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Pílulas: Parte 03 - A Cabra Vadia, de Nelson Rodrigues

Nelson Gonçalves (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"Já disse e repito: - na "mulher interessante" a beleza é secundária, irrelevante e, mesmo, indesejável. A beleza interessa nos primeiros 15 dias; e morre, em seguida, num insuportável tédio visual. Era preciso que alguém fosse, de mulher em mulher, anunciando: - 'Ser bonita não interessa. Seja interessante.'"


"O leitor, em sua espessa ingenuidade, não imagina, como nós, intelectuais, precisamos de poses. Cada frase nossa, ou gesto, ou palavrão é uma pose e, diria mesmo, um quadro plástico ... as variações do nosso histrionismo chegam ao infinito. Imagino que, ao desdenhar do teatro, o Paulo [Francis] estivesse fazendo apenas uma pose"


"Todos os autores têm suas três ou quatro frases bem-sucedidas. Não sei se me entendem. São frases que adquirem vida própria e que duram mais do que o autor, mais do que o estilo do autor, mais do que as obras completas do autor"


"O pior cego é o marxista brasileiro. Ele nada vê e vê menos ainda o próprio Marx. Aliás, não só o marxista. Todos nós fazemos um Marx que nada tem a ver com o próprio ... O verdadeiro Marx está nas cartas ... Mente-se mais num artigo, num livro, num discurso. Mas as cartas de Marx ... são tão dramáticas que ninguém as comenta ... Gostaria de perguntar aos meus amigos marxistas: - "Que diriam vocês de um sujeito que fosse ao mesmo tempo imperialista, colonialista, racista e genocida?" Pois esse é o Marx de verdade, não o de nossa fantasia ... Para ele, o povo miserável deve ser destruído por ser miserável. Diz: - "povos sem história", "povos anãos", "escórias" ... Por todas as cartas de Marx, não há um vislumbre de amor e só o ódio, o puro ódio. Para ele, há "povos piolhentos", "povos de suínos", "povos de bandidos", que devem ser exterminados. Ele e Engels batem palmas para o imperialismo britânico e norte-americano. Eis o que eu gostaria de notar: - são cartas que Hitler, Himmler, Goebbels assinariam, sem lhes riscar uma vírgula. E os dois têm uma convicção nítida, nítida da superioridade do povo alemão"


Nelson Rodrigues
(Agir - 2007)


"O nosso teatro está cheio de falsos possessos, e repito: - cheio de fragilidades homicidas ... O Teatro de Arena é o que vive da própria pose, da própria ênfase. O mais modesto lá se julga um gênio nato e hereditário ... Os inteligentes ameaçam o teatro brasileiro. Um dia, chamaremos os idiotas para salvá-lo"


"O sujeito nasce, vive, ama e morre na rua. Uma manhã, o Carqueja saiu do hotel; e viu, lá numa esquina, um homem estrebuchando. Eis o que imagina: - "Está morrendo!" Não era fantasia de brasileiro. Estava morrendo. Sempre pensamos que a morte, em qualquer idioma, fosse o acontecimento. Sim, para nós, a morte de um vira-latas tem sua orla de espanto e mistério. Mas Carqueja via, em Calcutá, um homem agonizando. E ninguém parava e, pior, ninguém olhava. Qualquer brasileiro acha o defunto uma figura encantada. E, por isso, o meu amigo não arredou o pé daquela agonia em flor. Por fim, vira-se e diz: - "Morreu." Um outro brasileiro, a seu lado, protestou: - "Não pode ser. Ninguém olha!" Realmente, as pessoas não olhavam, as pessoas apenas passavam, eternamente. No Brasil, quando alguém morre na rua, aparece alguém. Há sempre uma piedade sem nome e sem cara que acende uma vela ao lado do morto"


"Outro dia, cruzei com a minha amiga e grande atriz Cacilda Becker. Ia cumprimentá-la, mas não me atrevi. Como tratá-la? Outrora, eu diria: - "Olá, Cacilda", ou "Bom-dia, Cacilda", ou "Tudo azul, Cacilda?" Sim, houve um tempo em que Cacilda era Cacilda, simplesmente Cacilda e apenas Cacilda. Hoje, tudo mudou. Cada ator, ou atriz, ou autor, ou diretor, ou cenógrafo é um misterioso ser impessoal rumuroso, coletivo. E eu teria que saudar Cacilda assim: - "Olá, Comissão", "Olá, Assembleia", "Olá, Passeata""


"O sujeito pode ser pulha e como tal beber cerveja. Não há incompatibilidade entre o pulha e a cerveja. Mas ninguém pode ser canalha. A simples palavra constrói uma solidão inapelável e eterna. Eis o que eu queria dizer: - o canalha é o pior solitário. Esse destino de solidão é o seu, eternamente ... prometi a mim mesmo não chamar ninguém, jamais, de canalha. Queria-me parecer que é mais puro o sujeito que nasce, vive, envelhece e morre sem usar, contra outro homem, a mais cruel e inapelável das palavras"

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