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Trinta passagens do livro de ensaios Um dia todos dirão terem sido contra, de Omar El Akkad



          “Minha filha para de repente, enquanto desenha os Vs de um balanço no parquinho de bonecos de pelúcia do seu subúrbio imaginário. Ela se levanta e vem até a sala, onde estou examinando fotografias e vídeos que mostram as consequências de mais uma das atrocidades cometidas em Gaza. Ela quer saber se é assim que se escreve ‘bem-vindos’.
          Fecho rapidamente o notebook. Em várias abas do meu navegador há fotos de uma menina que foi retirada dos destroços de um ataque aéreo de Israel. Ela é um pouco mais velha do que minha filha. Em outra aba, tenho a gravação de uma garotinha que pede socorro momentos antes de ser executada por atiradores de elite israelenses. Tenho mais de vinte abas abertas no meu notebook, um carrossel sangrento dos piores crimes que já foram capturados ao vivo. Digo à minha filha que é assim mesmo que se escreve ‘bem-vindos’. Ela retorna para seu parquinho, leve como uma pluma.”


“Em outubro desse ano, o exército israelense, sob o comando do governo eleito e com o apoio da ampla maioria dos centros de poder político do mundo ocidental, começou a implementar uma campanha de verdadeiro genocídio contra o povo palestino, uma das campanhas mais deliberada e injustificadamente cruéis dos quase cem anos de ocupação, e a mais bem documentada, sem dúvida. (...) Israel iniciou uma operação de aniquilação por toda a extensão do território de Gaza. Quase todos os 2,3 milhões de residentes da região ficaram desalojados. As escolas, os hospitais e as universidades foram praticamente todos danificados ou arrasados. A intencional retenção de ajuda humanitária e a destruição da infraestrutura resultaram na disseminação da fome e das mortes por doenças. Reiteradamente, vimos os residentes serem expulsos de suas casas e encaminhados para ‘áreas de segurança’, onde seriam exterminados. Alguns têm o luxo de uma contagem precisa na hora da morte, mas não essa gente: não há precisão no número de mortos. Talvez não haja nunca.”


“Num hospital. Num campo de refugiados. Na cama deles. Enquanto preparam o jantar para os filhos. Enquanto seguram os irmãozinhos menores. Enquanto andam de bicicleta. Numa incubadora neonatal. Respirando com dificuldade, debaixo dos escombros. Enquanto tentam arrastar um ente querido pelo meio da rua. Enquanto enterram os mortos. Enquanto procuram comida. Enquanto vendem hortaliças. Enquanto nadam no mar, tentando pescar. Enquanto jogam futebol. Enquanto sacodem uma bandeira branca. Com as mãos erguidas em sinal de rendição. Com as mãos atadas. Enquanto fogem. Num posto de controle. Num campo de tortura. Numa zona de segurança. Numa escola. Enquanto levam ajuda humanitária. Enquanto esperam por ajuda humanitária. Enquanto fazem cirurgias. Enquanto estão sentados numa cadeira. Por meio de drones, a uma distância segura. Ao vivo. Longe da vista.”


          “(...) Imagino o chofer do carro de luxo que a leva rapidamente para todos os lugares. Imagino um escritório, um andar de escritórios cheios de assistentes, de secretárias e dos adereços humanos que acompanham o poder institucional: o café que surge num passe de mágica, as missivas que são ditadas, os pequenos incômodos da vida cotidiana que são resolvidos por uma falange de subordinados, tudo para que essa mulher, que é, ao mesmo tempo, incrivelmente importante e completamente substituível, possa ser conduzida por salões amplos, sentar-se a uma enorme mesa curvilínea à frente da placa que diz ESTADOS UNIDOS e erguer a mão, como instruída, para vetar uma resolução ineficaz que clama pelo fim do genocídio.
          Imagino a quietude no interior daquele carro de luxo, antes e depois de essa mulher seguir as ordens que precisou seguir. Será que, no silêncio desses instantes, vendo passar pela janela a nojenta irrelevância do cotidiano, ela se questiona, ainda que brevemente, se essa é mesmo a vida que sempre quis?
          Então assisto a uma entrevista com uma criança palestina que, indagada acerca do que mais sente falta, responde: ‘Pão.’”


