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Mostrando postagens de julho, 2026

Trinta passagens do livro de ensaios Um dia todos dirão terem sido contra, de Omar El Akkad

          “Minha filha para de repente, enquanto desenha os Vs de um balanço no parquinho de bonecos de pelúcia do seu subúrbio imaginário. Ela se levanta e vem até a sala, onde estou examinando fotografias e vídeos que mostram as consequências de mais uma das atrocidades cometidas em Gaza. Ela quer saber se é assim que se escreve ‘bem-vindos’.           Fecho rapidamente o notebook . Em várias abas do meu navegador há fotos de uma menina que foi retirada dos destroços de um ataque aéreo de Israel. Ela é um pouco mais velha do que minha filha. Em outra aba, tenho a gravação de uma garotinha que pede socorro momentos antes de ser executada por atiradores de elite israelenses. Tenho mais de vinte abas abertas no meu notebook , um carrossel sangrento dos piores crimes que já foram capturados ao vivo. Digo à minha filha que é assim mesmo que se escreve ‘bem-vindos’. Ela retorna para seu parquinho, leve como uma pluma.” “Em outubro desse ano,...

Trinta epígrafes de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo (foto: Lidi Nunes) Mayrant Gallo é professor e escritor, natural de Salvador-BA (1962). É graduado em Letras com Francês, e mestre em Teoria da Literatura, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi professor de Teoria da Literatura e Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Publicou vários livros, entre os quais “ O inédito de Kafka ” (CosacNaify, 2003), “ Três infâncias ” (Casarão do Verbo, 2011), “ Os encantos do sol ” (Escrituras, 2013), “ Cidade singular ” (Kalango, 2013), “ As aventuras de Nicolau & Ricardo: detetives ” (Penalux, 2014), “ O enigma dos livros ” (P55, 2015) e “ Verão do incêndio ” (Villa Olívia, 2023), entre outros. Ganhou os prêmios “Literatura para todos” do MEC, em 2009, e Petrobrás Cultural, em 2010. Mayrant Gallo é o autor baiano que eu mais admiro (sou leitor fiel da sua obra), um dos escritores com maior respeito à arte literária, um professor que me ensinou muito sobre Literatura e Cinema. Neste post...

Dez passagens da novela Marilyn Boulevard, de Mayrant Gallo

“Marilyn é chamada para festas que a entediam. O início é até bom, promissor, mas cedo ou tarde é o seu corpo que desejam. E sempre não foi assim? Desde que era novinha, uma criança ainda...? Olhares, mãos. Bocas que falam asneiras e a convidam. Corpos que a esmagam e logo a deixam, como a um barco abandonado. Tudo começa quando os copos lhe são passados cheios e depois recolhidos, vazios. Ela precisa se esforçar. Ela precisa resistir, mas nem sempre é possível, tal o ímpeto alheio, tal a vontade — deles! — de a embebedar. Mal a ouvem, se disser Não quero mais beber . Mal a veem, se não for com eles. Então ela pensa nos testes, milhares sem dúvida; então ela pensa nos filmes, os que fez e os que ainda pode fazer. Então ela pensa o quanto precisa de dinheiro, que é o que move a vida e o mundo. A escada até o andar de cima é longa, e Marilyn não tem certeza de que pode subi-la. Sua cabeça roda, seus pés hesitam. Só por isso ela recusa o convite que a mão em seu braço lhe impõe. Só por is...