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Pílulas: Parte 01 - Noites Vivas, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"Que é, afinal, um filho?, pergunto à minha braguilha, à cinza do meu cigarro. Um filho, me responde o remoto suco que percorre minhas glândulas, é apenas uma manifestação de orgulho. Nele pretendes realizar o que quiseste ser, mas não foste e que nunca serás. Um filho é uma clamorosa inutilidade. Pões nele o egoísmo de uma permanência na face da Terra, mas dia virá em que ele te olhará de frente e perguntará: por que nasci? Ou, então, concluirá irritado: afinal, eu não pedi para nascer. E assim ele condenará a tua e a sua inutilidade"


"Eu sempre considerei o mar ótimo interlocutor, porque me ouve com paciência, de quando em quando me dá trela. Em geral, confio minhas mágoas ao mar, ele me ouve calado e arqueia o dorso em sinal de solidariedade. Os interlocutores humanos ouvem apenas suas vozes interiores, nos atropelam e fazem ouvidos de mercador quando queremos interpelar. Não permitem, também, orações intercaladas"


"Sou um estranho no lugar ainda pequeno, o forasteiro que chega para fechar negócio escuso, visitar parentes, roubar mulher moça, talvez matar um velho inimigo a tiros. Comércio apagado, disperso, sobretudo durante as horas de forte incidência do sol. Uma praça em que o sol projeta no cimento sombras raquíticas de árvores enfezadas; casas grudadas entre si, na mesma imaginação pobre de uma porta e duas janelas, como se servissem de amparo para continuar de pé, na guarda do sigilo de homens e mulheres enfurnados ... Se eu quiser atrair ainda mais a novidade dessa gente, não pedirei informações. Depois de errar uma hora por becos e ruelas, traçando um círculo e alargando-o em volta da praça, darei com a casa de Justino de Palestina, tão certo quanto já prenuncio meus gestos ao chegar: primeiro, arrastar os sapatos no cimento, para me livrar de alguma provável bosta de boi, em seguida bater palmas. Pena que as poucas pessoas surpreendidas às portas e janelas já me estejam olhando demais, com tal fixidez que me transformam, de súbito, em comparsa de mim mesmo, dando-me a consciência aguda dos mínimos gestos, movimentos e vacilações. Decido ir logo à farmácia para orientar-me com o compadre de Justino. Em meia hora de conversa ficarei sabendo, com certeza, o que já sei, mas a experiência me ensinou que as interpretações pessoais dos fatos são mais ricas — quase sempre mais verdadeiras — que os fatos na sua corriqueira rotina humana"


"Tenho o coração disposto a aceitar tudo, não por inclinação à harmonia, senão por tédio à controvérsia"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"Investir tempo e amor em estudante pobre é investir nas cotações mais ínfimas da pobreza"


"Todas as mulheres possuem no baixo-ventre, na região das virilhas, a conveniência de um talho por onde os seus filhos costumam sair espremidos como a cabeça de um tumor e receber o primeiro choque da vida, que é a claridade. Por que este demora tanto? Teria crescido desmesuradamente ou, na ânsia da libertação final, inteiriçou braços e pernas, enovelou-se à porta do seu conduto?"


"Pode seguir o trilho do bonde, preferir a Baixa dos Sapateiros, subir o Pelourinho, alcançar a Sé. A cidade é íntima, aconchegante. Se desaba uma chuva, uma pancada comum nos prolongamentos do verão, todos correm para as marquises, ali se misturam estudantes, moças do comércio e homens que transformam os braços em cabides de guarda-chuvas novos, oferecendo a mercadoria em redor; vendedores de pentes, lâminas de barbear e pornografias, mulheres de pequenos industriais, fregueses de gravata que aproveitam o contratempo para manusear discos, peças de fazenda, objetos de louça. Todos unidos, apertados, a sexualidade grupal da cidade descontraída ... quando a chuva parar, debruçar-se simplesmente nas amuradas junto do Elevador Lacerda, estender a vista para a cidade que, no sopé da montanha, coleia — uma sujeira de telhados engastada na oferta do mar verde-garrafa"


"O fato é que, quando entrei de novo em casa, iam adiantados os preparativos para a noite de sono. Meus irmãos já se haviam recolhido aos seus quartos; apenas uma lamparina de globo enfumaçado ardia na varanda, criando ao seu redor, na escuridão circunjacente, um halo de luz semelhante ao de um farol fixo que assinala no ermo a solidão de uma alma ou o convívio aconchegante de criaturas humanas"

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