Pular para o conteúdo principal

Pílulas: Parte 02 - Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo, de David Foster Wallace

David Foster Wallace (foto: Divulgação Cia das Letras - interferida por Mirdad)


"Existe uma semelhança enganosa nas mensagens das camisetas. Muitas servem para identificar o usuário como parte de um certo grupo e depois enaltecer o grupo por seu dinamismo sexual ... Há algo complexo e estimulante no fato dessas mensagens não estarem sendo apenas pronunciadas, mas vestidas, como se fossem um crachá ou uma credencial. A mensagem elogia o usuário de uma certa forma e em troca o usuário referenda a mensagem estampando-a no peito, o que por sua vez deverá referendar o usuário como sujeito de gênio atrevido ou despudorado ... O deprimente é que as camisetas não são somente impressas em massa, mas também tão sem graça e bobas que acabam situando o usuário naquele grande e lamentável grupo de pessoas que considera tais mensagens não somente Individuais mas também engraçadas. No fim tudo é muito complexo e deprimente"


"De novo na rua. Fantasmas proteicos de neblina e evaporação pairam nos acessos. O Pátio da Feira fica assustador com tudo montado mas ninguém à vista. Um ar sinistro de abandono às pressas, um sentimento parecido com o de fugir do jardim de infância e chegar em casa para descobrir que a família inteira se mandou deixando você para trás"


"Nos cantos dos ringues há bancos para as crianças sentarem e serem atendidas pelos treinadores das equipes. Os treinadores lembram os pais agressivos de vários dos meus amigos de infância - avermelhados, mandíbulas azuladas, pescoços taurinos, olhos rasgados, o tipo de homem que joga boliche, assiste à TV de cueca e supervisiona pancadarias selecionadas. Agora o protetor bucal de um lutador sai voando e atravessa o ringue dos catorze anos de uma ponta a outra deixando um rastro de fios de saliva e o público começa a urrar ... Hall também se parece com praticamente todos os garotos que me surraram no colégio, até no bigodinho ralo e na dobra cruel do lábio superior"


"Não há negros no Salão de Baile Crespúsculo ... Três duplas casadas de Rantoul, vestindo macacões cor de carvão à moda do Oeste, tecem uma filigrana inacreditável de sapateado em alta velocidade em cima de "R-E-S-P-E-C-T" de Aretha Franklin, e não há traço de ironia racial no recinto; a canção foi apropriada por essa gente, enfaticamente ... Há uma certa atmosfera no salão - não racista, mas agressivamente branca. É difícil de descrever. É a mesma atmosfera de uma porção de eventos públicos do Meio-Oeste rural. Não que um negro fosse sofrer abusos caso entrasse aqui; é mais como se entrar aqui jamais pudesse passar pela cabeça de um negro"


David Foster Wallace
(Companhia das Letras - 2012)


"O povo do Kmart é geralmente gordo, vestido de poliéster, tem a cara amarrada e carrega crianças infelizes e sem vida. As perucas são daquele tipo brilhoso com corte quadrado e de uma obviedade comovente, e a maquiagem das mulheres é berrante e não raro aplicada de maneira assimétrica, conferindo uma aparência meio demente a muitos rostos femininos. Têm vozes ríspidas e gritam com seus familiares. É o tipo de pessoa que você vê batendo nos filhos no caixa do supermercado ... Se arrastam de um lado a outro parecendo deslocados e profundamente perplexos, como se tivessem certeza de que aquilo que procuram está por aqui em algum lugar"


"Tampouco compreendo, preciso admitir, como alguém desembolsa grana para ser arremessado, suspenso, largado, sacudido de um lado para o outro em alta velocidade e pendurado ponta-cabeça até vomitar. Para mim, é como pagar para se envolver num acidente de carro"


"Acho que os funcionários de parques são os ciganos das regiões rurais dos Estados Unidos - itinerantes, insulares, morenos, sebentos, pouco confiáveis. Você não se sente atraído por eles de nenhuma forma. Todos possuem o mesmo olhar duro e vazio das pessoas no banheiro de um terminal rodoviário. Querem receber seu dinheiro e ver o que há por baixo da sua saia; fora isso você apenas bloqueia a visão"


"A melhor descrição do bronzeado dos funcionários do parque é que eles estão sinistramente bronzeados. Percebo que muitos deles possuem a testa baixa e a mandíbula prognata tipicamente asssociada à Síndrome Alcoólica Fetal. O funcionário que está operando o Scooter ... estava largado na mesma posição e na mesma cadeira toda vez que o vi, mantendo o olhar perdido num ponto além dos carrinhos enlouquecidos e rasgando ingressos usados com a veemência inexpressiva de uma pessoa confinada numa Ala Psiquiátrica ... pergunto em tom amável como ele faz para não pirar totalmente com o tédio de seu trabalho. Ele vira a cabeça muito devagar, revelando um tique facial severo: 'De que porra cê tá falando?'"

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

A mesma resenha na versão impressa do jornal aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…