, mas o motivo para o suicídio. Nas outras famílias as pessoas se matam por loucura, por amor, porque estão doentes, porque perderam a fortuna. Nós, os Fitzleroy, nos matamos sem nenhum motivo. Ou melhor, sem nenhum motivo imediato: matamo-nos em nome da nossa vocação para o suicídio. Matamo-nos pela honra que essa vocação significa para nós mesmos na perspectiva histórica da família.
- O senhor não é religioso, é, Sr. Fitzleroy?
- Claro que sou, - respondeu ele. - Acredito em Deus e sou diácono ...
- Mas isso é um contra-senso, - retruquei. - Como pode acreditar em Deus e ser, como diz, um suicida por vocação? ...
- Uma pneumonia também é uma dádiva que recebemos de Deus ... A própria Bíblia, que condena, por exemplo, o coito interrompido, não condena em lugar algum o suicídio"


"Acrescentei, Maria, que tinha saudade da crítica literária tradicional, em que, mal ou bem, se falava do texto em análise. Hoje, o crítico pretende criticar um romance mas o que faz? Em primeiro lugar, abre espaço para teorizar sobre as teorizações de outros críticos; em segundo lugar, dispara suas próprias elucubrações "inspiradas" na obra que finge que está analisando. No primeiro caso faz filosofia da arte; no segundo, faz literatura postiça. Em ambos os casos, perdem a obra literária e o possível leitor interessado na obra literária"


"Uma das noções mais difundidas a respeito do iceberg é a de que a parte dele que aparece sobre a superfície das águas é proporcionalmente bem menor que a parte que se oculta nas profundezas do mar. Não será aplicável a grande parte das obras de literatura? Isto é, a parte aparente representa o texto visível, legível, impresso, enquanto aquilo que se mantém oculto representa as infinitas possibilidades de leitura e interpretação crítica, podendo-se ver em cada tentativa de apreciação uma lasca daquele enorme e maciço bloco submerso"


"A literatura nada mais é que um punhado de palavras vazias, de personagens sem graça, de histórias sem charme nem arte. A minha ficção? Ah, como me envergonho de tudo que escrevi. E para quê? ... Grande merda, a literatura hoje, como motivo de vaidade. Devia, sim, ser motivo de vergonha. Com todos os avanços intelectuais e tecnológicos, inclusive, e até sobretudo, dos recursos que facilitam o trabalho braçal do escritor, deveríamos nos envergonhar porque nunca, nunca chegaremos aos pés dos nossos grandes precursores ... Só essa incapacidade já deveria ser suficiente para que jogássemos no lixo os nossos computadores e deixássemos de fazer literatura para fazer outra coisa. Que foi o que eu tive vergonha na cara para fazer e fiz"


"Imagine o constrangimento dos arquivistas diante da descoberta da valise, ainda fechada e intacta, trinta e dois anos depois da estranha doação: imaginei-os abrindo a valise; achando ali dentro apenas velhos manuscritos de poesia; fechando de novo a valise como médicos fecham o corpo de um paciente quando constatam que o tumor é inoperável"

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Pílulas: Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, de David Foster Wallace

David Foster Wallace (foto: Divulgação Cia das Letras - interferida por Mirdad)


Release extraído do site da Cia das Letras, editora do livro:

"Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo reúne alguns dos mais significativos ensaios de David Foster Wallace. Embora seja mais conhecido por sua obra de ficção, que inclui, entre outros títulos, o aclamado romance Infinite Jest (1996), Wallace também foi um ensaísta e repórter brilhante, que deixou marcas no jornalismo literário e exerce hoje uma influência comparável à de Hunter S. Thompson. Com a proposta de fornecer uma porta de entrada ao universo literário do autor, o volume abriga três reportagens - entre elas o famoso “texto do navio”, o relato de um cruzeiro pelo Caribe -, uma palestra sobre Kafka, uma crônica poderosa sobre o tenista Roger Federer e “Isto é água”, o discurso de paraninfo que se difundiu como um viral inspirador pela internet.

