sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Oito passagens de Carlos Barbosa no livro de minicontos Obscenas

Carlos Barbosa no lançamento do livro (foto: Sarah Fernandes)


"O homem que lê contempla o mar.
Do alto da torre em que mora.
Enquanto afaga seu barril de amontilado.
O mar, matéria por demais agitada, entontece.
O homem, que lê bem conhece.
Prefere o mar que tem aberto nas mãos.
Encadernado.
Onde costumeiramente mergulha (...)"


"A mulher prepara um cozido (...)
Molho de pimenta reservado.
O copo de cerveja na bancada a lacrimar.
Depois de um gole, a mulher enxuga a testa com o dorso da mão esquerda.
Só então começa a esquartejar o desgraçado."


"Quero uma noite primária e tonta.
Um tempo de mármore para esculpir seu nome.
Um beijo que vibre na varanda, que rompa o lacre da madrugada.
Quero escrever em sua carne branda com meus dentes implantados.
Quero a dor embalada pra presente.
Um dia de inverno no leito rachado de um riacho.
Eu a quero como teto, como janela pro mar.
Um ardil que aprisione nosso áspero odor (...)"


"Bandido prende o cidadão honesto.
Cidadão honesto elege o corrupto.
Corrupto posa de autoridade.
Autoridade se entrega ao capital.
O capital virucida o mundo.
E o mundo aplaude o bandido."


"(...) - Barbosa já morreu.
- Pois é, morreu culpado pela derrota brasileira na final para o Uruguai. Ele mesmo denunciou a pena eterna que lhe aplicaram. Pensava nisto: no gosto brasileiro por penas eternas aos outros e absolvição antecipada a si mesmo (...)"


"Fazia música como um aparelho de ressonância magnética.
Bombou na rede, causou na mídia, rolou shows até no exterior.
Passou a viajar de jatinho.
Decidiu, então, fazer música como turbina de jato em colchão de nuvem.
Fracassou.
Voltou a animar bailinhos na periferia.
Agora faz música tipo escapamento aberto de moto: ronco, estalo e pipoco (...)"


"A certa altura, a moça reivindicou penetrá-lo."


"(...) O amor, meu caro, é um caminho de cortinas que se deve abrir, uma a uma, com interesse de desbravador e sutileza de espadachim."





Presentes no livro de minicontos Obscenas (P55/2015), páginas 08, 03, 43, 29, 41, 15, 21 e 34, respectivamente.


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