Pular para o conteúdo principal

Oito passagens de Orígenes Lessa no livro Melhores contos

Orígenes Lessa (foto daqui)


"(...) Por que fora tão covarde naquela hora e meia em que os dois corpos, lado a lado, se tinham sentido, chamado, afinal se confundindo no mesmo desejo, na mesma procura, no mesmo encontro? Por que não pronunciara palavra, apenas os corpos se descobrindo, se aconchegando, se contagiando? Por que, depois da longa agitação, o coração aos pulos, têmporas batendo, após o primeiro contato das costas da mão, os braços cruzados, com a pele nua do braço no escuro não fugindo, ao sentir a maciez da carne se entregando aos primeiros movimentos de fingindo não querer, quando os dedos trêmulos foram se atrevendo, não lhe disse uma palavra qualquer, que ela parecia esperar? (...) Os mistérios de um corpo como por milagre ao seu alcance, no incrível encontro inesperado. Um filme, a tela, a treva, música. Medo, sim. Mas gosto maior. E comunhão, entrega, posse... O nome? O rosto? A idade? Não sabia. Um sexo. Ele também, apenas sexo. Os corpos se fundindo, menos os corpos que o desejo comum. Desejo, que seria nela anterior, talvez. Nele nascido sem saber por quem, à eletricidade do primeiro encostar sem pensamento. Desejo sem palavras, afogado no desnorteio, rompendo barreira (...)"


"(...) Vidal sabia, no fundo, que as admirações literárias e artísticas, como as glórias mais incondicionais, são efeito simplesmente da sugestão e do esnobismo. Ele mesmo admirara assim muita gente, forçado a pagar centenas de milhares de francos por obras de arte em que francamente nada via senão a obrigação de ser esnobe, de concordar. Era coisa assinada por Fulano, por Sicrano. Paris dizia que Fulano era gênio. Beltrano clamara, em Roma, que Sicrano compendiava e superava a história da arte. E ele, e os outros conhecedores profissionais se viam forçados ao 'colosso', 'extraordinário', 'genial' e ao desembolso dos pacotes de liras ou de francos. (...)"


"O caboclo, o menino, o seu doutor se entreolharam, como dentro de um pesadelo. Paulo Dinarte, sentado num caixão de querosene, coberto com um cochonilho velho, assento de visita importante, contemplava agora na parede de barro socado, com o esqueleto de varas irregulares todo à mostra, uma Nossa Senhora Aparecida, suja de moscas, brinde de um Elixir Depurativo. Miséria das populações sertanejas! Miséria daquela gente abandonada! Deputado da oposição, trinta passagens por cadeias e presídios, via ali a confirmação viva ou moribunda dos quadros que, na sua exaltação revoltada de moço, descrevia na tribuna aos nobres colegas desinteressados, o pensamento voltado para concessões e negociatas a aderir e louvar, recitar necrológios e votar leis a favor dos amigos."


"(...) Vocês pensam que trabalho é castigo. É por isso que o Brasil não vai adiante."


"(...) Esmagava-o, de novo, insistente e feroz, aquela impressão de solitude. Nunca se sentira tão só, tão à margem da vida. Os homens passavam, as mulheres passavam, os carros passavam. (...) Ele, isolado. Ah! se encontrasse uma voz amiga, um companheiro! Alguém com quem desabafar, com quem gastar as últimas centenas de mil-réis. Nem sabia compreender como gastara tanto, como pusera tanto dinheiro fora. (...) Notava que até aquele momento não tivera com quem falar, não trocara ideias, fechado no seu egoísmo, na febre de gozar, de possuir, no temor de ser roubado. Compreendeu que errara, que fora mau. Só pensara em si. Para a própria família, dera apenas, sem querer, uma pequena parte. (...) Precisava tanto de um companheiro, de um confidente, não conseguia. Pensou, como um refúgio, na outra classe. Ah! se encontrasse algum freguês! Alguém que o acompanhasse, que lhe contasse coisas, que o levasse a lugares desconhecidos, a algum cabaré onde não se atrevia a entrar sozinho. (...)"


"– Tem uma senhora à sua procura.
– Quem é?
– Não disse o nome. Diz que é assunto particular.
– Bonita?
– Não.
– Agora não posso atender. (...)"


"Para o grande público o fato pouco significava. Qualquer indústria de descascador de batatas ou qualquer fábrica de aparelhos para descaroçar azeitonas teria mais interesse que o negócio fúnebre de tratar com os mortos. Quem inventasse um processo para domesticar e ensinar os feijões saltadores mexicanos seria, positivamente, maior que a figura pouco fascinante de um milionário enriquecido pela indústria do enterro. E pouca gente havia lido o pequeno anúncio em que Gladliver procurava desembaraçar-se de suas empresas, obra-prima da discrição e bom gosto. (...) E foi sem dificuldade que conseguiu interessar um grupo de capitalistas - fabricantes de remédios, de automóveis, de bebidas - para fechar a transação rapidamente, complemento natural de seus próprios negócios."


"A cabeça dela pendeu num gesto brusco, seu corpo se movimentou e, de novo, inesperado e macio, seu joelho se aproximou do meu. (...) Como um criminoso, baixei os olhos. Foi quase com remorso que senti, mesmo prejudicada pelo hábito pesado, a beleza redonda do joelho e a linha suave da coxa daquela mulher roubada ao mundo. E como um ladrão noturno - foi o pensamento acusador que tive - dessa vez não retirei o joelho. Estava cometendo um verdadeiro sacrilégio. Abusava do sono inocente de uma pobre irmã de caridade. (...)"





Presentes no livro Melhores contos (Global/2003), páginas 157-158, 106-107, 84, 95, 132-133,
140, 194-195 e 44, respectivamente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

Informações sobre o livro (trechos, release, fotos, crítica, etc.) aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…