Pular para o conteúdo principal

Pílulas: Cavalo selvagem, de Eliakin Rufino

Eliakin Rufino (foto: divulgação - interferida por Mirdad)


"toda carta
de amor
é película"


"nosso destino é ser índio
embora todos digam
que nós não somos mais índios
eles pensam que nos educaram
eles acham que nos civilizaram
mas é o contrário

eles nos ensinaram com suas atitudes
que se nós não existíssemos
jamais eles teriam exercitado tanto
seu desejo de matar"


"porque da arte de cantar fiz meu ofício
e me despi das ambições cotidianas
fui posto à parte
na escuridão da margem
...
porque marchei de pé esquerdo
no pelotão dos destros
denunciei a farsa dos fiéis
e a falsidade dos honestos
fui posto à parte
na escuridão da margem
porque povoei de canto
a tecnológica mudez da paisagem"


"de tanto puxarem meu tapete
aprendi a pilotar
tapetes voadores"


"a certeza da morte não assusta
o que virá depois não me faz medo
quero a vida na medida justa
do tamanho do mistério e do segredo
...
a certeza de saber que morrerei
faz a minha vida mais feliz"


"O que é perfeito está morto
Eu quero o falho
O feio
O torto

Quero os pecados da alma
E as imperfeições
Do corpo

Se a pressa
É inimiga da perfeição
É amiga da mudança"


"escasseia a caça
índios morrem
a estrada passa"


Eliakin Rufino
(Valer/2011)


"mostrou o livro pro índio e disse:
eu sou o emissário
o enviado divino

é neste livro que está
teu plano de salvação
a porta do céu é estreita
mas para o inferno há muitas portas

o índio após meditar
disse por fim sabiamente:
aqui não cremos no inferno
e nosso céu não tem portas
essas letrinhas miúdas
pra nós são formigas mortas"


"minha vó me chamou
curumim venha cá
...
não vá esquecer
essa tribo é um rio
o destino é correr

curumim essa terra
nunca nos pertenceu
não é de ninguém
não tem dono nem deus"


"embora polua
a chaminé
tem o seu encanto"


"se não fosse esse mosquito
a floresta virava palha
...
o maior ecologista da amazônia
é o mosquito da malária"


"Depois de percorrer o mapa-múndi
Depois de viver os anos do desbunde
Depois do amor livre e da política das rosas
Depois das vertigens e das rebordosas

Mel agora só se for de abelha
Amor agora só se der prazer
Cobertor só se for de orelha
Pó - só mesmo o pode crer"


"repouso no travesseiro
a cabeça erguida
pelos projetos da vida"


"não aprendi a prudência
que a fábula ensinava
não queria ser formiga
eu queria ser cigarra"

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

A mesma resenha na versão impressa do jornal aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Pílulas: Provérbios, de Mãe Stella de Oxóssi

Mãe Stella de Oxóssi (foto: Iraildes Mascarenhas - interferida por Mirdad)

"Criar desculpas para os próprios atos é a melhor maneira de permanecer no erro"


"Quem está vinculado ao sagrado, não deve mentir em seu nome"


"Fé não se impõe"


"Quem desdenha dos defeitos alheios está exibindo os seus"


"Às vezes se precisa perder pouco, para não perder tudo"


"O caminho espiritual pode ser comunitário, porém é sempre solitário"


Provérbios Mãe Stella de Oxóssi (2007)

"O que o destino disser que é, ninguém terá força para dizer que não é"


"Saber morrer faz parte do saber viver"


"Não é sábio aquele que se acha sabido"


"A presença do 'se' mostra a impossibilidade de realização dos desejos"


O provérbio diz: "Não há Orixá como o estômago, pois recebe sacrifícios diariamente". Mãe Stella de Oxóssi interpreta: "O estômago é como uma divindade, precisa ser respeitado e cuidado"