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Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez, de Tabajara Ruas

Tabajara Ruas
Foto: Divulgação | Arte: Mirdad


“A tapera do cachorro louco me atraía como o perigo, como o pecado, talvez como o mal, seguramente como tudo que os padres carmelitas e os irmãos maristas proibiam e ameaçavam com as profundas do inferno. Era atração sem alarde, sub-reptícia, que me acudia ao vagar solitário depois do almoço, quando mamãe estava no colégio e papai na livraria. Era atração à qual não tinha condições de oferecer resistência, a não ser a do medo. Quando me dava conta estava rondando a tapera, tomado de pressentimentos e emoção, ouvindo os rosnados, os gemidos, a corrente, buscando coragem para galgar a cerca apodrecida”


“Temos o coração em pedaços. Inconscientemente, somos caçadores desses pedaços, buscamos refazer o antigo desenho. Um dia vou achar os pedaços do meu coração fragmentado. Adivinho como ele será: guerreiro, destinado à violência e à misteriosa tristeza. Será a memória daqueles dias da selvagem inocência da juventude, vividos na cidade da fronteira, à beira do rio. Serão os verões, os invernos, a canoa deslizando junto à barranca. A lembrança desses dias será uma pérola, perfeita como o segredo que Juvêncio Gutierrez criara para si, e ficará guardada num cofre fechado na memória. Alguma vez, porém, quando me sentir encurralado pela mediocridade do mundo, e for insuportável sua feiúra, e a solidão apertar com mais força suas garras, permitirei que o cofre se abra lentamente. Dominado por sensação idêntica à de velho monge aproximando-se da sabedoria, então contemplarei a pérola, imaginando, trêmulo, obstinado, esperançoso, o mistério de sua beleza, sempre deslumbrante”


“Fui andando pela casa, desmanchando a claridade que me ofendia e atemorizava, sem dar importância para o som que fluía de algum canto e se espalhava pelas frestas, pelas reentrâncias, pelos desvãos de luz e sombra e que parecia um galope maligno, retumbando em tudo e a tudo marcando de tristeza inconsolável. Era o choro de Ifigênia; o choro encerrado há mais de setenta anos em sua alma a tinha abandonado e agora galopava, horrivelmente real, através da casa, cavalo estrondoso, primitivo e escuro. Beneficiando-se desse fenômeno a casa se entregava ao cavalo. As paredes, o teto, os quadros, os móveis gemiam de tristeza. Ninguém me disse, mas a Morte tinha tocado a casa”


“E então parei diante do rio, quase tocando com os pés a grande lua de setembro. As luzes de Paso de los Libres piscavam na outra margem. Levantei a gola da campeira. Controlando a respiração ainda ofegante, percebendo o suor secar na pele, segurando pelo hábito a vontade de chorar, fiquei olhando os minúsculos reflexos prateados, tentando descobrir a espécie de ser que eu me tornaria; tentando, talvez, descobrir um parâmetro que o moldasse, ou algum consolo, qualquer coisa que me acalmasse os sentimentos exaltados e o medo do futuro. Fiquei ali escutando os grilos, os latidos da cachorrada distante, os infinitos sussurros da água e da noite”


“A angústia atravessou nossa equipe. Recordo o jogo como um mural com figuras patéticas, musculosas, retorcidas, esbravejando contra uma muralha intransponível. É uma imagem tola, mas aquele segundo tempo foi algo parecido: músculos, suor, angústia e barro”


“Amava pisar com as chuteiras o chão de lajes azuis, amava ouvir o estalido das agarradeiras no piso escorregadio, amava a camaradagem fugaz que nos unia quando caminhávamos para o campo num grupo desorganizado, solenes e vaidosos, esfregando as mãos, flexionando as pernas, atentos ao adversário que surgia na outra extremidade do corredor, vindo do fundo escuro do refeitório, com as camisas verdes e a faixa vermelha transversal, falando alto, confiantes, provocadores. Amava a sensação do conflito e a expectativa da mediação de forças aproximando-se e amava o momento em que chegávamos nas arquibancadas e começávamos a descer os degraus de pedra em direção ao campo verde, recém-marcado com cal branca”


“ – Delegado, estive observando o senhor daqui e vi que o senhor não se agacha nem mesmo quando o tiroteio é cerrado, como foi agora há pouco. Por que o senhor procede dessa maneira, por que o senhor não se agacha como os outros?

– Não me agacho porque homem que é homem não se agacha pra bala. Se ela tem que acertar a gente é porque já vem com o nome da gente escrito e aí não adianta se agachar. E além do mais eu tenho de dar exemplo pra minha gente”


“Meu coração rangeu como um motor no limite da força: ali estava meu estranho pai, cismando, consumido por delírios indecifráveis, esperto e eficaz na arte de nos fazer sentir culpados. Estava rodeado pela fumaça azulada do palheiro, queimando lentamente entre seus dedos. Não se mexia e eu me apiedei dele. Era a marca e a vitória de sua doença. Todos temos uma doença escondida, não importam sintomas e nome, mas a natureza da sua era especialmente maligna porque não apenas o fazia sofrer; espalhava, sorrateira, o veneno ardilosamente composto pela sua autocompaixão e impregnava os sentimentos, os objetos, a casa. Imagino se saberia do nosso riso escondido, da nossa aliança secreta, do nosso jovial, cruel desprezo”


“Passou por mim. A água do balde estava vermelha. Apertei meus braços contra o corpo, apoiei a testa na parede, fui saindo devagarinho, me assustando contra a parede, sentindo a testa esfolar, murmurando todas as obscenidades que conhecia, murmurando-as com a disposição de quem agarra uma camisa velha e começa a despedaçá-la com as mãos, metodicamente, em silêncio, sem saber por que o faz, pleno do prazer assustador e frio que era parte daquela dor que só agora conhecia”



Trechos extraídos do romance “Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez” (Record, 2003), de Tabajara Ruas.

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