quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Olhos abertos no escuro - Trechos do posfácio de Carlos Barbosa

Carlos Barbosa - Foto: Sarah Fernandes


"Mirdad reuniu 30 narrativas para o grand finale de sua contística em Olhos abertos no escuro. Exigente, o autor revisitou seu primeiro livro de contos, Abrupta sede, e se entregou à reescrita de 12 deles, apresentando-os aqui com o aprofundamento e a roupagem que julgou mais adequados ao seu momento autoral. As narrativas que completam o livro aproximam-se do miniconto e do poema em prosa, contribuindo muito para revelar a faceta arrojada do autor, que se expõe e se arrisca em seu construto literário." (p. 258)


"Mirdad demonstra desapego à fórmula de sucesso, está claro. Arrisca em forma e linguagem — se, antes, limpou o fraseado e aprofundou os temas, agora, leva a agilidade narrativa ao espoucar de flashes, ao golpear de esquetes teatrais e o texto ao delírio de gôndolas de supermercado. Cenas de um cotidiano citadino extraídas dessa condição contemporânea de violência, sexo e desorientação psicofilosófica, como em Que seja duro enquanto sempre, Impermanência, Sem dó, A farsa, Fraseando e Brutalistas, isoladamente ou tudo junto e misturado, um típico coquetel de atitudes ferradas, pois ‘longe estão as vozes’." (p. 261)


"Em Botox, o autor fez o mergulho no mundo das aparências e ilusões de poder e glória terrenos, tão valorizados em nosso tempo, revelando truques e tramas traiçoeiros que promovem ascensão e ruína social. Em Sereno aceitar, revelou um reflexo patético de ilusão e aparência no extremo oposto da pirâmide social, com o mesmo objetivo e consequência: ascensão e ruína. (...) Amor e traição, bebidas e drogas, insegurança e solidão, tédio e indignação, sarro e revolta, sexo e medo pontuam os contos de Mirdad. Coisas da nossa contemporaneidade difusa e obscena." (p. 259 e 260)


"De olhos abertos no escuro nem sempre resulta em contagem de carneirinhos. Isso logo me pareceu não ser a praia de Mirdad. Então, pressenti que as narrativas mais curtas deste livro, como nuns versos que escrevi para uma canção, teriam ‘a força de um pulso / batendo / no olho da escuridão’. E não me enganei. (...) O contista se despede nos entregando, a par dos contos mais extensos, minicontos, prosa poética e alguns gritos sedentos, que ninguém é de ferro-gusa nessa casa de Noca, o grande circo da alma serumanizada." (p. 260 e 261)


"Destaco Selvagem por seus quatro exemplares parágrafos. Guerra, sadismo, referências da crônica policial e dos seriados de tevê, descrições precisas, o homem preenchendo sua solidão noturna com a mais inútil das violências, matando a quem não morre. (...) Em Selvagem, como nos melhores momentos dos seus contos, percebe-se o prazer de Mirdad em contar, o gosto pelo detalhe, pela exploração das possibilidades de uma cena e sua entrega à história que pede para ser contada, sem censura, com destemor. Aí está o germe do romancista, acredito." (p. 261 e 263)


"Olhos abertos no escuro encerra a contística de Emmanuel Mirdad, relembro. Raro acontecer de um autor fechar um ciclo de sua obra ainda jovem e com tanta ênfase. Não se trata de uma atitude rimbaudiana, pois outro ciclo, o romanesco, está em preparo. (...) Ao ler seus contos, fico com a impressão de que Mirdad está no caminho certo, aquele apontado por Roger Martin Du Gard, em seu monumental Os Thibault, na voz do professor Jalicourt, aconselhando Jacques, que queria ser romancista: ‘Apresse-se! Vá viver! Não importa como, não importa onde! (...) O mergulho na fossa comum! Nada melhor para limpar a gente. Movimente-se da manhã à noite, não perca um acidente, um suicídio, um processo, um drama mundano (...) Abra os olhos, olhe tudo o que uma civilização arrasta atrás de si, de bom, de mau, o insuspeitado, o ininventável! (...)" (p. 263 e 264)




O escritor e jornalista Carlos Barbosa, autor dos livros Obscenas e Beira de rio, correnteza, entre outros, escreveu o posfácio do livro Olhos abertos no escuro
(Via Litterarum, 2016), de Emmanuel Mirdad,
que será lançado aqui.


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