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Oito passagens de Aníbal Machado no livro Melhores contos

Aníbal Machado (foto daqui)


"Monjolo se anunciava por um som de sanfona que parecia o gemido constante do fundo do Brasil."


"Com os trinta e seis anos perdidos na Repartição, teria perdido também o dom de viver? (...) Muito próximo se achava ainda desse passado para não lhe receber a influência. A manifestação de despedida fora ontem mesmo. Cobriram-lhe a mesa de flores; saudou-o em nome dos chefes de serviço o diretor mais antigo, seu ex-adversário; falou depois um dos subordinados, estudante de Medicina; por último, uma funcionária, a Adélia, que usava decote largo, se referiu ‘à competência e exemplar austeridade do querido chefe de quem todos se lembrarão com saudade’. Uma menina, filha do arquivista, fez-lhe entrega de uma bengala de castão de ouro, com a data e o nome. E o Ministro mandou um telegrama. (...) Foi só. Estava encerrada a etapa principal e maior de sua vida. (...) Os decênios de trabalho monótono, de ‘austeridade exemplar’ como dizia Adélia, forjaram-lhe uma máscara fria. Atrás dela se escondeu e de si mesmo se perdera. Como fazer desaparecer-lhe os vestígios? Como se reencontrar? (...) Adélia não podia imaginar o que para ele representava a ‘exemplar austeridade’. Adélia jamais saberá o que ocorria na alma do antigo chefe quando os olhos deste passavam como um relâmpago pelo colo branco de sua subordinada; talvez nem ela pressentisse. Austero coisa nenhuma: desajeitado apenas, tímido: gostaria de poder fazer o que censurava nos outros."


"Senhor Juiz, sou engenheiro construtor de pontes. Procuro viver de coisas positivas e, tanto quanto possível, explicáveis. Não cultivo a atração do abismo. E o absurdo me aborrece. Se de meus pais herdei certa tendência para o sonho, eles próprios me preveniam contra as ciladas da imaginação. Também não sou amador de fatos estranhos da vida, posto que sempre aconteçam. Já disse que sou engenheiro e construtor de pontes. Sr. Juiz, há cerca de três meses desembarquei nesta cidade em busca de repouso. Estava esgotado, precisava refazer as forças. Desde criança, ouvira dizer que aqui ventava muito. E o nome deste lugar ficara-me na memória ligado à ideia de vento, como o de outros lugares à ideia de crime ou de tranquilidade colonial."


"Mais do que nunca, sentiu José Maria naquela noite a solidão da casa. Não tinha amigos, não tinha mulher nem amante. E já lera todos os jornais. Havia o telefone, é verdade. Mas ninguém chamava. Lembrava-se que certa vez, há uns quinze anos, aquela fria coisa, pendurada e morta, se aquecera à voz de uma mulher desconhecida. A máquina que apenas servia para recados ao armazém e informações do Ministério, transformara-se então em instrumento de música: adquirira alma, cantava quase. De repente, sem motivo, a voz emudecera. E o aparelho voltou a ser na parede do corredor a aranha de metal, sempre calada. O sussurro da vida, o sangue de suas paixões passavam longe do telefone de Zé Maria... (...) Como vencer a noite que mal começava? (...) Fechou o rádio com desespero, virou dois tragos de vinho do Porto, deitou-se. (...) O telefone toca. Quem será? Quem se lembraria dele? Algum convite? Trote? (...) – Alô, meu bem! (...) – Alô! Aqui fala José Maria. (...) – É engano, proferiu secamente a interlocutora. (...) Era engano! Antes não o fosse. A quem estaria destinada aquela voz carregada de ternura? Preferia que dissesse desaforos, que o xingasse."


"Lá fora o vento guaiava. Era agora um vento de tipo retórico e banal, o que ocorre em toda parte sem a menor afinidade com o outro, que era todo malícia, mocidade, fecundação. A discriminação gratuita entre as duas famílias de vento prendia-se no espírito do engenheiro às impressões deprimentes da chegada. Vestido como estava, dormiu. (...) Acordou antes da cidade. Abriu a janela. No lusco-fusco da madrugada, a cidadezinha era um amontoado triste de casas. Despertada dentro de algumas horas, ela começaria a desprender seus venenos, faria andar seu aparelho de compressão."


"Embora sede de comarca, era tão pequena a cidade que um grito ou gargalhada forte a atravessavam de ponta a ponta. Assim, não seria exagero supor que toda a população se achava reunida ali, àquela hora. (...) Os moleques tinham combinado uma vaia com busca-pés que o perseguisse durante o trajeto até o Hotel. Maltrapilhos e abandonados, brigavam sempre entre si, mas o fato de ter sido um deles a vítima, unia-os agora no ódio comum ao engenheiro. Disso tirou partido o próprio escrivão do crime com uma parcialidade que a população aplaudia, e que o juiz da Comarca, severo, mas sempre alto e distante no desempenho de suas funções, ignorava. (...) De tal juiz se dizia que era bom demais para aquele burgo. Seu vulto, seu saber e dignidade moral, suas nobres maneiras estavam a indicar-lhe o aproveitamento nalgum Tribunal superior, a que presidisse com beca romana e frases latinas. Nunca porém o quiseram elevar àquelas cumeadas. Sempre elogios, jamais a promoção. A política negava justiça a quem melhor a distribuía. Era voz geral que, desgostoso, pedira contagem de tempo para aposentadoria."


"O que mais o espantara no gesto de Duília – recordava-se José Maria durante a insônia, agarrando-se ao travesseiro – foi a gratuidade inexplicável e a absurda pureza. Ela era moça recatada, ele um rapazinho tímido; apenas se namoravam de longe. Mal se conheciam. A procissão subia à ladeira, o canto místico perdia-se no céu de estrelas. De repente, o séquito parou para que as virgens avançassem, e na penumbra de uma árvore, ela dá com o olhar dele fixo em seu colo, parece que teve pena e com simplicidade, abrindo a blusa, lhe disse: – Quer ver? – Ele quase morre de êxtase. Pálidos, ambos, ela ainda repete: – Quer ver mais? – E mostra-lhe o outro seio branco, branco... E fechou calmamente a blusa. E prosseguiu cantando... (...) Só isso. Durou alguns segundos, está durando uma eternidade. Apenas uma vez, depois do acontecimento, avistara Duília. A moça se esquivara. Mas o que ela havia feito estava feito, e era um alumbramento."


"(...) Não pode ser crime dividir com quem quer que seja um entusiasmo maior pela chuva, pelo fogo ou pelas plantas..."



Presentes no livro "Melhores contos" (Global, 2001), de Aníbal Machado, páginas 66, 50-51, 28, 52-53, 22-23, 16 a 18, 62 e 44, respectivamente.

Seleta dos contos

01) Viagem aos seios de Duília
02) O telegrama de Ataxerxes
03) O iniciado do vento
04) Acontecimento em Vila Feliz
05) O defunto inaugural
06) O piano

Comentários

Sarah disse…
Muito bom!

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