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Dizer adeus, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo
Foto: Divulgação | Arte: Mirdad


"Sempre preferi as mulheres às expressões de virilidade em meio aos homens (...) Ainda hoje não troco um corpo de mulher por uma partida de futebol"


"Estávamos na idade do amor ao estranho, da curiosidade pelo mórbido, do prazer pelo insólito. Descortinávamos o mundo e seus segredos. O meio das pernas de Mônica, há pouco, não era mais belo que aquele corpo em agonia. E que de súbito se imobilizou. E a nós três, simultaneamente, à sua volta. Mônica começou a chorar, vítima de uma inesperada compreensão (...) De minha parte, tentei demonstrar calma, controle, uma austeridade que sempre me faltou. Tentei sobretudo aceitar o fato de que nossas vidas nunca mais seriam as mesmas. Foi então que vi a pá ao lado do corpo e compreendi seu uso"


"Sempre é tarde demais na vida para alguma coisa"


"Ela adorou o esqueleto do gato. Ficou ajoelhada diante da arca, os olhos rentes ao tampo escuro, arranhado pelo tempo. Entre os ossos, vermes ainda trafegavam, como numa cidade em miniatura. Consumiam suas últimas porções de carniça, que demoravam a extrair de dobras e curvas brancas, de fendas estreitas, de grutas:
'Gosto disso!', ela disse"


"Só quem escreve, ficção ou crítica, lê Kafka"


"Há uma velha lata de pastilhas, que seu pai manipula enquanto trabalha. Parafusos, porcas, arruelas e pinos a enchem inteira. O oito do trenzinho cria forma. E o menino pergunta: 'O que era esta lata?' 'Pastilhas', o pai responde. 'Que o senhor comprava pra mim?', seus olhos brilham. 'Não, não! Para mim.' O pai se torna outro ao olhar admirado do menino, que, no entanto, só tinha quatro anos. E ele, infeliz, descobre que acabou de nascer, e que o mundo o precede em muito tempo, em atos, objetos, cores e ocasos. Que o mundo vem de muito fundo, de um longínquo quando"


"– O crime é hoje solução para tudo"


"Na sala, a tevê estava ligada, e à sua frente, estirado na poltrona, o homem dormia. Com a mão esquerda, o arrebatei pelo queixo e suspendi sua cabeça, com a direita abri sua garganta. A navalha ficou gotejando, pendente de minha mão. Procurei a mulher. Estava no quarto. Dormia com o corpo descoberto, quase nua, indiferente aos olhares. A mortiça luz do abajur acariciava sua pele. Evitei me demorar sobre sua nudez. Tampei-lhe a boca com força e enfiei o punhal abaixo de seu seio esquerdo. Ela mal abriu os olhos. Mesmo assim julguei ter visto neles certo brilho de compreensão"


"O homem perdeu o emprego no dia anterior e não sabe como dizer isso à mulher. Preferiu sair cedo, como se nada tivesse acontecido. Mas teme, agora, que mais tarde ela telefone para a empresa e descubra tudo. Na verdade, ele sabe que ela vai descobrir, se não hoje, amanhã, se não amanhã, um dia... Os despojos sempre chegam à praia, por mais longe que tenha sido o naufrágio"


"O crime jamais foi esclarecido. Aliás, nada poderia ser afirmado com segurança. Não havia suspeitos, nenhuma pista clara, nenhuma evidência de luta. Nem tampouco qualquer arma foi encontrada. A mata, por sua vez, esquadrinhada de uma ponta a outra, nada confessou. Sobrara o lago, plácido e indiferente como uma vitrine tombada"


"– Ei, você me leva?
O motorista ergueu o rosto e a fitou. Estava quase deitado no banco, com só metade da janela aberta. Aquele era o único veículo no ponto, e ele não estava nem um pouco disposto a se pôr em movimento, mãos no volante, pés em ação, olhar atento na noite. Só não tinha ido embora ainda por preguiça, certo enfado, displicência, apatia, um pouco também de desgosto. Às vezes, voltar para casa é como morrer"



Presentes no livro de contos "Dizer adeus" (Edições K, 2005), de Mayrant Gallo, páginas 26, 28, 95, 13, 10, 117-118, 84, 69, 96-97, 58-59 e 60, respectivamente.

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