“(...) Naquela tarde, ele lhe falou que ia embora. Disse assim, de pronto, leve, com o olhar a fitar a extensão de mar. Ela, ao seu lado, ficou em silêncio. Sabia, de antemão e por intuição, que nada permanece imutável até o fim. Que tudo é deterioração — e desastre. Que o que está não vai assim permanecer. Que o ser é enquanto , e que tudo muda com o tempo. ‘Tudo bem’, foi o que conseguiu dizer ou, de fato, preferiu dizer. Mesmo que o coração não quisesse, os lábios mentem. O menino, calado, ainda contemplava o mar, alheio à certeza que aquelas palavras sedimentavam. Ao cimento que os dias, dali por diante, imporiam àquela amizade.” “(...) As primeiras decepções chegam cedo e, se deixam marcas, não são visíveis e precisam ser arrancadas do fundo das mentes e dos olhos. Mas não aquela. O menino, ao dirigir-se à casa do amigo, ia destroçado. Jamais lhe ocorrera algo semelhante. Não sabia, portanto, lidar com a rejeição, se é que era isso mesmo. Mas era, de certo modo. Um ano inteiro mud...
O lampião e a peneira do mestiço