          “Na segunda semana de fevereiro de 2024, o corpo em decomposição de uma menina de cinco anos chamada Hind Rajab, assassinada pelo exército israelense, é achado dentro de um carro, com o resto da sua família, ao lado da ambulância calcinada que fora enviada para resgatá-los. Mais tarde, uma investigação independente descobrirá 355 buracos de tiro no carro em que Hind estava. Mas, antes disso, a história é retratada nos meios de comunicação como um caso de pessoa desaparecida, como se a menina tivesse ido caminhar por aí até deixar de existir.
          Ela pedira ajuda. Havia pegado o telefone e implorado por socorro. Chorou, disse que havia se urinado. Tinha apenas cinco anos.
          Que palavra descreve o que ela sentiu? Porque, do outro lado do mundo, muitos dos que celebraram o assassinato de Hind acordarão pela manhã e dirão que também têm medo. Mas, se esses dois medos se equivalem e se compensam, é porque a palavra ‘medo’ já não quer dizer nada, assim como já não querem dizer nada os sistemas e os modos de vida que compactuam com isso.”


“Para preservar os valores do mundo civilizado, será necessário atear fogo a uma biblioteca. Incendiar uma mesquita. Incinerar um bosque de oliveiras. Vestir-se com a lingerie de mulheres que fugiram e tirar fotos. Arrasar as universidades. Pilhar as joias, a arte, os bancos, a comida. Prender crianças porque estão colhendo frutos. Alvejar crianças porque estão atirando pedras. Fazer os detidos marcharem apenas de roupas íntimas. Quebrar os dentes de um homem e enfiar-lhe na boca uma escova de vaso sanitário. Soltar os cães de combate num homem com síndrome de Down e abandoná-lo para morrer. Caso contrário, o mundo incivilizado poderá vencer.”


“Eu queria poder voltar a me preocupar com a Lua. Muitos dos meus autores preferidos parecem estar preocupados com ela. Muito da literatura que eu prefiro aponta para o belo. E, no entanto, qualquer um que realmente aprecie o belo terá de admitir, e até de exclamar, que nenhuma descrição da Lua, por mais deslumbrante e verossímil que seja, poderá devolver ao mundo uma beleza tão grande quanto a que é roubada quando um míssil arrasa uma família na sua própria residência.”


“O que os poderosos supõem, em última instância, é que todo mundo que não tenha sido diretamente afetado por tal situação, todo mundo que tenha tido de suportar apenas a inconveniência de ouvir falar sobre essas mortes à distância, conseguirá tocar a vida e se esquecer disso. Amanhã, mais palestinos morrerão, mas, nos locais onde as bombas são construídas, nos locais de onde elas são lançadas, isso não afetará as hipotecas, os boletos, a taxa de desemprego. Com efeito, em muitos desses locais, o que poderia provocar um efeito econômico perceptível seria a cessação dessas bombas. Nos círculos sociais e profissionais, haverá pouca tolerância para que se fale sobre os sofrimentos de um povo qualquer com ares de exótico e perigoso. No contexto do benefício próprio — talvez o único contexto que exista —, será considerado uma insanidade arriscar sua posição de conforto para defender um povo que nada tem para oferecer em troca. Amanhã, mais palestinos morrerão, e o que ninguém fala é que está tudo bem, porque é isso o que as pessoas fazem, elas morrem.”


          “Um dia, haverá um acerto de contas, ainda que, com impressionante frequência, permita-se aos sujeitos que cometeram as piores atrocidades nos campos de extermínio retornarem ao convívio da sociedade educada. O homem que meteu uma bala na cabeça de uma garotinha talvez volte a ser treinador em alguma liga esportiva infantil. Os guardas que abriram fogo contra civis famintos talvez se reúnam, de vez em quando, para fazer noitadas de caraoquê ou celebrar sua própria barbárie enquanto for aceitável fazê-lo, mas, com o passar dos anos, ficarão cada vez mais calados, até que, no fim, tenham de confinar sua irmandade a um silêncio sepulcral. O soldado que atropelou com seu tanque um cadáver algemado, que escutou o barulho do corpo e o sentiu se romper, talvez, ao voltar para casa, peça em casamento sua namoradinha do tempo de escola, ajoelhado, e talvez tenha filhos com ela. Aqueles que foram capazes de cometer os piores crimes imagináveis talvez recebam um último indulto — afinal, qual seria a alternativa? Ter de olhar nos olhos do vizinho e vislumbrar neles o tipo de mancha que nenhuma penitência jamais seria capaz de lavar? Como conseguiríamos viver dessa maneira? Melhor esquecer.
          Mas algumas pessoas não esquecerão. Algumas pessoas passarão a vida inteira tentando desver o corpo que virou uma massa vermelha, a criança que foi obrigada a comer ração animal, os ossos salientes contra a pele, o lento apagar da vida pelas mãos da fome, o irmão mais velho tendo de dizer ao mais novo que toda a família está morta, as covas perfiladas de improviso na linha do horizonte, como arrepios de pele na superfície da terra. E, para essas pessoas, quando um político discursar sobre a supremacia do direito internacional, dos direitos humanos, da isonomia, tudo o que elas escutarão será o som de gritos.”


