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Pílulas: Parte 02 - O Grito da Perdiz, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"A cidade cria ao seu redor anéis de carentes e necessitados que passa a ignorar no justo instante em que confina os humildes fora do seu núcleo"


"Enquanto seu irmão procurava resolver o problema, chegaram a adquirir a certeza de que se conheciam, de que não precisavam de palavras, e olhando-lhe a cara, cabelos e olhos de índio, as maçãs do rosto sempre ruborizadas como se ardessem em febre e os lábios grossos, os ombros curvados e a respiração curta de asmático, seu irmão identificava uma dor e mágoa antigas, que se teriam acumulado em você como pó através de gerações. Sentado numa mesa de bar, com suas roupas baratas e um agasalho de lã afinal comprado numa dessas lojas que promovem liquidações, você dava impressão de um índio civilizado à força, que, com seus silêncios, mostrava quase total indiferença pela cidade e seus desatinados rumores. Da mesa do bar, balançando a perna defronte do irmão também constrangido, você acompanhava as mulheres bonitas passarem pelas calçadas como se fossem elas próprias luzes ambulantes, faróis, cometas de bamboleante cauda. E somente então, seguindo o rastro das mulheres, você acendia nos olhos um brilho menos baço que o de sua inteira pessoa"


"— Sabe que a perdiz na Europa é mais fiel? — disse Cazuza.
— Como assim?
— A união às vezes dura anos. Elas acasalam na primavera. Os casais ficam juntos até o fim do outono, e aí migram.
— Aqui é diferente? — perguntou Pedro.
— Parece que a perdiz fêmea é muito mais safada — disse Cazuza. — Põe ovos nos ninhos de outros machos.
— É mesmo?
— Claro. A poligamia campeia lá entre elas.
Cazuza riu grosso.
— Você parece bem informado sobre perdizes — disse Pedro.
— Experiência — disse Cazuza. — É mais fácil entender de perdizes que entender de mulher.
Fez uma pausa, completou:
— Incluindo a mulher da gente"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"Caminhos são cobras ondulantes, cheios de botes e negaças, de meandros e retas extensões, às vezes largos como estradas reais socadas pelas rodas e cascos e pés e tacões, outras vezes apagando-se no seu débil risco, quais rastros fugazes. Um caminho será sempre um convite; mais que isso: chamado, instigação. Caminhos e rios se parecem: existem para desafiar estados de repouso e indiferença e significam, na sua contínua fluência, a certeza de que as rotas prosseguem para o desconhecido — e assim há de ser, amém"


"No seu estado de desconcentração foi chegando a um ponto de entrega que em lugar de pensamentos punha apenas sensações, como se não houvesse a barreira da pele, o envoltório dos tecidos e o contrapeso das entranhas. Corpo distendido, cabeça esvaziada, Pedro era e estava. Era o cerrado — continuidade de seu calor, de suas fermentações, de suas metamorfoses e podridões, de sua vida em perseverante busca e captura"


"Munidos de seus facões afiados, mais enxadas ou foices ou podões, partiam para os cacauais, para roçar, limpar, colher, embandeirar e quebrar. Serviços que não tinham obrigação de fazer, porque o pai podia pagar, mas que atraíam seu pai, homem nascido ali, habituado ao cheiro da terra e do mato e com reduzido senso prático: enquanto outros maquinavam negócios lucrativos, ele se comprazia em verter o seu suor e em contemplações da natureza"

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