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Pílulas: Parte 04 - Estranhos e Assustados, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"Às vezes o homem obstinado aparecia de calção à porta da rua — e quando os olhares convergiam para si, quando homens e mulheres cessavam os afazeres em suas casas e se punham a olhá-lo em muda indolência, ele entrava no rio, nadava até o meio da correnteza e ali opunha o peito, como um dique, ao ímpeto da enchente; e, meia-hora depois, retrocedia à ribanceira, encarava homens e mulheres e lhes dizia, apontando o rio: — Nem ele nem eu"


"O demônio da solidão, porque até nas maiores calmarias ele reina, senhor absoluto da terra, atingia-o em cheio. Ai, ai, ai, queria gemer e sentia vergonha do vexame. Era mesmo o pior dos homens, a quem faltava companhia subserviente de cães, mas detestava bichos e gentes que a ele se apegassem, dispostos ao naufrágio conjunto. Ai, me larguem, costumava pensar, e ria da bravata. Me deixem afundar sozinho, que me recuso a levar mais remorsos"


"Viu que o rosto dele enrijecia, os lábios se contraíam, de súbito lívidos pelo assomo da angústia. Insistiu: “Temos visitas”. A mão esquerda sobre o peito sugeria penitência, embora já no desempenho da parte mais pesada da recepção: oferecer o melhor cômodo e as melhores camas, os mais alvos lençóis, cozinhar e servir pratos de resistência, bem temperados, bem apresentados. Um longo aborrecimento"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"Distâncias. Aqui no sul da Bahia as distâncias se desdobram, parecem virgens, escondem segredos a descobrir sob os panos das névoas ou sob o brilho ofuscante do sol — ou ainda sob o crepe da noite baixa"


"Partiu com o ar de quem concentrara o orgulho na fuga longamente premeditada ... Adamastor não voltou nem mesmo quando lhe mandaram dizer que o pai, lavrando um tronco de vinhático na mata, enterrara o fio do machado no pé, cortara uma das veias inchadas e azuis. E não demonstrara maior emoção, a não ser por uma fugidia palidez que lhe banhou o rosto, ao lhe dizerem que o pai perdera muito sangue e conseguira chegar por um milagre de força e obstinação à casa mais próxima, onde lhe apertaram um pano sobre a veia e lhe estancaram o líquido quase negro e grosso que borbulhava no seu corpo pequeno e enrugado, querendo sair todo pela ferida aberta a fim de empapar a terra e se pacificar; via-se a cicatriz no pé que ele fazia girar à volta do tamborete. Uniu os beiços como se fosse soltar um assovio, mas não emitiu som algum. Por fim, fixando o olhar nos punhos da rede que se esticavam nas argolas, comentou: — Adamastor está ganhando bem"


"De onde estava, da janela em que me havia debruçado para saudar o dia, eu avistava Aparecida. Diante dela e à minha frente o mar parecia remansoso, exausto, como se acabasse de parir com dores: o suor lhe vinha sob forma de espuma escura que ele depositava, fervente, na areia. Parada, mão na boca, Aparecida era um instantâneo fotográfico de alguém colhido à beira do pânico ou do pântano"

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