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Pílulas: Parte 02 - Estranhos e Assustados, de Hélio Pólvora

Hélio Pólvora (foto: Vinícius Xavier - interferida por Mirdad)


"Ele trazia a cara de cavalo esticada e impassível, com o jeito orgulhoso de quem decidira voltar — e soubera voltar. Não desviava a cabeça para os lados; olhava à frente, como se no seu entender o mundo se resumisse a uma estrada, uma linha reta traçada para que ele a percorresse com os pés descalços e as botinas penduradas na mão, até que a morte surgisse e o fizesse tombar com o baque pesado de um cavalo — ou de um cedro"


"Ideias tolas previnem emboscadas, muita gente dá cabo de si própria por preguiça ou esquecimento de encompridar e afundar o olhar ... se bem regulado e prestativo, com aquela penetração aguda e instantânea de binóculo, aciona o sobreaviso, prolonga a vida"


"Farejava a morte com o focinho longo, as ventas amplas recolhendo odores de carne deteriorada, nos olhos antes faiscantes um brilho mortiço de velas. Não se enganava; mal a família vertia as primeiras lágrimas, Papa-Mel aparecia na casa. Entrava sem pedir licença, descobria o rosto do morto, com uma satisfação pasmosa, depois fechava-lhe os olhos, sereno e grave, com a ponta do indicado ossudo em que se agigantava a recurva unha negra. Banhava o morto, vestia-o para o sepultamento. Demorava-se o mais possível, um brilho místico nos olhos e um tremor nas mãos, a boca aberta mostrando dentes amarelos e afiados. Acompanhava o enterro de cabeça caída no peito e mãos cruzadas no ventre. As lágrimas, grossas como pingos de chuva, desciam à barba ruiva; entrelaçadas nos fios da baba, teciam cristalina teia. Tornou-se logo sinal de mau augúrio. Quando parava, ou simplesmente rondava a porta de um enfermo, a família benzia-se ... maldições choviam sobre ele, às vezes súplicas ... mas Papa-Mel não saía de perto. Sentado no meio-fio ou numa pedra, esperava o doente morrer. O diagnóstico não falhava nunca"


Hélio Pólvora
(Casarão do Verbo - 2013)


"A maldade se nutre de paciência"


"Porque havia adquirido um miado fino, longo, penetrante como uma punhalada ... Aquele miado sobressaltava, mesmo quando esperado, e feria, juntamente com os tímpanos do homem, os labirintos mais acústicos da noite em que ambos, homem e gato, encalhavam"


"A silenciosa e débil tropa está a caminho, carregada, e no seu desfilar lento, enfumaçado, parece fragmentos de névoa, espectros de almas penadas. Nos traiçoeiros caminhos reais cheios de pontilhões, muito burro despenca na água enlodaçada e tenta sair aos arrancos, aos coices, aos corcoveios. Mas a carga os empurra para baixo. Nesses casos, o tropeiro desce e retira a carga para salvar o animal. Ou em último remédio larga o animal no viscoso aperto da lama"

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