Na reportagem que dá título ao livro, Wallace, enviado pela Harper’s a uma feira agrícola em Illinois, se sai com uma crônica hilária sobre o estilo de vida americano. Em “Pense na lagosta”, o autor aproveita a visita a uma feira gastronômica para refletir sobre a legitimidade ética de ferver lagostas vivas para degustá-las. Ao tratar desses e de outros temas, o autor ignora as convenções da apuração jornalística e se concentra nos detalhes mais inusitados. Humor, inteligência, inventividade e um poder de observação assombroso são as marcas desse estilo que influenciou toda uma geração de escritores"




Parte I
Leia aqui

"Nos apropriamos de comidas de todas as culturas e crenças para fritá-las, servi-las em caixas de papelão e consumi-las andando"





Parte II
Leia aqui
"Um ar sinistro de abandono às pressas, um sentimento parecido com o de fugir do jardim de infância e chegar em casa para descobrir que a família inteira se mandou deixando você para trás"





Parte III
Leia aqui

"A melhor maneira de descrever a conduta de Scott Peterson é dizer que ele parece estar posando o tempo inteiro para uma fotografia que ninguém está tirando"





Parte IV
Leia aqui
"Ser um turista massificado, para mim, é se tornar um puro americano contemporâneo: alheio, ignorante, ávido por algo que nunca poderá ter, frustrado de um modo que nunca poderá admitir"

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Prefácio de André Setaro para o livro Nostalgia da Lama, de Emmanuel Mirdad







Prefácio do livro de poemas Nostalgia da Lama (Editora Cousa/2014), de Emmanuel Mirdad. O lançamento será em maio:


Os Espinhos da Existência
André Setaro

A poesia, linguagem, deve ser a expressão de um sentimento de mundo e ter uma singularidade expressiva na visão deste e das coisas. E Emmanuel Mirdad possui o poder de fazer emergir nos seus pequenos pedaços poéticos a conspiração das dores do mundo numa insólita manifestação que se constrói pela conjugação das letras.

Há, nos poemas de Mirdad, algo que lembra os hai-kais japoneses, uma espécie de fúria que procura, dentro de su'alma, cheia de espinhos, dar à luz as contradições de sua verve de poeta. Em seu livro de poemas, existe um depósito de idiossincrasias que solicitam que sejam poematizados, e Mirdad deixa que suas letras satisfaçam a interioridade angustiante, o vulcão atônico que rege o seu íntimo, que se manifesta em abundantes escarros de um ferino nômade.

Um exemplo que serve para exemplificar o vulcão mirdadiano:

Evolução

primeiro foi a rebeldia
depois o cansaço
por último a fuga
e agora os cacos

A rebeldia que, como um camaleão, se transforma em cansaço para depois fugir e, depois, finda a tempestade, reinar os cacos de si mesmo, ao que se poderia acrescentar: o kaos do autor. O que Mirdad oferece em Nostalgia da Lama é justamente isto: a rebeldia interior do autor através de cacos ou espinhos poéticos. Para Mirdad, viver é lutar, e a aventura da vida também deve ser exposta pelos espinhos da existência. Um leitor mais sensível aos tormentos mirdadianos talvez possa se espetar com suas diatribes transformadas em poemas.

Há uma anarquia, no entanto, nesse espírito rebelde, não fosse todo rebelde também um anarquista. Como neste quase petardo existencial:

Sete, catorze, 21

um espaço vazio na cama
a criança soldado surge
é assustador

Sobre ser um cavaleiro andante que vive a sua perplexidade cotidiana, Emmanuel Mirdad, com este estranho, espinhento, Nostalgia da Lama, faz com que o leitor tenha prazer na sua leitura. A obra, ainda que aparentemente despretensiosa, é densa e dotada de certa crueldade, que não é outra senão a própria crueldade da vida.

