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A história decalcada, de Henrique Wagner

Henrique Wagner
Foto: Fabíola | Arte: Mirdad


"É quando mais sofremos
e hesitamos diante de tanta dor
no mundo, por entre os homens,
e por todos os lados e dobradiças da porta,
é quando, enfim, desesperadamente choramos,
que sentimos a presença de Deus.

Como a de um demônio"


"Um muro é sempre o início de uma brecha"


"Parece que lá fora não sou mais
que um mísero passante que não faz
senão buscar as horas em seu pulso.

Parece que o que eu faço é andar atrás
do aluno tão correto que jamais
da escola conseguira ser expulso"


"A dor acende em meus ossos
uma luz de ferrugem e sol nascente
que faz com que eu exista
mais do que desejaria
(...)
Mudar de posição é um recurso
dos mais usados por mim
para mudar o ângulo da dor
ou me sentir menos sozinho"


"Olho muitas vezes pela janela
e sempre vejo mais do meu apartamento
(...)
Não tenho flores ou bichos
e vivo como se amanhã fosse
começar muito depois"


"Será lento e árduo
todo e qualquer movimento
em direção à morte
(...)
E enquanto não se morre
é que se vive a morte"


"Há quem procure
tatuagens em meu corpo.
E quando olham nos meus olhos,
é para ver se estão vermelhos
(...)
Há quem pergunte
se ouço vozes,
na esperança de ouvirem
minha voz dizendo que sim
(...)
Há quem procure outros
internos ao meu redor.
Mas eu já disse, inúmeras vezes,
que eu moro sozinho"


"O menino espera - nada o faz sentir
fome, porque seu buraco
é uma solidão sob o sol
de um belo dia. A cidade é muito grande
e ele espera crescer – mas não sabe"


"Fixo e caminhável,
às vezes recolhido,
às vezes bordejando ao vento;
que eu seja, enfim,
o fruto desdobrável,
a mancha que é rasgada
pelo tempo"


"Os soldados marcham como se não fossem: como se estivessem. Eles sempre estão. Marchar é uma casa. E a qualquer momento o general pode sentar para um cafezinho"



Trechos presentes no livro de poemas "A história decalcada" (Mondrongo, 2014), de Henrique Wagner.

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