          “Vejo gravações de sujeitos que levam seus filhos a uma espécie de festa. Só que não é uma festa, é um bloqueio. Eles estão ali para impedir a passagem dos caminhões que levam ajuda humanitária a Gaza. Mas o ar é festivo. As pessoas que estão do outro lado dos muros morrerão de fome ou terão de ser operadas sem o equipamento médico adequado porque os caminhões não podem passar, e, no entanto, o ar é festivo. Dez anos antes disso, quando vejo gravações de colonos israelenses acomodados em cadeiras dobráveis na encosta das colinas assistindo ao bombardeio em Gaza como quem vai ao cinema assistir ao filme mais badalado do momento, novamente existe um ar de celebração. Vem-me à memória o que disse a atriz Helen Mirren a respeito do tempo que passou em Israel em 1967: ‘Vi árabes sendo expulsos de suas casas em Jerusalém. Mas isso fazia parte da energia extraordinariamente mágica de um país que começava a fincar suas raízes na terra. Que momento incrível para estar lá.’
          Então vejo que o ex-vice-presidente Mike Pence está escrevendo mensagens de apoio ao exército israelense na lateral de bombas. (...) Ele sorri enquanto faz isso, enquanto põe sua assinatura e o que quer que reste de sua consciência numa máquina de assassinato em massa. As pessoas em volta também sorriem. Tiram fotos. Novamente, no meio dessa cena grotesca, existe uma subcorrente catártica, uma leveza comparável à de quem desabotoou a calça depois que comeu demais e fez as pazes com seu apetite insaciável.”


Omar El Akkad
(foto: Kateshia Pendergrass)


“(...) Às vezes, quando converso com meus amigos, alguns dos quais perderam familiares no genocídio, a sensação que tenho é de estar enlouquecendo: poder ver com os próprios olhos a destruição e as filmagens, amplamente disponíveis, das crianças assassinadas, e depois ter de escutar os líderes de praticamente todos os países do Ocidente dizerem que isso é bom, correto e precisa continuar, e que, na verdade, o bem-estar dos palestinos depende disso — é o bastante para deixar qualquer um louco.”


“Além do diário das atrocidades, mantenho outro. O médico palestino que se recusou a abandonar os pacientes, mesmo quando as bombas começaram a cair. O escritor islandês que levantou fundos para retirar de Gaza as pessoas que haviam perdido suas casas. Os médicos e enfermeiros estadunidenses que arriscaram a vida para cuidar dos feridos nos campos de batalha. O criador de marionetes que, mesmo machucado e desalojado, continuou fazendo bonecos para alegrar as crianças. A congressista que se manteve firme diante da censura, das críticas mordazes e da indiferença dos próprios colegas. Os manifestantes que abriram mão de privilégios, do seu trabalho, ou que arriscaram perder alguma coisa só para poder se pronunciar. As pessoas que filmaram e documentaram a tragédia, mesmo enquanto ela acontecia, mesmo enquanto estavam enterrando seus mortos.”


          “Num domingo, em 25 de fevereiro de 2024, um homem chamado Aaron Bushnell caminha até os portões da embaixada israelense em Washington, D.C. e ateia fogo a si mesmo. Suas últimas palavras são: ‘Libertem a Palestina.’
          Momentos antes de morrer, Bushnell fala com mais lucidez e clareza moral do que a maior parte dos políticos ocidentais. Não é pouca coisa minimizar o trabalho de um homem desses, um homem cujo falecimento traz enorme tristeza, não só por causa do ato em si, mas também porque o mundo, com sua morte, perde uma voz rara, que não titubeou ao clamar por justiça.
          No entanto, há quem queira minimizá-lo.
          Num piscar de olhos e sem qualquer comprovação, alguns dos comentaristas que nunca se mostraram tolerantes com as manifestações domésticas fazem circular a ideia de que Bushnel sofria de doenças mentais. Na mentalidade do centrista moderno, para quem todos os atos sociais são compreendidos como transação, a navalha de Ockham exclui quaisquer outras explicações: ninguém vai querer se ferir em prol do outro — você acredita que é capaz de fazer tal coisa, hipoteticamente, é claro, mas somente porque essa crença também é uma transação, tendo por recompensa uma espécie de purificação moral superficial. Quando um liberal de esquerda inconvicto vê alguém — um soldado do exército mais poderoso do mundo — fazer isso fora do campo hipotético, a serviço de princípios concretos e para honrar indivíduos concretos que morreram ou estão morrendo, isso lhe parece uma impossibilidade, tal como dividir por zero. O propósito, o efeito e a lógica de um ato assim são indecifráveis. Quem faz uma coisa dessas ou está enganado ou está mal-intencionado, ou é louco.”


