domingo, 6 de setembro de 2015

Oito passagens de Orígenes Lessa no livro Melhores contos

Orígenes Lessa (foto daqui)


"(...) Por que fora tão covarde naquela hora e meia em que os dois corpos, lado a lado, se tinham sentido, chamado, afinal se confundindo no mesmo desejo, na mesma procura, no mesmo encontro? Por que não pronunciara palavra, apenas os corpos se descobrindo, se aconchegando, se contagiando? Por que, depois da longa agitação, o coração aos pulos, têmporas batendo, após o primeiro contato das costas da mão, os braços cruzados, com a pele nua do braço no escuro não fugindo, ao sentir a maciez da carne se entregando aos primeiros movimentos de fingindo não querer, quando os dedos trêmulos foram se atrevendo, não lhe disse uma palavra qualquer, que ela parecia esperar? (...) Os mistérios de um corpo como por milagre ao seu alcance, no incrível encontro inesperado. Um filme, a tela, a treva, música. Medo, sim. Mas gosto maior. E comunhão, entrega, posse... O nome? O rosto? A idade? Não sabia. Um sexo. Ele também, apenas sexo. Os corpos se fundindo, menos os corpos que o desejo comum. Desejo, que seria nela anterior, talvez. Nele nascido sem saber por quem, à eletricidade do primeiro encostar sem pensamento. Desejo sem palavras, afogado no desnorteio, rompendo barreira (...)"


"(...) Vidal sabia, no fundo, que as admirações literárias e artísticas, como as glórias mais incondicionais, são efeito simplesmente da sugestão e do esnobismo. Ele mesmo admirara assim muita gente, forçado a pagar centenas de milhares de francos por obras de arte em que francamente nada via senão a obrigação de ser esnobe, de concordar. Era coisa assinada por Fulano, por Sicrano. Paris dizia que Fulano era gênio. Beltrano clamara, em Roma, que Sicrano compendiava e superava a história da arte. E ele, e os outros conhecedores profissionais se viam forçados ao 'colosso', 'extraordinário', 'genial' e ao desembolso dos pacotes de liras ou de francos. (...)"


"O caboclo, o menino, o seu doutor se entreolharam, como dentro de um pesadelo. Paulo Dinarte, sentado num caixão de querosene, coberto com um cochonilho velho, assento de visita importante, contemplava agora na parede de barro socado, com o esqueleto de varas irregulares todo à mostra, uma Nossa Senhora Aparecida, suja de moscas, brinde de um Elixir Depurativo. Miséria das populações sertanejas! Miséria daquela gente abandonada! Deputado da oposição, trinta passagens por cadeias e presídios, via ali a confirmação viva ou moribunda dos quadros que, na sua exaltação revoltada de moço, descrevia na tribuna aos nobres colegas desinteressados, o pensamento voltado para concessões e negociatas a aderir e louvar, recitar necrológios e votar leis a favor dos amigos."


"(...) Vocês pensam que trabalho é castigo. É por isso que o Brasil não vai adiante."


"(...) Esmagava-o, de novo, insistente e feroz, aquela impressão de solitude. Nunca se sentira tão só, tão à margem da vida. Os homens passavam, as mulheres passavam, os carros passavam. (...) Ele, isolado. Ah! se encontrasse uma voz amiga, um companheiro! Alguém com quem desabafar, com quem gastar as últimas centenas de mil-réis. Nem sabia compreender como gastara tanto, como pusera tanto dinheiro fora. (...) Notava que até aquele momento não tivera com quem falar, não trocara ideias, fechado no seu egoísmo, na febre de gozar, de possuir, no temor de ser roubado. Compreendeu que errara, que fora mau. Só pensara em si. Para a própria família, dera apenas, sem querer, uma pequena parte. (...) Precisava tanto de um companheiro, de um confidente, não conseguia. Pensou, como um refúgio, na outra classe. Ah! se encontrasse algum freguês! Alguém que o acompanhasse, que lhe contasse coisas, que o levasse a lugares desconhecidos, a algum cabaré onde não se atrevia a entrar sozinho. (...)"


"– Tem uma senhora à sua procura.
– Quem é?
– Não disse o nome. Diz que é assunto particular.
– Bonita?
– Não.
– Agora não posso atender. (...)"


"Para o grande público o fato pouco significava. Qualquer indústria de descascador de batatas ou qualquer fábrica de aparelhos para descaroçar azeitonas teria mais interesse que o negócio fúnebre de tratar com os mortos. Quem inventasse um processo para domesticar e ensinar os feijões saltadores mexicanos seria, positivamente, maior que a figura pouco fascinante de um milionário enriquecido pela indústria do enterro. E pouca gente havia lido o pequeno anúncio em que Gladliver procurava desembaraçar-se de suas empresas, obra-prima da discrição e bom gosto. (...) E foi sem dificuldade que conseguiu interessar um grupo de capitalistas - fabricantes de remédios, de automóveis, de bebidas - para fechar a transação rapidamente, complemento natural de seus próprios negócios."


"A cabeça dela pendeu num gesto brusco, seu corpo se movimentou e, de novo, inesperado e macio, seu joelho se aproximou do meu. (...) Como um criminoso, baixei os olhos. Foi quase com remorso que senti, mesmo prejudicada pelo hábito pesado, a beleza redonda do joelho e a linha suave da coxa daquela mulher roubada ao mundo. E como um ladrão noturno - foi o pensamento acusador que tive - dessa vez não retirei o joelho. Estava cometendo um verdadeiro sacrilégio. Abusava do sono inocente de uma pobre irmã de caridade. (...)"





Presentes no livro Melhores contos (Global/2003), páginas 157-158, 106-107, 84, 95, 132-133,
140, 194-195 e 44, respectivamente.

Nenhum comentário: