Pular para o conteúdo principal

Pílulas: O Herói está de Folga, de Dênisson Padilha Filho

Dênisson Padilha Filho (foto: Renata Rocha - interferida por Mirdad)


"Acredito que ela só existiu e sumiu da minha vida pra me ambientar à sucessão de golpes que é a nossa passagem pelo mundo"


"Entre ouvir vozes e chorar baixinho e sem testemunhas; entre contar pra esquecer e esquecer calando, foi seguindo na velha e incessante fuga que todo homem pratica somente pelo fato hediondo e imutável de existir, de viver nesse mundo e amargar, nesse mundo, a sensação inconsolável e irrefutável de um exílio sem fim. Continuou pelos caminhos, com sua velha dor nas costas, sem jamais saber se aquilo era da pisada do cavalo xotão ou se era do peso das mortes. Nunca soube"


"Noite seguinte, quis ter paz, mas não teve; bebeu sua pinga e chorou baixinho, feito um réptil, escondido do mundo ... Dentro da cabeça só choros e o tinir das trelas e cangas dos bois, numa agonia ladeira abaixo, e a família pedindo valência a tudo que era santo. Era só o que escutava, entre um e outro gole de pinga, enquanto buscava não constar na terra, se escondendo. As espáduas doloridas, o lombo moído de tanto peso, suas dezesseis mortes. Choro de criança, gemedeiras, urros; e ele ali, bem quietinho num recanto do mundo, sozinho na noite do meio dos matos, um assassino imperdoável, um desgraçado que só estava ainda sobre a terra porque aprendera a matar e trazer lágrimas a meio mundo de famílias, como aquela que acabara de matar"


Dênisson Padilha Filho
(Kalango - 2014)


"Há quem diga que o homem mais temível e de reação mais improvável é aquele cujos olhos nunca se veem"


"A mesquinhez é incurável"


" - Padre, eu pequei.
- Imagino que sim. Se não, não viria.
- É... sabe? Mas não foi assim, tão simples.
- Também imagino que não, os pecados nunca são simples.
...
- Preciso de conforto, padre.
- Vá em paz.
- E eu rezo o quê?
- As orações são as mesmas; a humanidade já conhece. Reze as que preferir"


"O ônibus começa a andar, e você percebe que a mulher gestante é ela, Ava. Vestida de desgosto, trazendo no bucho o apocalipse. Sua pele está de uma cor cinzenta e pelas frestas entre os passageiros em pé, você vê um relance dos olhos apagados ... Ava foi engolida pela cidade grande, e toda sua luz se foi ... não é mais seu sonho, ela é a marca mais legítima de que a civilização se condenou"

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

Informações sobre o livro (trechos, release, fotos, crítica, etc.) aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…