Pular para o conteúdo principal

Quatro passagens de Márcio Matos no livro Ave Noturna

Márcio Matos (foto: Facebook do autor)


"As cores estremecidas da atmosfera percorriam um século de pequenas partículas de poeira, esfumando discretamente a paisagem. Quando há tempo, há sempre uma remota chance de humanidade, mesmo nos locais mais hostis, onde as pessoas apenas respiram na certeza de que alguém ou algo infinito lhes guarde um futuro glorioso."


"Ao ver o corpo estirado, o coveiro se refestelou. Atirou-se sobre a mulher e abriu a braguilha da calça com agonia. A expiração que vinha dos pulmões subia até a garganta em direção ao ar, alagando narinas e boca como um vômito incontrolável de gás e calor. Estrebuchava feito verme no lodo, o sangue misturado ao suor dos corpos, mas, para a sua sorte, calhou de não haver nenhum sepultamento naquela tarde."


"A incrível sucessão de escusas não tinha fim. Contagiava inocentes úteis, parasitava o raciocínio de pessoas mais lúcidas, avolumava-se na consciência do promotor. Para Prudente, o caso se transformara numa questão de honra. Ele não cederia a conchavos, não se alinharia à multidão. Estavam todos sendo conduzidos numa travessia marítima quase messiânica. Parecia-lhe fatal que terminassem afogados. (...) Sentado na mesa mais afastada do boteco, ele se perdeu em pensamentos implacáveis, típicos de pessoas que se julgam perfeitas e raras. O encontro com aquela criatura impetuosamente escorregadia apenas serviu para exacerbar a sua pedantice, revelando-se-lhe como choque da civilidade contra a mais pura manifestação da malandragem."


"As verduras podres se acumulavam na vala entre o meio-fio e os paralelepípedos, um canto de perfeita exclusão. Quase sem perceber, os transeuntes chutavam as folhas de alface e as laranjas estragadas para a lateral da rua. Gary sentia-se um pouco como aqueles restos. Sabia dos próprios defeitos, da incapacidade de reconhecer excessos e não tinha mais expectativas de acolhimento."





Presente no livro Ave Noturna (Via Litterarum/2015),
páginas 09, 11, 25 e 50-51, respectivamente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

A mesma resenha na versão impressa do jornal aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…