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Pílulas: Parte 03 - Massacre no Km 13, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"Esta cidade. O aperto. Esta cidade. Seios e traseiros nos altares, nas procissões, nas ladeiras, nas casas de família. Carnes em expansão contínua, cogumelos. Apertadas ou frouxas, balouçantes, tremelicantes, sacudidas, tão desenhadas, abaixo da linha finíssima da cintura, como a parte inferior de certas formigas gordas no inverno. Tanajuras. Esta cidade, um formigueiro espalhado na encosta, fremindo, fremente e fervendo. Madura, quente com o doce e polpudo pomo do verão, um travo de acidez que só encontro nos cajus, nos tamarindos, nas laranjas do Cabula e nas mangas de Itamaracá. O aperto, o aconchego, todo mundo na procissão do sexo, na penitência do sexo, falos ornamentados de roxo e vaginas envolvidas em panos brancos, alvíssimos, entronizados nos altares, carregados nos ombros dos devotos. Esta cidade, a minha cidade. O meu canivete. Todo o meu amor, Bahia"


"Minha filha mais velha na cama com ele, penetrada pelo padrasto. Mas minha gente, meu santo, meu Deus do céu, isso não existe, isso não é coisa que se faça! A gente ouve dizer e não acredita. E, no entanto, agora, agora mesmo, daqui desta cama, eu sei que os corpos do homem e da menina, da menina-moça de peitos ainda nascentes, vão se achatar, se grudar, o homem por cima, aquele homem esmagador, aqueles músculos de granito, aquele aperto de tamanduá"


"Minha casa parece um chiqueiro, e olhem que sou o pai, o chefe de família, o homem que cava a vida, faz dinheiro, garante o sustento. Chego da rua suado, cheio de aperreações, preciso de um banho. A toalha está úmida. Úmida uma ova: encharcada. No sabonete há fios de cabelo (ou pelos de que regiões?) encravados. O chuveiro está entupido, caem apenas fios irregulares de água. Calcinhas penduradas, calcinhas no chão, sutiãs guardam o odor concentrado de suores, corrimentos, excrescências. Merda. As paredes estão encardidas. Na geladeira nem uma fruta. Já comeram a melancia enorme que comprei três dias atrás? E onde está que não vejo o amarrado de cajus? Depois, a mulher ainda reclama se fico até tarde no bar de Carneiro, jogando pôquer de dados e bebendo cerveja. Às vezes tenho a impressão que esta casa não é minha, não me pertence, não foi construída, tijolo a tijolo, com o meu suor. Destroem tudo"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"— Como eu ia dizendo, Do Carmo trazia uns panos que eram pra roupa nova dos meninos. Vinha pelo meio da estrada. De repente, ao sair daquela curva antes do km 13, avistou os garimpeiros e, medrosa, de olhos baixos, como convém a mulher casada, começou a caminhar pela valeta. Mesmo assim, um garimpeiro puxou-a pelo braço. Ela se soltou com um safanão. Adiante, outro arrodeou Do Carmo pela cintura. Aí foi mais difícil ela se livrar.
— E depois? — perguntou Donga.
— Deram uma geral nela, sim senhor.
— O quê?
— Uma geral — eu explico a Donga — é uma porção de homens se servindo de uma só mulher. Botando em todos os buracos. E rindo do choro da infeliz.
— Isso mesmo — diz Ciríaco.
— Arre, que diabo — diz Donga"


"Puxo a coberta sobre os peitos. Fora sussurra o vento. Fecho os olhos que só enxergam o escuro e chamo o sono. Não quero ver ele na cama com a outra, o seu jeito de se atirar sobre a fêmea sem preparativo, cego e certeiro, abrindo o ventre a coices para depois largar no fundo uma multidão de germes"


"Foi um pouco depois, porém, ao visitar uns compadres em Cachoeira, a Heroica, que tive a ideia. Corri numa praça, acho que a da Aclamação, onde tem um chafariz do século passado, um sobrado antigo, enorme; quem sabe se não pertenceu a descendentes do fidalgo lusitano Paulo Dias Adorno, fundador da cidade e construtor da Igreja de Nossa Senhora da Ajuda? Pois o que mais me impressionou no casarão, além de uma escrivaninha com fundo falso, onde o patriarca guardava patacas e patacões, foi na parte de cima, subindo uma escada de madeira rija, os buracos na parede grossa de fortaleza. Não eram redondos, como os do navio, mas quem olhasse por eles via quem passava na praça embaixo e ninguém na praça enxergava o vivente atrás do tal buraco... Enfiados nos buracos da fortaleza do fidalgo, os arcabuzes devem ter cuspido muito fogo. Mandei fazer igual aqui em casa, o pedreiro até que caprichou"

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