Salvador-BA

quarta-feira, 23 de abril de 2014

25 poemas selecionados do livro Nostalgia da Lama, de Emmanuel Mirdad - Parte 01

Tela Umbiego, segunda parte do livro Nostalgia da Lama, de Emmanuel Mirdad












Por algum motivo, o Blogger distorceu as imagens e as escureceu desta maneira acima. No álbum do livro no Facebook (aqui), as imagens serão postadas durante o dia de hoje e você poderá visualizar melhor. Os cinco poemas acima estão no livro Nostalgia da Lama (Cousa/2014), de Emmanuel Mirdad, a ser lançado em maio.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Orange Poem lança EP Unquiet


Link direto aqui

Download direto aqui

Release aqui

Pílulas: Parte 04 - Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, de David Foster Wallace

David Foster Wallace (foto: Divulgação Cia das Letras - interferida por Mirdad)


"Ser um turista massificado, para mim, é se tornar um puro americano contempo-râneo: alheio, ignorante, ávido por algo que nunca poderá ter, frustrado de um modo que nunca poderá admitir. É macular, através de pura ontologia, a própria imaculabi-lidade que se foi experimentar. É se impor sobre lugares que, em todas as formas não econômicas, seriam melhores e mais verdadeiros sem a sua presença. É confrontar, em filas e engarrafamentos, transação após transação, uma dimensão de si mesmo tão inescapável quanto dolorosa: na condição de turista você se torna economicamente significativo mas existencialmente detestável, um inseto sobre uma coisa morta"


"Um detalhe tão óbvio que a maioria das receitas nem se preocupa em mencionar é que as lagostas precisam estar vivas ao serem colocadas no tacho. Isso faz parte do apelo contemporâneo da lagosta - é o alimento mais fresco que existe ... Chegam vivas dentro das armadilhas, são colocadas em recipientes com água do mar e podem ... sobreviver até o instante em que são fervidas ... Então aqui vai uma pergunta que se torna praticamente inevitável diante da Maior Panela Para Lagostas do Mundo e pode vir à tona em cozinhas espalhadas por todos os Estados Unidos: é certo ferver viva uma criatura senciente para o nosso mero prazer gustativo?"


"Não existe só o problema de que as lagostas são fervidas vivas, mas também o de que quem faz isso é você - ou pelo menos isso é feito especificamente para você, in loco ... Pelo menos comer lagostas não torna ninguém cúmplice do sistema corporativo de fazendas de confinamento que produz a maior parte da carne de gado, porco e frango. Por conta, no mínimo, do modo como são comercializadas e embaladas, comemos essas carnes sem ter de pensar que um dia já foram criaturas sencientes e dotadas de consciência às quais foram feitas coisas horríveis"


"Quando é despejada do recipiente para dentro do tacho fumegante, às vezes a lagosta tenta se segurar nas bordas do recipiente ou até mesmo enganchar as garras na beira do tacho como uma pessoa dependurada de um telhado, tentando não cair. Pior ainda é quando a lagosta fica imersa por completo. Mesmo que o sujeito tampe o tacho e saia de perto, normalmente é possível ouvir a tampa chacoalhando e rangendo enquanto a lagosta tenta empurrá-la. Ou escutar as garras da criatura raspando o interior do tacho enquanto se debate. Em outras palavras, a lagosta apresenta um comportamento muito parecido com o que eu ou você apresentaríamos se fôssemos atirados em água fervente"


David Foster Wallace
(Companhia das Letras - 2012)


"É possível que as gerações futuras considerem as práticas de agronegócio e alimentares contemporâneas da mesma maneira como hoje enxergamos os espetáculos de Nero ou os experimentos de Mengele? ... Eu creio que os animais são moralmente menos importantes que os seres humanos; e quando se trata de defender essa crença, ainda que para mim mesmo, preciso reconhecer que (a) tenho um óbvio interesse egoísta nessa crença, pois gosto de comer certos tipos de animais e quero ser capaz de continuar fazendo isso, e (b) não consegui elaborar nenhum tipo de sistema ético pessoal dentro do qual essa crença se torne verdadeiramente justificável em vez de ser apenas uma conveniência egoísta"


"Proponho a vocês que esse é o valor real e sério que precisa ser transmitido numa educação em ciências humanas: Como ter uma vida adulta confortável, próspera e respeitável sem estar morto ou inconsciente, sem ser escravo da própria cabeça e da configuração padrão natural que nos condena a estar singular, completa e imperialmente sozinhos dia após dia"