“(...) Ser visto como alguém que acredita na justiça — em vez de realizar o trabalho árduo e cansativo de buscá-la — será o ponto inicial para qualquer conversa que diga respeito à justiça. Ser capaz de dizer os slogans corretos será mais importante do que resolver as questões que estão por trás deles. Faz sentido — quando não existe nenhum risco pessoal, quando os mísseis estão caindo em pessoas muito distantes, ser visto como bom será bom o bastante.”


“No futuro, não será tão controverso usar essas palavras para indicar aquilo que elas foram criadas para indicar. (A própria história da palavra ‘genocídio’, que foi concebida como um mecanismo de prevenção, e não como simples nomenclatura posterior ao fato, está repleta de situações em que os governos mais poderosos do mundo fizeram de tudo para evitar seu uso, porque usá-la implica uma obrigação. Nunca se pensou que o simples ato de chamar algo de genocídio fosse suficiente: é necessário agir.) Quando tivermos o distanciamento adequado, poderemos reagir com a medida correta de indignação diante do que se permitiu acontecer. Por ora, é mais seguro desviar o olhar e baixar a cabeça, sondando de tempos em tempos o equilíbrio da sociedade instruída para saber se ainda é considerado inoportuno dizer em voz alta aquilo que sempre esteve visível à consciência.”


“(...) A verdade é que um aliado do Ocidente está matando civis às dezenas de milhares, e seria inconveniente, do ponto de vista político, chamar isso de errado só agora, depois de tê-lo considerado perfeitamente aceitável por meses, por anos, por décadas. (...) No futuro, haverá um veredito de genocídio. Haverá até mesmo a expedição de mandados. A estrutura do direito internacional, sempre sabotada, trabalhará como se a lei fosse igual para todos. Como se a criminalidade continuasse sendo criminosa até mesmo quando são os poderosos que apoiam, financiam ou cometem os crimes.”


“Em 26 de janeiro de 2024, a Corte Internacional de Justiça determina que Israel seja julgado pelo crime de genocídio. Na sequência, os Estados Unidos, o Canadá, o Reino Unido e outros seis países decidem suspender o financiamento à Agência das Nações Unidas para Assistência aos Refugiados da Palestina [UNRWA, na sigla em inglês], uma das poucas organizações que prestam auxílio humanitário aos palestinos. A decisão supostamente se baseia na alegação de que cerca de uma dúzia dos mais de 30 mil funcionários da UNRWA estaria envolvida com os ataques do Hamas no 7 de Outubro. Uma alegação é prova suficiente. Centenas de milhões de dólares são retidos. Mais pessoas morrerão de fome por causa de uma decisão tomada nos bastidores do poder, muito distante de onde ocorrerão as mortes, por sujeitos que nunca serão responsabilizados por suas atitudes e viverão o resto das suas vidas no mais absoluto conforto. E, caso algum manifestante venha a interromper o jantar deles para lhes mostrar fotografias das crianças que eles ajudaram a matar, isso será considerado uma terrível ofensa. Gente civilizada não deve se comportar de maneira tão rude.”


“(...) é quase revigorante poder encarar o rosto mais feio — e mais sincero — da apatia ocidental, o rosto que conhece muito bem a escala e a gravidade dos horrores, mas que acredita que eles sejam totalmente justificados e necessários. Eu conheço esse rosto. Ele aparece nos talk shows e nos artigos de opinião que dizem, eufemisticamente ou não, que este mundo, que nos permite comprar abacates o ano todo, que produz iPhones cada vez mais poderosos e no qual você nunca precisará ter medo de que uma força ocupadora bombardeie sua família, é o mesmo mundo no qual um grupo de indivíduos insignificantes que você jamais conhecerá precisa morrer. E, ainda que essa equação, agora escancarada, venha a produzir enorme repulsa, muitos sabem se tratar da verdade. Este é o mundo que criamos, no qual uma parcela privilegiada pode dar vazão à sua voracidade, e o resto de nós nada pode fazer senão torcer para não ser comido. É por isso que os países mais poderosos escolhem não tomar as medidas necessárias para impedir o genocídio e, ainda por cima, bombardeiam um dos locais mais pobres do mundo só para manter aberta uma rota marítima. (...) é elucidativo perceber que o poder ocidental precisa servir a uma quantidade considerável de pessoas, as quais, por sua vez, só se importarão com um assunto ou com o sofrimento alheio quando essas coisas afetarem a disponibilidade e a pronta-entrega dos seus bens de consumo e das suas conveniências.”


