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Oito passagens de J. J. Veiga no livro Melhores contos

J. J. Veiga (foto daqui)


"(...) Quem diz que tudo o que vai acontecendo na vida das pessoas não já aconteceu para elas muito tempo antes, e elas só têm que ir cumprindo as passagens marcadas, sem poderem desobedecer? Pode ser que seja como no cinema: a fita já foi feita, não adianta torcer por um lado nem por outro; a torcida não altera o fim. (...)"


"(...) O louvadeus estava no meio de uma tempestade de vento, dessas que derrubam árvores e arrancam telhados e podem até levantar uma pessoa do chão. Doril era a força que mandava a tempestade e que podia pará-la quando quisesse. Então ele era Deus? Será que as nossas tempestades também são brincadeira? (...) Será que somos pequenos para ele como um gafanhoto é pequeno para nós, ou menores ainda? (...) Qual será o nosso tamanho mesmo, verdadeiro? Doril pensou, comparando as coisas em volta. Seria engraçado se as pessoas fossem criaturinhas miudinhas, vivendo num mundo miudinho, alumiado por um sol do tamanho de uma rodela de confete..."


"– Se eu fosse você não chorava – disse Belmiro alisando Mangarito, Tubi caiu no choro.
– Eu gostava dele.
– Eu sei. Por isso mesmo é que você não deve chorar.
– Eu choro porque sinto falta dele. Nunca mais vou ver ele.
– Aí é que está. Você chora porque está pensando mais é em você. Ele também não vai ver você, e aposto que não está chorando.
– Mas ele morreu. Como é que ia chorar?
– Você tem certeza de que ele morreu? Quem é que garante?
– Então não morreu? Não foi enterrado? – disse Tubi quase indignado.
– Aí é que está. Pare de chorar e enxugue esses olhos que eu vou explicar como é que eu entendo a situação. Para todo mundo ele morreu. Parou de respirar, de mexer, foi enterrado. Isso é o que todo mundo diz. Mas eu acho é que ninguém morre. (...) quem é que sabe qual é o lado dos vivos e qual o dos mortos? Para nós, que estamos do lado de cá, é o lado de lá; mas para eles deve ser o lado de cá. (...)"


"Com o banho ele começou a levantar o rabo, primeiro por ter recuperado um pouco da dignidade, segundo por suspeitar que dentro de pouco haveria mais comida. Quando um cachorro errante é levado para dentro de uma casa e recebe o luxo de um banho, a sequência lógica é um prato de comida. (...) Mas aí começa também a fase difícil das relações entre cão e gente. Como esperava, ele recebeu o seu almoço; e não tendo sido enxotado, interpretou a situação como significando que seria tolerado. Mas pode um cão contentar-se com a simples tolerância? Quando se sente apenas tolerado, um cão de respeito tem dois caminhos a seguir: ou exige atenção, ou vai embora para outro lugar onde possa se impor. A retirada é sempre humilhante, ele sabe que no momento em que vira as costas começou o esquecimento – isso se não acontece o pior: nem percebem que ele se foi; muito tempo depois é que alguém indaga distraidamente, 'é verdade, que fim levou aquele cachorro que andava por aí?' Farejando o ambiente ele percebeu que podia escolher o primeiro caminho com grande possibilidade de êxito."


"– O senhor me desculpe – completou ele – mas eu estou aqui para ajudar, não para distrair. (...) Achei a observação meio fora de propósito, mas pensando na idade do homem resolvi deixá-la passar. Também para ser justo eu devia admitir que ele tinha razão: imagine-se o pobre homem talvez reumático, talvez cardíaco, com a vista falhando, preso atrás do balcão da loja escura, explicando tudo direitinho a cada curioso que entrasse – e sem o direito de irritar-se uma vez ou outra! Tive pena dele por ter escolhido um ramo tão excêntrico, se é que não se viu metido nele contra a vontade. Senti uma necessidade urgente de ser gentil com ele, de não lhe agravar as atribulações. Disse-lhe que embora fosse verdade que eu havia entrado ali por simples curiosidade, isso não queria dizer que eu não pudesse ser cliente um dia, qualidade que ele mesmo me atribuíra momentos antes."


"De calça caseira, paletó de pijama e chinelos, os braços apoiados na mesa ou na poltrona, ele fica olhando para um ponto vago no chão, ou para os pés cruzados sobre os chinelos, uma ameaça de sorriso nos cantos da boca; outras vezes se distrai com um cordão apanhado na loja, enrola-o apertado num dedo para sentir o latejar do sangue represado, desenrola-o, dá-lhe nós pelo prazer de desatá-los, quanto mais apertados melhor; mas nunca esquece o sorriso. Ninguém saberia se o sorriso é indício de algum pensamento maroto ou defesa permanente contra possíveis interpelações da noiva, caso ela o julgasse preocupado, ou aborrecido. (...) Ela já está habituada com o temperamento calado do noivo, mas de vez em quando ainda reclama. (...) – Muda de assunto, Vicente."


"Diante da imponência da estrada, com suas pontes, túneis e trevos, o povo esqueceu a longa espera, herança de pais a filhos, esqueceu os parentes e amigos que haviam morrido sem ver aquele dia, esqueceu as voltas que teve de dar, e agora só cuidava de elogiar o trabalho dos engenheiros, o escrúpulo de não entregarem uma obra feita a três pancadas. Alguém sugeriu a colocação de uma placa na estrada, com os nomes de todos os que haviam trabalhado nela, mas quando se descobriu que não havia oficina capaz de fazer uma placa do tamanho necessário, não se falando na massa de pesquisa que seria preciso para um levantamento completo, as buscas em documentos antigos, a ideia foi abandonada por inviável."


"As visitas achavam aquilo extraordinário, imaginem, o cachorro sente que o dono morreu, está procurando; depois dizem que bicho não tem alma. (...) Seu Belarmino e Balisco. Descobriram que no dia e na hora provável da morte o cachorro acordou de repente e começou a uivar, depois deitou-se debaixo da cama de Seu Belarmino e ficou gemendo baixinho. Não adiantou chamarem, ele não saía. Quiseram tocar com um pau, ele ameaçou morder. Faculdades fantásticas eram atribuídas aos cachorros, aos bichos em geral, e ouvindo todos aqueles depoimentos Tubi lamentava ser apenas gente, uma espécie aparentemente inferior. Cachorro, por exemplo, vê o que gente não vê, ouve o que gente não ouve. (...)"





Presentes no livro Melhores contos (Global, 2000), páginas 137, 96-97, 155-156, 128, 118, 109-110, 124 e 167-168, respectivamente.

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