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Pílulas: Parte 03 - O Grito da Perdiz, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"O amor acontece de repente, de estalo, é um estado de graça, um prêmio que requer do contemplado o zelo de sua guarda e posse e intensidade. Lutar pelo amor, impedir que o amor esmoreça, que a paixão inaugural vire fogo de palha, que as dificuldades normais da vida esvaziem ao invés de unir mais ainda macho e fêmea. Sim, o amor desafia quem ama de verdade a preservar-lhe a permanência — e isso tanto vale para o macho como para a fêmea. Nada de frescuras, de cabeças viradas. Se um homem e uma mulher se gostam hoje, então têm o dever de se gostarem também amanhã, ou pelo menos se esforçar para isso. Só acaba o amor que não há, ou que se disfarça na simples amizade ou na conveniência ou no hábito. Porra, é preciso merecer o amor"


"Aquele perigo maior, a cobra, aquela manifestação de mal supremo, a cobra que se alteia sobre a cauda para picar e matar, queria apenas dizer que ele fora escolhido para viver e sobreviver, brigar e amar e odiar e perdoar conforme a circunstância de seus orgasmos interiores; para durar muito, fertilizar mulheres, gerar filhos; para acumular sabedoria e amolecer o coração na prática da piedade e paciência e tolerância. Talvez porque os elementos e os seres espalhados no bosque de cacaueiros, dissimulados ou tão visíveis que ele não os pôde então enxergar, nele identificassem o amigo, o companheiro, o aliado e o conspirador. Mais que isso: o crente, o peregrino que desde o seu amanhecer retorna cheio de reverência às fontes da vida — e se purifica e se apazigua"


"... como se um homem de coração mole e vontade fraca fosse capaz de esquecer suas doenças e esquisitices para ir cobrar pagamentos de promissórias e extorquir juros de tomadores velhacos. Havia nadado muito para morrer na praia. Além disso a mulher partira antes, deixando-o sozinho e desatinado, sem aquelas rédeas invisíveis que o sofreavam sem ele sentir, sem as esporas invisíveis que lhe triscavam o flanco sem abrir feridas; deixando-o sozinho com o seu controle rígido, tão rígido que não deixava entrever a existência de uma brecha por onde escorreria de repente aquele esforço, aquela continência e abstinência represados"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"O metabolismo de Itabuna vai empurrando para os arredores parcelas de habitantes anônimos, tal como um organismo sente necessidade de criar tumores para expelir substâncias indesejadas e abrir a pele à saída do sangue ruim"


"Ainda bem que a Celestina se imagina cão e sai latindo pela casa. Imaginem se ela entra em transe e jura que viu Nossa Senhora. Ia ser uma tal de romaria por aqui que eu tinha de vender a fazenda pra não ver tanta gente estranha pisando no meu chão, mexendo no que é meu, cheirando o que me pertence. Chegava logo um padre pedindo dinheiro grosso pra construir uma capela no lugar da aparição. Felizmente a menina resolveu virar cachorro, se e que não foi descabaçada dentro dos matos e inventou essa mania pra enganar o pai e as irmãs, ou como penitência"


"Ele no silêncio, no cu do silêncio, ele próprio o silêncio, quebrando sem querer o silêncio, o pesado silêncio que parece significar a respiração subitamente suspensa de um peito estertoroso. O silêncio que se vai despojando do azul quanto mais ele avança e devassa seus esconderijos e distende suas dobras e sente o cheiro ora doce ora apodrecido de suas rotundas intimidades"

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