“Um abismo se abriu nos últimos meses. Não é o único, mas esse é intransponível. De um lado, está uma parcela da sociedade que teme apenas a descontinuação da normalidade. Que acredita que, apesar das atrocidades de cada novo dia, o que realmente importa é viver como se vivia antes, escrevendo e-mails, batendo metas e preservando a produtividade. Do outro lado, está a parcela que, tendo testemunhado as atrocidades, simplesmente não consegue viver como antes. Como poderão viver escutando os gritos e vendo os cadáveres? Diante disso, o que terá importância? O medo de que algum conforto desapareça se choca com outro tipo de medo — o de que uma sociedade como essa, que precisa ignorar tamanha carnificina para criar uma normalidade artificial, seja sociopata por definição. Nas redes sociais, vejo discussões em que alguém sempre pergunta: ‘O que radicalizou você?’ Alguns respondem que foram os muitos episódios de violência estatal em massa, os muitos casos gritantes de injustiça, momentos como este, nos quais se torna claro que existe um abismo enorme entre as declarações vazias de apoio à justiça feitas pelos poderosos e a aplicação da justiça propriamente dita. Mas a palavra ‘radicalizar’ parece-me imprecisa, parece sugerir a existência de um elemento de extremismo, como se sentir raiva diante de uma hipocrisia descarada fosse anormal, quando, na verdade, o anormal é aceitá-la.”


“Existem indivíduos, entre eles gente que já foi importante para mim, com quem pretendo não falar nunca mais, se isso for possível. São aqueles que não se manifestaram, que sabiam perfeitamente o que estava acontecendo, mas não emitiram opinião porque havia um risco pessoal envolvido, o perigo de gritarem com eles ou de serem prejudicados no trabalho. São aqueles que mergulharam no valor soberano da própria segurança e da própria conveniência. Não tenho raiva deles, não sinto frustração nem desapontamento. O que ocorre de minha parte, com relação a eles, é uma espécie de despedida psicológica, um adeus não dito.”


Omar El Akkad
(foto: Kateshia Pendergrass)


          “Mais tarde, assistindo às imagens do protesto, o que me deixa espantado não são as vaias acanhadas da plateia no momento em que os manifestantes tomam o palco, não é nem mesmo o protesto em si — são os indivíduos naquele salão, vários deles envolvidos com a literatura e abertamente solidários a ela, que baixam a cabeça, não dizem nada e somente esperam tudo acabar. Um salão cheio de contadores de histórias, e, de repente, vários deles encontram um motivo em comum para se calar.
          (...)
          Qual é o trabalho da escrita? (...) A bem da verdade, não sei responder, mas sinto que sou obrigado a voltar a essa questão sempre que vejo que alguns dos escritores mais pacatos e reservados que conheço — escritores que sempre considerei obcecados apenas pelo ofício — atuam como os mais expressivos oponentes do genocídio. Enquanto isso, os escritores que, até pouco tempo, faziam um escarcéu a respeito da cultura do cancelamento, da necessidade de escrever ‘fora do seu ponto de vista’, da epidemia de silenciamento que assola o meio literário — esses se calam.
          (...) 
          Uma revista retira a publicação de uma matéria desprezível que parece a versão de um colono israelense do filme Um sonho possível, e uma fila de escritores vem a público condenar o perigo que esse tipo de censura representa para o futuro da literatura. Tudo bem: e quanto ao assassinato de centenas de escritores, poetas e jornalistas palestinos? Que perigo isso representa para o futuro da literatura? (...) Alguns dos escritores menos famosos que conheço — aqueles que precisam fazer todo tipo de bico para pagar as contas — estão pondo suas carreiras literárias em risco para pedir o fim do extermínio de um povo. Enquanto isso, muitos dos escritores mais consagrados ficam calados ou fazem críticas banais sobre o receio de que a arte seja prejudicada com a gritaria de quem se posiciona. A matança está ocorrendo agora, sim, mas, no futuro, haverá tempo para escrever emocionantes histórias sobre o feitio e a cor dos ossos.”


