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Dez passagens da novela Marilyn Boulevard, de Mayrant Gallo



“Marilyn é chamada para festas que a entediam. O início é até bom, promissor, mas cedo ou tarde é o seu corpo que desejam. E sempre não foi assim? Desde que era novinha, uma criança ainda...? Olhares, mãos. Bocas que falam asneiras e a convidam. Corpos que a esmagam e logo a deixam, como a um barco abandonado. Tudo começa quando os copos lhe são passados cheios e depois recolhidos, vazios. Ela precisa se esforçar. Ela precisa resistir, mas nem sempre é possível, tal o ímpeto alheio, tal a vontade — deles! — de a embebedar. Mal a ouvem, se disser Não quero mais beber. Mal a veem, se não for com eles. Então ela pensa nos testes, milhares sem dúvida; então ela pensa nos filmes, os que fez e os que ainda pode fazer. Então ela pensa o quanto precisa de dinheiro, que é o que move a vida e o mundo. A escada até o andar de cima é longa, e Marilyn não tem certeza de que pode subi-la. Sua cabeça roda, seus pés hesitam. Só por isso ela recusa o convite que a mão em seu braço lhe impõe. Só por isso ela se volta, muito embora cambaleando, e retorna ao salão, que cruza em linha reta, meio trôpega, até a porta. O vento frio em seu rosto deixa-a melhor, como se curada daquele estado de torpor. No limiar enluarado da porta, três ou quatro homens a observam se afastar. Um dos saltos de seus sapatos se parte, mas ela não se importa. Quer acima de tudo aquela distância.”


“Marilyn sempre recorda que sua mãe adotiva tentou vendê-la para um fazendeiro rico. Não lembra, contudo, quem a salvou. Os abusos sexuais sofridos também não lhe saem do pensamento... Igualmente que teve de se prostituir para comer. Uma vez um cara disse que lhe pagava 15 dólares para vê-la nua. Ela aceitou, e foram para um hotel. Lá, depois que se mostrou, ele quis transar com ela, que não se opôs com a condição de que usasse preservativo. Então o homem saiu para comprá-lo, certo de que, quando voltasse, ela não estaria no quarto. Mas estava, calma e nua. E receptiva, alegre, meiga. O homem voltou outras vezes ao ponto onde a achara no centro da cidade, mas nunca mais a viu, até que tempos depois a reconheceu num filme e o resto de sua vida se vangloriou de tê-la possuído, Os amigos riam sem acreditar. E Marilyn, quando pensava nessa história, se perguntava se ele se lembrava dela, especialmente depois que ficou famosa. A possibilidade de que talvez não se lembrasse a deixava triste.”


Sexo é como ir ao mercado, ela disse, durante uma entrevista. E estava certa. Com sexo, Marilyn conseguiu tudo o que desejou, bastava tirar a roupa ou fazer com que os homens a tirassem, que o mercado se abria, com tudo grátis. Isso a fazia mais segura, tanto quanto mais suscetível a medos e desesperos, que invariavelmente terminavam em bebidas, comprimidos e tentativas de suicídio. Abortei de novo, era uma frase que seus amigos ouviam a cada dois ou três anos. E nunca o pai do feto era o mesmo. Entre seu marido jogador e seu marido dramaturgo, houve uma fila de outros homens, como houvera antes de ambos e haveria depois deles. Mesmo durante os dois ela não se conteve... Sei que ao tirar a roupa, o mundo não cai, se ergue, é a sua fala mais triste e que não está em nenhum de seus filmes.”


“A relação com os irmãos K foi tensa e trepidante. Mimados, eles a tratavam como um brinquedo, um objeto que vai de mão em mão, para múltiplos usos. Ora ela estava em Nova York, ora em Washington, ora na casa de Bing Crosby, na ensolarada Califórnia que Jackie, a primeira-dama, desprezava. Em cada um desses lugares um K, alternadamente, estava à sua espera. Até que, grávida de um deles, ela foi obrigada a abortar. Foi simples: dois homens de preto passaram em sua casa, enfiaram-na dentro de um carro (preto também), depois dentro de um helicóptero e logo estava na clínica, sobre uma maca, a caminho da sala de cirurgia. Ela chorava, mas todos, agentes, médicos e enfermeiros, foram orientados a ignorá-la, risse ou chorasse. Mais tarde, foi devolvida à sua casa, sem maiores cuidados, e que ela se virasse da melhor maneira possível. Deram-se apenas ao trabalho de chamar a empregada e lhe dizer que La señora necesita cuidados... Em algum lugar ali perto Monalisa tocava no rádio, com a voz de veludo de Nat King Cole, o que a deixou ainda mais infeliz.”


“Mais um teste termina, e Marilyn não parece otimista. Pelo contrário. Mas Tony, que ela conhece de muitos testes anteriores, lhe diz que não vale a pena penar, se exasperar, que poderiam ir ao cinema e esquecer tudo. Ela não está segura de poder esquecer, mas aceita o convite. Eles já saíram juntos, namoraram um tempo e, inclusive, foram para a cama. Mas são só amigos. No cinema, o filme não é bom, e Marilyn não consegue se concentrar. Tony até ri um pouco dessa comédia maluca que não empolga em nada. Talvez por respeito, desejo de não diminuir sua classe, seus pares. Já na rua, em meio às luzes difusas, ela se aconchega a ele, porque sente frio. Caminham em silêncio por um tempo, e é quase certo que ambos sofrem por dentro, como frutas que avançam para o fim. Exceto por um trabalhinho aqui e outro ali, suas carreiras seguem estagnadas. Se há esperança em seus olhos, há igualmente um ponto nublado que lhes tira o brilho. É tão difícil, ela murmura. Tony a aperta mais ao seu lado, e continuam a caminhar na noite, as sombras a ocultá-los, as luzes a realçá-los, como um sinal do futuro.”


