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Pílulas: Parte 03 - Noites Vivas, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"Descemos à porta da igreja, importantes e solenes como homens que se prezam, e entre os quais destoava a languidez da noiva, ausente e meditativa como uma testemunha indiferente, não a personagem principal. E assim ela permaneceu durante a rápida cerimônia em que duas criaturas se unem para o bem e o mal, o tempo exato para o padre dizer algumas palavras que não entendemos, para a noiva dar o seu consentimento, mais com um suspiro do que com a voz tirada do solfejo da garganta, e para o noivo enfiar, no dedo da mulher, o anel que os aproxima ou que a partir daquele momento os distancia e os embrutece"


"Certas mulheres, quanto mais finas de casta, mais parecem moles na hora da agonia. A minha é assim. Jamais pude conceber que o seu ventre pequeno e batido, de uma carne esbranquiçada que se arrepia ao contato de minha barba, quando eu ali encosto o ouvido, como se encosta o ouvido à terra a fim de surpreender palpitações germinativas, pudesse preservar, durante nove meses seguidos, a marca de minha contaminação. O parasita que dentro dela se encorpava sugou-lhe a gordura do rosto, o sumo dos olhos, o suco das glândulas, o açúcar do sangue, o mel da boca e a fortaleza escarpada dos peitos, concentrando na barriga, como numa poça de lama, todas as suas efervescências vitais. Meu Deus, pensei, desesperado, é melhor que ela tenha um cão, talvez dois. São mais fáceis e mimosos, e eu gosto muito de cães"


"Quando, numa tarde próxima, ele chegou sem aviso e apeou-se, estando o pai em casa, ela se preparou num frêmito para ser colhida, arrebatada e violada. No desfalecimento daquele instante, sentiu um suco aflorar e espalhar-se como pingos de chuva sobre as pétalas encolhidas de sua protegida flor carnuda. “É agora, ai. É agora”. O Forasteiro amarrou com deliberado vagar o cavalo no moirão. “Vim lhe pedir”, disse. Ela não respondeu. “Vim pedir a sua mão”. “Não quero”"


"Turco, de cauda erguida e modos ariscos, era agarrado pelo pescoço, conduzido a muque até o alpendre onde ciscavam os patinhos. Encarado com sua futura vítima, tornava-se lânguido, arredio, forcejava por escapar. Humilde, encolhido, cara de nojo, todo ele constituía naquele momento uma negativa formal, uma declaração cabisbaixa e contrafeita de inocência ou arrependimento. O patinho lhe era esfregado no focinho. Uma, várias vezes. Turco nem sequer abria os dentes, o faro teimava em não fazer o reconhecimento, as patas recuavam no chão de terra dura, procurando firmeza para escapar. Esforços vãos: a mulher tinha-o seguro, e bem seguro, o pedaço de couro que lhe pendia da mão prometia dores próximas. “Conheceu, canalha? Isto aqui é um pato. Pato não se come""


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"Gosto de sentir o frio do chão na sola dos pés, gosto de receber na pele dos pés a eletricidade que vem do chão, da terra"


"Vencida a primeira légua, abrandado o coração, o doutor se interessa, faz perguntas, pede detalhes que vou lhe dando com a impressão de que não falo por minha boca, mas através de um pano ou de uma parede, porque a voz, cavada em algum oculto escaninho do peito, sai cava e traz a resignação das coisas irremediáveis"


"Ele agora está na rua, com a certeza de que, depois de meia hora, cansado e infeliz, o colégio o espera, imutável ponto de referência. Pode descer a ladeira quase a pino até o cais de Água de Meninos, fingir que se diverte na feira das frutas que chegam de pequenos lugares do Recôncavo, de portos encravados em ocultas angras do recortado mar interno, trazidas no ventre dos saveiros. Laranjas, melancias, abacaxis, cajás, cajus, sapotis, umbus, naturezas mortas arrumadas com displicência em vários cambiantes de vermelho, amarelo e verde, cores agressivas, cores neutras, frutas de polpa lisa, frutas de pele enrugada. Também a cerâmica, também a farinha de Nazaré que parece preservar nos sacos a calidez dos fornos em que foram torradas"


"Tomei-lhe aquela porqueira de faca, ou melhor, ele largou-a sem esforço na minha mão e fez o gesto de se deitar entre os espinhos. Puxei-o por um braço, agora com uma raiva quase cega e um cansaço que rendia a força desesperada dos arrancos finais, e ele, tropeçando, o corpo projetado para frente como a pique de tombar, arrimou-se ao animal. De fôlego curto, respirando pesadamente pela boca aberta, nós, os dois, nos olhamos num arremedo de compreensão que dispensa palavras, afasta gestos inúteis, restabelece conivência"

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