“O bom jornalismo não deve se envolver com esse tipo de coisa. E há jornalismo de altíssima qualidade sendo produzido por aí, apesar das incontáveis deficiências da indústria das notícias. Enquanto escrevo este livro, os repórteres palestinos são, com efeito, a única fonte de informação de que o mundo dispõe sobre a realidade da obliteração de Gaza, sobre a verdade nua e crua das atrocidades, diante de um esforço de propaganda em massa que, a certa altura, contou com a declaração mentirosa do presidente dos Estados Unidos de que ele teria inspecionado fotografias de bebês mortos, e também com a afirmação de que certo aliado do governo estadunidense não teria bombardeado um hospital específico entre os vários hospitais que ele agora bombardeia com regularidade. O custo de se fazer reportagens nessas condições é imenso. Desde julho de 2024, pelo menos 108 jornalistas palestinos foram mortos, segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas. Em nenhum outro lugar do mundo existe uma taxa de mortalidade sequer parecida. Pelo crime de fazer jornalismo de uma maneira que desagrada o governo israelense, Wael Dahdouh, correspondente da Al Jazeera viu sua família ser sumariamente exterminada num ataque de mísseis. No dia seguinte, continuou fazendo reportagens. Então ele próprio foi ferido. Mas segue fazendo reportagens. O fato de que praticamente todas as principais premiações jornalísticas do Ocidente, no que diz respeito à cobertura dessa ofensiva, tenderão a ignorar, de uma maneira ou de outra, o trabalho de indivíduos como Dahdouh — porque temem ser rotuladas como parciais — é a mais clara evidência de que o senso moral da indústria das notícias está avariado.”


“Qualquer instituição que tenha ampla permissão para dispor do silêncio será insaciável. É verdade que a ausência de informação permite a alguns indivíduos — os que são, ao mesmo tempo, coniventes com os malfeitos e imunes a eles — desviarem o olhar. Mas não é só isso: o silêncio se transforma numa tela em branco, na qual se pode pintar qualquer fantasia. Um dia, quando todos os jornalistas palestinos tiverem sido mortos, talvez aconteça que eles nunca tenham existido. Talvez aconteça que eles sempre tenham sido terroristas, ou apoiadores do terrorismo, ou qualquer outra coisa ligada ao terror que seja suficiente para assustar as pessoas — essas pessoas que, de outra maneira, tendo um mínimo de alma, poderiam olhar para assassinatos tão óbvios e dizer: ‘Isso é errado.’ Na ausência de um ato para ser descrito e de uma linguagem para descrevê-lo, somos capazes de não acreditar em nada, ou de acreditar em muitas coisas contraditórias, ou de acreditar em tudo.”


          “Em Toronto, uma manifestação dirige-se ao centro, percorrendo a avenida University, uma das mais icônicas da cidade. Alguém escala os andaimes do lado de fora do hospital Mount Sinai, agitando uma bandeira da Palestina. No outro dia, vários políticos canadenses, entre eles o primeiro-ministro e o prefeito de Toronto, emitem notas de repúdio, acusando os manifestantes de antissemitismo e dizendo que os hospitais são locais sagrados, locais de cura. Talvez os manifestantes realmente fossem antissemitas raivosos que, por algum motivo, acharam que a melhor maneira de expressar seu ódio seria escalar os andaimes do hospital com fantasias de Homem-Aranha.
          Nenhum desses políticos emitiu nota de repúdio para condenar a destruição dos hospitais de Gaza, que, pelo visto, para o Ocidente, não são considerados locais de cura, não são considerados nem mesmo locais. As consequências disso são vistas com muita clareza, nos últimos meses, no aumento das mortes entre médicos, pacientes e civis que buscam abrigo nos não hospitais do não mundo.”


“Nos próximos anos, serão escritas muitas coisas sobre o que aconteceu em Gaza, sobre as atrocidades que vêm sendo documentadas sistematicamente pelos palestinos e descartadas sistematicamente pelo aparelho midiático ocidental. Tal como está, o número de mortos é incontável — dezenas ou centenas de milhares, mais dezenas ou centenas de milhares que permanecem soterrados debaixo dos escombros ou que definharam em razão das doenças e da fome impostas por uma força de ocupação que tenta claramente expulsá-los ou exterminá-los. Nesse caso, quando nomeamos os mortos, quando nomeamos esses mortos em particular, temos costume de destacar o número de crianças fulminadas, porque é entendido que os homens são todos terroristas e que as mulheres, se não o são, poderão gerar outros deles. O liberalismo de esquerda ocidental, seja ele o que for — e não tenho nenhuma definição útil para isso, exceto que se trata de algo, no fundo, negociável, centrado na imagem de um ego magnânimo e ilustrado e na estranha crença de que ter empatia com a luta distante dos oprimidos possa ser compatível com o ato de se beneficiar dos sistemas que os oprimem —, está de acordo com essa matemática. As pessoas vão à Casa Branca para se reunir com o presidente já sabendo de antemão que tudo não passará de uma sessão de fotos e, mesmo assim, na esperança de fazê-lo enxergar a realidade, de fazê-lo tomar uma atitude, uma atitude qualquer, mostram-lhe fotografias de corpos infantis desmembrados. Não funciona. Não há negócio a fazer; essas crianças mortas não têm nada para oferecer em troca.”