Mayrant Gallo dá entrevista no Multicultura da Educadora FM sobre “Marilyn Boulevard” (ouça aqui)

“Durante o seu primeiro casamento, mais ou menos aos dezoito anos, Marilyn trabalhou numa fábrica de paraquedas. No trabalho usava um macacão que nenhum homem em sã consciência não desejou despir. Com o marido longe, na guerra, ela flertava com qualquer um, ensaiando o que seria, mais tarde, o seu jogo de sedução. Talvez ali as personagens que interpretaria tenham começado, um esboço grosseiro das formas e rosto que sacudiriam o mundo, como um panterremoto. Um fotógrafo a descobriu nessa época, e o trabalho que fez a levou a uma agência de modas, que a contratou, mas não a explorou plenamente. Quando um dia tirou a roupa para outro fotógrafo, foi com ele para a cama, naturalmente, o que a levou à descoberta de que seu marido merecia mesmo a guerra... O pedido de divórcio por parte dela veio com igual naturalidade e a despejou no mundo. Em todos os trabalhos que teve depois, entrava já sem roupa, com a esperança de conseguir mais do que pretendia. Mas, num mundo de homens, sua aparente facilidade de se despir tornava-a suspeita. Acabou como stripper e, afinal, como uma simples garota de rua, ao preço de 10 dólares. Foram dias difíceis, em que, ao mesmo tempo que se submetia, chorava, ao mesmo tempo que era alegre e meiga, tornava-se triste e depressiva. Um homem lhe disse uma noite: Gosto do seu corpo, mas sua beleza me causa pena. Pagou-lhe o dobro do que ela pediu e foi embora.”


“Marilyn está num táxi, quando vê, de longe, numa banca de jornais, uma revista antiga com sua foto enorme na capa. Essa ela não tem. Nem leu. Desce, vai correndo à banca de jornais e compra a revista, mas é reconhecida. Uma multidão a cerca. Mãos a apalpam. Talvez queiram saber se ela é de verdade, se há carne ali, pele e pelos, ou se é uma ilusão, uma farsa saída das telas para a vida. Seu sorriso inicial se transforma num esgar de medo. Sua encenação, apenas esboçada, não funciona. Os prédios em volta parecem se mexer, o céu como a se aproximar, feroz... Um policial a salva, levando-a embora, e ela o beija quando ele a coloca num táxi. Na revista que descansa em seu colo, sua fisionomia é de um implícito convite.”


“Marilyn vai à praia com um poeta que ela conheceu. Passam a tarde lendo Rimbaud, Verlaine e Baudelaire, porque ela lhe disse se interessar por poesia, em especial a francesa. E que também escrevia poesia, poemas nos quais despejava seus sentimentos e angústias, nada mais. O poeta a entende e não a julga. Sabe que um poema é sempre uma inquietação que encontra uma forma. Leu essa definição em algum lugar, de alguém, e a passa para ela com generosidade. Marilyn reflete por um instante e, como quem aplica o que aprendeu ao que a impulsiona e traduz, fecha os olhos, levanta a cabeça e sorri. O poeta se deixa extasiar, tanto quanto ela. Estão em comunhão. Formam, nesse momento, uma só intenção cujo meio de existência ultrapassa plano físico e se ancora nas palavras, nos sons e sentidos que estas produzem. O sol desce no horizonte, ao passo que as coisas, eles inclusive, começam a mergulhar nesse misterioso desafio que é a noite. Quando o sol já não existe mais, e na praia não há senão eles, Marilyn sugere que entrem no mar. O poeta argumenta que eles não estão vestidos adequadamente para o que ela pretende... Marilyn ri e vai tirando a roupa. Corre em direção ao mar como uma criança entra no banho. O poeta hesita, mas logo depois a segue. Não há mais barreiras entre eles. O mundo lhes pertence. Os sentimentos são recíprocos. Dois poemas haverão de nascer como prova do que aquele céu testemunha.”


“(...) A solução é sair, ir a algum café, a uma livraria, mas teme ser reconhecida e obrigada a representar, ser a atriz. Quem ela é e quem se tornou são duas pessoas bem distintas. A primeira morre pela segunda, e esta não se lembra daquela. Um dia terá de levar flores à sua própria sepultura.”


“Numa solenidade simples, restrita a parentes e amigos, Marilyn foi devolvida à terra. Sem envelhecer. Sem decair. Sem atingir aquela idade em que os mais jovens a olhassem com desprezo ou repúdio. Foi para o outro lado vívida e esfuziante — seu último filme, Os desajustados, demonstra isso. Está admirável, soberba, cheia de convicção, especialmente corajosa e capaz de enfrentar a vida, tanto em atitudes quanto com palavras. Ela negava que Miller — que lhe prometera um roteiro que a expressasse e a traduzisse — o tivesse escrito para ela: Não sou eu! — dizia. Não, não era. Era como ela talvez devesse ser ou como o era somente em alguns momentos, fora das regras. De todo modo, talvez a sua reação negativa fosse porque não pudesse alcançar em sã consciência aquele ideal que sua personagem tão bem apresenta, frágil, mas igualmente forte; chorosa, mas igualmente impetuosa, desafiando a vida com sagacidade e de peito aberto. Reza a lenda de que, por vinte anos, jamais faltaram flores em seu túmulo, e que o responsável por isso fora o onipresente DiMaggio. Reza outra lenda de que em certas noites seu túmulo emite luz... Raros são aqueles que a veem.”


Presentes na novela “Marilyn Boulevard” (Villa Olívia, 2026), de Mayrant Gallo, páginas 16, 20-21, 17, 25-26, 15, 26-27, 21, 27-28, 19 e 43, respectivamente.

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