Pular para o conteúdo principal

Pílulas: Parte 02 - Memórias, de Nelson Rodrigues

Nelson Gonçalves (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"É diante do mar que gosto de tecer as minhas fantasias fúnebres ... Eu sabia mais do que nunca que, um dia, verei todos os mortos da família ... Mas onde, onde os verei? Talvez eu os encontre nas absurdas profundidades marinhas, onde as águas têm frio e sonham"


"No Sanatorinho, aprendi a olhar no fundo da nossa brutal e indefesa fragilidade. Ninguém é forte. Essa vontade de ser chorado geme em nós ... Em 1934, o tuberculoso só era fiel, estritamente fiel, à própria doença ... Eu me lembro como se morria no Sanatorinho. O sujeito mandava chamar a mãe, a mulher, o filho. E não vinha ninguém. O próprio Sanatorinho desaconselhava à família: - "É melhor não vir. Não adianta." E ninguém vinha. Minto. Certa vez, apareceu, lá, a mãe de um garoto. Mas chegou tarde: - o filho já estava enterrado ... Ao voltar para a enfermaria, Simão dizia: - "Vou chamar minha mãe." ... a velha espanhola chegava de vestido preto, magra, uma cara pétrea de dor. Simão não enxergava mais. Com os olhos de cego, pediu: - "A mão, a mão." Apanhou a mão, guardou-a no peito. E, de repente, a sua agonia ficou tão doce, e tão mansa. Quando ele morreu, foi a velha que entrelaçou as mãos do filho, e com que estremecido amor"


"A verdade é que a vocação suicida existe, pré-existe, em qualquer um. Quem não pensou em se matar? ... as pessoas mais serenas, mais equilibradas, têm, de vez em quando, uma brusca e violenta nostalgia da morte. E nem se pense que temos medo da morte. É mentira. Ou por outra: - é um falso medo, um medo induzido por uma série de injunções morais, sociais, religiosas. A verdade é que o nosso cotidiano está cheio de pequenas imprudências, de pequenos vícios, de riscos propositais"


"Roberto levou o tiro ao entrar. Parei com o estampido. E veio, quase ao mesmo tempo, o grito. Não apenas o grito do ferido, mas o grito de quem morre. Não era a dor, era a morte. Ele sabia que ia morrer, eu também sabia ... Roberto caíra de joelhos; crispava as duas mãos na mão que o ferira ... Estava, ali, deitado, certo, certo, de que ia morrer. Pedia só para não ser tocado. Qualquer movimento era uma dor jamais concebida ... Nunca mais me libertei do seu grito. Foi o espanto de ver e de ouvir, foi esse espanto que os outros não sentiram na carne e na alma. E só eu, um dia, hei de morrer abraçado ao grito do meu irmão Roberto"


"Era o último a beijar o meu irmão Roberto ... Não era a primeira vez em que o via chorando. Quando perdeu uma filhinha de oito anos, Dorinha, também rebentara em soluços ... "Papai chora, também chora", eis o que eu pensava. Até então, eu não vira um adulto, homem feito, chorando. E me humilhou que os outros meninos vissem meu pai chorando ... Agora o choro do meu pai não me humilhava. Eu queria que ele chorasse e cada vez mais alto, mais forte, e que todos vissem Mário Rodrigues chorando ... Que bem me fez, que bem ainda me faz, a fragilidade ferida do meu pai. Eu o via, ali, tão órfão do próprio filho"


"Autópsia. Eu vivera uma experiência de reportagem policial. E sabia do martírio de um cadáver, no necrotério. Velhos, moços, meninas, mocinhas, garotos são espantosamente despidos. Ficam tão nus ... não há nudez mais humilhada, mais ofendida, mais ressentida do que a da autópsia. Ah, meu Deus, os nus violados do necrotério. Também vira, nas fotografias dos jornais ... Souza Filho na mesa do necrotério. Não era mais o político, o deputado, o importante. Era apenas e tão somente o cadáver numerado. E me subia, de negras entranhas, uma náusea cruel contra a burocracia hedionda que despe os mortos e exige a autópsia"


Nelson Rodrigues
(Agir - 2009)


"Eis a verdade: - a fome varre, a fome raspa qualquer sentimento forte. O ódio exige boa alimentação, e repito: - para odiar o sujeito precisa de um sanduíche, pelo menos, um sanduíche"


