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Pés quentes nas noites frias, de Mayrant Gallo

Mayrant Gallo
Foto: Ricardo Prado | Arte: Mirdad


"Ninguém foge da morte, do tempo, da velhice, tríade de canalhas numa trama que quer, a qualquer custo, o homem (...) Impossível fugir deles. São implacáveis e estão em todas as épocas e todos os lugares. A morte reina absoluta, livre de rivais; o tempo é paciente e pouco se importa se é hoje ou amanhã; e a velhice, velha e exigente costureira, não tem pressa nenhuma de acabar sua rede de rugas. E assim vão vivendo, devastando o homem, que quanto mais foge mais se entrega"


"– Ontem nada, amanhã silêncio"


"A nudez esclarece as pessoas"


"Os fracos pulam de mulher em mulher e acabam exaustos, amargos, cínicos. O sexo é no fundo uma escada rumo ao cinismo"


"O corte no dedo, por sua vez, não deixara marca alguma. Quando o marido, no auge do desejo, o beijava, não percebia nada, nenhuma protuberância que o fizesse parar a carícia e perguntar qual a origem daquela cicatriz. Não, não havia cicatriz. E talvez seja esse o mal do mundo, o apagamento irremediável das cicatrizes"


"Afastada, com a calcinha na mão, Fátima esperava. Seu rosto estava sereno, entorpecido, quase diáfano, como o de um condenado que sabe que já não há mais esperança, que a bala vai entrar em sua cabeça logo, e num segundo a luz de seus olhos vai ser substituída pela escuridão plena, impenetrável"


"Presenciar a miséria humana definitivamente já não sensibiliza mais o homem. Se é que algum dia sensibilizou, de alguma forma. Pelas marcas úmidas da história, é mais racional dizer que presenciar a miséria humana inspirou o homem. Fabricou outras guerras, promoveu outros massacres"


"Jamais se esquece um amor que findou na morte"


"E o amigo sempre acrescentava: 'É o que pode haver de melhor na vida, passear as mãos pelo corpo de uma adolescente que ainda não perdeu dos olhos o mistério que os olhos querem perder a todo custo, na nudez coberta ou na dor sentida'''


"Quando afinal concordou em dormir com ele, não foi na verdade porque o desejasse ou o desejasse apenas aquela noite, mas sim porque dentro de si um incômodo a roía, espécie de fome, de sede, de calor. Estava triste, desanimada, pessimista. Olhava pela janela a cadeia de edifícios e pressentia nas vidraças apagadas o fim melancólico de uma vida de privações e fracassos"


"Assim ele sempre viveu, desde pequeno: entre o amor da mãe e a intolerância do pai, entre a escola e a rua, a bondade e a esperteza. Quantas vezes optou, quantas vezes sofreu, o pensamento colado ao caminho preterido. Agora lhe volta de novo esta dor, de não poder partir e ao mesmo tempo ficar"


"(...) saiu hesitante, fraco e assustado, do abismo de duas bocas que não tinham vontade de falar, muito menos de sorrir no andamento de nenhum tipo de jogo, por mais divertido que fosse. Do abismo de duas bocas que se calavam enfraquecidas, como dois brinquedos quebrados ou sem pilhas nas mãos de crianças incansáveis"



Presentes no livro de contos "Pés quentes nas noites frias" (Funceb-EGBA, 1999), de Mayrant Gallo, páginas 12, 18, 31, 116, 40, 103, 118-119, 133, 116, 70, 30 e 34, respectivamente.

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