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O angolano e o pós-guerra em Os transparentes, de Ondjaki

Ondjaki na Flica 2014
Foto: Egi Santana


"(...) todos os angolanos tinham alguma paranoia com armas ou armamentos, todos tinham um estória para contar que envolvia uma arma, uma pistola, uma granada ou pelo menos uma boa estória que envolvesse um tiro, ou uma rajada de tiros, alguns tinham cicatrizes no corpo, outros atribuíam a cicatrizes várias os impressionantes episódios que efabulavam por força de necessitarem deles,


um modo, digamos assim, coletivo de vivenciar a guerra e os seus episódios, os combates e as suas consequências, mesmo que fosse de ter ouvido falar, ou de se ter escutado na rádio, antigamente, nos dias em que a guerra de facto havia sido um elemento cruel mas banal da realidade e, ainda hoje, dissociar a guerra do quotidiano era quase um pecado


e de arma em arma, de tiro em tiro, de conversa violenta em brutal descrição, o fantasma da guerra circulava livre – em cada canto de Angola, nalgum momento, ainda que fosse nos primeiros instantes das manhãs mais limpas, alguém estaria disposto a sacrificar o seu silêncio para falar, mesmo que implicitamente, de uma qualquer guerra, a sua ou a do vizinho, da sua família ou do enteado que viera de uma província mais sofrida, injetando nos casamentos, nos funerais, nas horas de trabalho, nas danças, nas artes e até no amor, uma quase inata perícia de falar sobre esse monstruoso assunto como quem, suavemente, e sem medo, afagasse o dorso de um monstro raivoso e atormentado por uma falsa paz em aparência de exaustão


assim, no modo de agir, de reagir, de receber os outros e de ir lá fora contar em muitos termos a ferida nacional, o angolano investia grande parte de sua imaginação em lembranças que o mais das vezes não eram suas, ou projetando no passado o que poderia ter acontecido, ou fazendo claríssimas alusões a um futuro que por sorte não aconteceria e, bem revistas as coisas, afinal, em se tratando de tamanha cicatriz social, a verdade é que qualquer um, sem pedir autorização aos demais, podia de facto recorrer à chave mágica da palavra para abrir o gigantesco cofre onde o monstro decidira viver"



Presente no romance "Os transparentes" (Companhia das Letras, 2013), de Ondjaki, páginas 193 a 195.

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