"Nepomuceno dizia uma coisa que marcou toda a minha vida ... - "A Opinião Pública é louca! louca!" Isso dito aos arrancos, me assombrava ... hoje posso dizer que tive várias e patéticas experiências pessoais com a Opinião Pública. O assassinato do meu irmão Roberto ... não havia muito que discutir. Eis a questão: - podia alguém "matar Mário Rodrigues ou um dos seus filhos? Temos direito de matar o filho, ou a filha, ou a mulher do nosso inimigo?" ... a Opinião Pública achava que se podia matar um dos filhos de Mário Rodrigues ... Lembro-me de um jornal que resumia, no título, um Juízo Final: - "Justo Atentado." ... O júri fez o que a Opinião Pública exigia ... absolvição, por uma maioria ... Naquele momento, instalou-se em mim uma certeza, para sempre: - a Opinião Pública é uma doente mental"


"Um ano depois, comecei a ganhar. Eis o meu primeiro ordenado: - duzentos mil-réis. E, então, aconteceu esta coisa prodigiosa: - enquanto não recebi um tostão, era gratíssimo a Roberto. Tinha-lhe afeto: olhava-o como a um irmão. Mas, remunerado, passei a olhar com ressentimento, despeito, o jovem diretor. Foi aí que eu aprendi que os sentimentos fortes, como a ira, como o ódio, a inveja, exigem um salário"


"Irineu Marinho fundara A Noite ... talvez um caso único em toda a história jornalística. Lia-se não por necessidade, mas por amor. Sim. A Noite foi amada por todo um povo. Penso nas noites, de minha infância, em Aldeia Campista. O jornaleiro vinha de porta em porta. Os chefes de família ficavam, de pijama, no portão, na janela, esperando. E lá, longe, o jornaleiro gritava: - "A Noite, A Noite." Ainda vejo um sujeito, encostado num lampião, lendo, à luz de gás, o jornal de Irineu Marinho. Estou certo de que saísse em branco, sem uma linha impressa, todos comprariam A Noite da mesma maneira e por amor"

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O grito do mar na noite no site do jornal Rascunho

Resenha do livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015), publicada no Rascunho #192, de abril de 2016, por Clayton de Souza, disponível para leitura no site do jornal.

Leia aqui

A mesma resenha na versão impressa do jornal aqui

Foto do autor: Sarah Fernandes

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques no livro Da arte das armadilhas

Ana Martins Marques (foto daqui)

Espelho
Ana Martins Marques

                                     d’après e. e. cummings

Nos cacos
do espelho
quebrado
você se
multiplica
há um de
você
em cada
canto
repetido
em cada
caco

Por que
quebrá-
-lo
seria
azar?


--------


Teatro
Ana Martins Marques

Certa noite
você me disse
que eu não tinha
coração

Nessa noite
aberta
como uma estranha flor
expus a todos
meu coração
que não tenho


--------


Penélope
Ana Martins Marques

Teu nome
espaço

meu nome
espera

teu nome
astúcias

meu nome
agulhas

teu nome
nau

meu nome
noite

teu nome
ninguém

meu nome
também


--------


Caçada
Ana Martins Marques

E o que é o amor
senão a pressa
da presa
em prender-se?

A pressa
da presa
em
perder-se


--------


A festa
Ana Martins Marques

Procuramos um lugar
à parte.
Como se estivéssemos
em uma festa
e buscássemos um lugar
afastado
onde pudéssemos
secretamente
nos beijar.
Procuramos um lugar
a salvo
das palavras.

Mas esse
lugar
não há.


--------


"Um dia vou aprender a partir
vou partir
como qu…

Cinco poemas e três passagens de Ana Martins Marques em O livro das semelhanças

Ana Martins Marques (foto: Rodrigo Valente)

Coleção
Ana Martins Marques

                                        Para Maria Esther Maciel

Colecionamos objetos
mas não o espaço
entre os objetos

fotos
mas não o tempo
entre as fotos

selos
mas não
viagens

lepidópteros
mas não
seu voo

garrafas
mas não
a memória da sede

discos
mas nunca
o pequeno intervalo de silêncio
entre duas canções


--------


Ana Martins Marques

Combinamos por fim de nos encontrar
na esquina das nossas ruas
que não se cruzam


--------


Mar
Ana Martins Marques

Ela disse
mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para tr…