          “Talvez haja duas linguagens distintas para descrever a violência cometida contra as vítimas do império e aquela cometida contra as vítimas imperiais. Estas, que fazem parte do império, e por quem choramos, são assassinadas e estão sujeitas aos piores horrores. Seus algozes são chamados de carniceiros, de terroristas, de selvagens. A raiva que todos deveríamos sentir sempre que uma vida inocente é extinta, a sensação esmagadora de que falhamos coletivamente, de que há podridão nas nossas escolhas de vida — tudo isso está presente aqui, como de fato deveria estar.
          Já as vítimas do império nunca são assassinadas. Seus algozes não são carniceiros, não são nada. Essas vítimas não morrem, elas simplesmente deixam de existir. Evaporam-se como névoa.”


          “Um dia, a matança terminará, seja porque os oprimidos finalmente conseguiram se libertar, seja porque haverá tão poucos deles para matar que não fará diferença. Será esperado que esqueçamos tudo, que reconheçamos o que aconteceu, caso seja necessário, mas apenas de maneira inócua e superficial. Muitos de nós farão isso, ainda que apenas coma forma de se proteger psicologicamente. Tanta coisa está viva e tanta coisa está morta graças à benevolência do eterno esquecimento.
          Mas muitos de nós haverão de se lembrar. Às vezes, quando as crianças mortas são as nossas, dizemos: ‘Lembrem-se.’ E talvez pareça, agora, que essas crianças são dos outros, mas isso não existe. O problema de querermos nos deter no abismo onde nosso oponente caiu, enquanto cavamos nosso próprio abismo, é que, no final, a escuridão não permitirá diferenciar uma coisa da outra.”


“Em momentos como este, temos o impulso de apelar para o interesse próprio. Queremos dizer: ‘As atrocidades hoje permitidas por vocês baterão à sua porta um dia.’ Queremos repetir a famosa citação que aponta quem eles vieram buscar primeiro e quem virão buscar depois. Mas esse apelo, na verdade, não tem chance de prosperar. Se essas pessoas, bem servidas por um sistema que tolera a carnificina, realmente acreditassem que tal carnificina pudesse se voltar contra elas, haveriam de derrubar o sistema no mesmo dia. Mas, até que isso acontecesse, o resto de nós já teria morrido.”


“A resistência afirmativa — ir a protestos, falar o que precisa ser dito e fazer o necessário para que as mudanças ocorram até nos níveis mais baixos, como em conselhos escolares e municipais — é importante. No entanto, haverá dias em que tanto a resistência afirmativa quanto a negativa parecerão inúteis. Um sistema que não restringe a compra e o porte de armas ainda que um atirador massacre crianças em salas de aula, um sistema que, quando um regime assassina e esquarteja um jornalista, dá de ombros só porque esse regime controla uma reserva imensa de petróleo, um sistema que não se sensibiliza com imagens de bebês morrendo de fome mesmo tendo o poder de salvá-los — que tipo de resistência será capaz de se impor a um sistema desses? De que serve resistir? Não adianta.”


          “Um dia, isto acabará. Em libertação, em paz ou numa erradicação de magnitude tão devastadora que terá o efeito de zerar a história, de reiniciá-la. Acabará quando as sanções se acumularem numa pilha suficientemente alta, ou quando o preço político da ocupação e do apartheid for insustentável. No fim, quando não restar aos poderosos outra maneira de preservar seus interesses senão por meio da ação, eles tomarão uma atitude. Os mesmos sujeitos que realizaram a matança, que a justificaram e que fizeram vista grossa para ela poderão se parabenizar por enfim terem feito a coisa certa. É muito importante fazer a coisa certa, em algum momento.
          Quando chegar a hora de atribuir culpa, a maioria dos culpados já não estará entre nós. Sempre haverá uma surpresa fingida quanto às atrocidades, no sentido de alegar que não havia como saber o que estava acontecendo. Alguns dirão que tudo foi obra de certos agentes malignos, de figuras que ludibriaram o resto de nós, pessoas de bem. Será feito o que for preciso para ignorar a possibilidade de que o morticínio tenha sido criado não por um sistema desvirtuado, mas por um sistema que funcionou exatamente como pretendido.”