"O suposto 'mundo real' nunca desencorajará vocês de operarem nas configurações padrão, porque o suposto 'mundo real' dos homens, do dinheiro e do poder avança tranquilamente movido pelo medo, pelo desprezo, pela frustração, pela ânsia e pela veneração do ego. Nossa cultura atual canalizou essas forças de modo a produzir doses extraordinárias de riqueza, conforto e liberdade pessoal. A liberdade de sermos senhores de reinos minúsculos, do tamanho dos nossos crânios, sozinhos dentro de toda a criação"


"O tipo realmente importante de liberdade requer atenção, consciência, disciplina, esforço e a capacidade de se importar genuinamente com os outros e de se sacrificar por eles inúmeras vezes, todos os dias, numa miríade de formas corriqueiras e pouco excitantes. Essa é a verdadeira liberdade. Isso é ter aprendido a pensar. A alternativa é a inconsciência, a configuração padrão, a 'corrida de ratos' - a sensação permanente e corrosiva de ter possuído e perdido alguma coisa infinita"

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Seleta dos melhores álbuns do Embrulhador 2013

Minha seleção dos melhores álbuns da seleta do Embrulhador 2013


O site Embrulhador, do produtivo e responsável crítico Ed Félix, todo ano solta uma seleção dos 100 melhores álbuns da música brasileira, um trabalho extenso e criterioso (e controverso também, como qualquer lista). Em janeiro passado, foi a vez da lista 2013 (veja e escute aqui), que passei esses meses devorando minunciosamente para fazer a minha seleta da seleção do Embrulhador 2013 (ano passado foi a 1ª vez que fiz a seleta - confira aqui). 


Primeiro pensei em fazer uma seleção por critérios jornalísticos, musicais, justificativas baseadas em crítica musical, mas depois desisti. Meu único critério da lista dos 20 melhores do Embrulhador 2013 foi gosto. Isso mesmo, gosto, simples assim. E muito obrigado Ed e sua lista fodástica por me apresentar Toni Ferreira, Nevilton, Márcio Lugó, Luz Marina e vários artistas que ainda não conhecia. Parabéns e continue sendo essa enorme e necessária peneira, cada vez mais importante diante de tanta produção nessa contemporaneidade de excessos e quase nenhuma plateia. Para quem quiser conferir minha seleção baseada no umbigo do gosto, basta conferir os links abaixo:





1º) Toni Ferreira
     Toni Ferreira
     Ouça aqui








2º) Nevilton
     Sacode
     Ouça aqui







3º) Márcio Lugó
     Liberdade Aparente
     Ouça aqui







4º) Luz Marina
     Luz Marina
     Ouça aqui







5º) Gisele de Santi
     Vermelhos e Demais Matizes
     Ouça aqui







6º) Patrícia Bastos
     Zulusa
     Ouça aqui







7º) Músicas do espinhaço
     Janelas
     Ouça aqui








8º) Castello Branco
     Serviço
     Ouça aqui








9º) Kristoff Silva
     Deriva
     Ouça aqui








10º) Coladera
       Coladera
       Ouça aqui








11º) Fernando Temporão
       De Dentro da Gaveta da Alma da Gente
       Ouça aqui







12º) Juliano Gauche
       Juliano Gauche
       Ouça aqui








13º) Thiago França
       Malaguetas, Perus e Bacanaço
       Ouça aqui








14º) Vanessa Moreno e Fi Maróstica
       Vem Ver
       Ouça aqui








15º) Dani & Debora Gurgel Quarteto
       Um
       Ouça aqui








16º) Baleia
       Quebra Azul
       Ouça aqui








17º) Alexandre Klinke
       Terreiro
       Ouça aqui








18º) A Fase Rosa
       Homens Lentos
       Ouça aqui







19º) Bruno Fleming
       Cama Mole
       Ouça aqui








20º) Godasadog
       Hoje
       Ouça aqui