Presentes no livro de ensaios “Um dia todos dirão terem sido contra” (WMF Martins Fontes, 2026), de Omar El Akkad, traduzido por Rodrigo Neves, páginas 17, 30-31, 165, 170-171, 159-160, 89, 118-119, 65-66, 199-200, 62-63, 97-98, 200, 167-168, 130, 32, 99, 131-132, 103-104, 160, 191, 111 a 113, 52-53, 86, 160-161, 32-33, 82, 138, 100, 178-179 e 196-197, respectivamente.




Aforismos de Omar El Akkad em
“Um dia todos dirão terem sido contra”


“A sensação de insignificância é algo que dói de verdade”


“Na maior parte das vezes, o que realmente motiva o ser humano é o receio de que o pior lhe aconteça”


“As leis, as convenções, os códigos morais, a própria realidade: tudo isso existe somente na medida em que é conveniente para a preservação do poder. Do contrário, essas coisas serão, como todas as outras, dispensáveis”


“No final das contas, não existem uma ordenação internacional baseada em leis, direitos humanos universais e igualdade de justiça para todos. O que existe são acordos de conveniência passageiros, nos quais é permitido oferecer, como garantia, qualquer quantidade de matéria humana, desde que isso atenda aos interesses do império”


“Para quem vem de onde viemos, o poder só trocará de mãos das seguintes maneiras: com um assassinato, um golpe de Estado, uma revolução bem-sucedida ou uma revolução fracassada”


“Uma liberdade capaz de torná-lo algo melhor do que aquilo que você nasceu, uma liberdade atrelada a uma igualdade de tratamento irrestrita, com amparo na lei, na ordem e nas normas sociais, uma liberdade para ler, para escrever, para falar sem medo. E, mais do que tudo, uma liberdade para ser deixado em paz”


“Por mais que os partidos tradicionais de esquerda sejam bem menos aloprados e cruéis do que seus oponentes de direita, em praticamente todas as matérias de política pública a realidade é que, no caso do sofrimento palestino — ou, mais precisamente, no caso da completa indiferença a esse sofrimento —, os dois lados parecem estar em total acordo”


“A máquina do Ocidente nunca foi capaz de realizar um autodiagnóstico. Mas quem, depois de alcançar tamanho poder, teria essa capacidade?”


“Quando quem morre é considerado suficientemente humano para que o assunto mereça ser debatido, há debate. Quando é considerado não humano, debater se torna ofensivo, uma afronta à civilidade”


“O ponto inicial da história sempre poderá ser movido para fazer parecer que um lado está sempre provocando e o outro está sempre certo em reagir”


“O jornalismo, na sua essência, é uma das atividades mais militantes que existem”


“Os que foram afetados não precisam ser confortados; eles precisam ter o mesmo que os que estão confortáveis sempre tiveram”


“Teimoso como sou, agarro-me à esperança de que o instinto humano básico de quem se depara com provas de uma injustiça seja opor-se a ela”


“O papel dos ocidentais é avaliar os perigos, e o papel dos demais é ser o perigo”


“A noção de que o povo não tenha capacidade de assimilar a democracia é uma das ferramentas retóricas mais usadas pelos regimes decadentes”


“É uma característica distintiva das sociedades fracassadas (...) essa exigência de que o indivíduo esteja sempre de posse de um motivo válido para existir”


“Experimente viver sob o jugo de uma autoridade que o considera sub-humano, indigno do futuro, e você acabará internalizando a horrível impressão de que o verdadeiro poder é a capacidade de fazer isso com os outros”


“O aparato de violência estatal se beneficia do poder desumanizador não apenas do que é dito, mas também do que é subentendido”


“No caos que precede a aniquilação sistemática, o que importa não é o que o lado tido como mais maligno realmente fez, mas o que se acredita que ele seja capaz de fazer.”


“De que servem as palavras separadas da realidade?”


Aforismos presentes no livro de ensaios “Um dia todos dirão terem sido contra” (WMF Martins Fontes, 2026), de Omar El Akkad, traduzido por Rodrigo Neves, páginas 39, 84, 22, 152, 20-21, 29, 72, 99, 65, 31, 48, 54, 118, 78, 135, 20-21, 22, 84, 46, 28 e 109, respectivamente.

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