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Pílulas: Parte 04 - O Reacionário, de Nelson Rodrigues

Nelson Gonçalves (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"O entendido só não se torna abominável porque o ridículo o salva"


"Um analista não se espanta. Se lhe cair uma bomba atômica na cabeça, dirá, com a maior naturalidade e sem ponto de exclamação: " - Morri.""


"Não há idiota que, aqui ou em qualquer idioma, não explique com a sociedade de consumo todos os mistérios do céu e da terra"


"Um gênio não move uma palha, não ameaça, nem influi. Ninguém morre por um gênio, ninguém mata por um gênio ... Um gênio não convence ninguém, o idiota sim. Ponham um pateta na esquina e deem o caixote ao pateta. Ele trepa no caixote e fala. Imediatamente, outros idiotas vão brotar do asfalto, dos ralos e dos botecos ... o idiota é uma "força da natureza". Ele chove, relampeja, venta e troveja"


"Suporta-se com muito desprazer a glória alheia e, sobretudo, a glória de quem tem metade da vida pela frente"


Nelson Rodrigues
(Agir - 2008)


"Todas as dimensões do brasileiro estão na mais pomposa finalíssima ou na mais franciscana pelada"


"Os estilistas, se é que ainda existem, estão condenados a falar sozinhos. Por outro lado, os escritores, em sua maioria absoluta, estão degradando a inteligência ... Qualquer um sabe que romance, poesia, teatro, cinema, pintura, etc., etc. vivem da obra-prima. São as obras-primas que carregam, nas costas, todas as mediocridades, todas as falsificações, todas as ignomínias artísticas"


"Se são escritores e não fazem literatura, que fazem? Certo crítico aconselhava aos subliteratos: - "Não façam literatura, façam família." E, se os subliteratos já tinham família, retrucava: - "Façam outra." ... Houve o tempo das passeatas. Uma maneira fácil de ser intelectual sem ler uma linha, sem escrever uma linha: - era marchar nas passeatas ... E o romancista se sentia compensado de sua esterilidade romanesca. E o poeta voltava para casa certo de que era um Dante ... Passou, em todos os idiomas, a época do grande romance, da grande peça, da grande poesia. Hoje, quando se quer definir o reles, o idiota, o alienado, diz-se: - "Isso é literatura!""


"Todas as palavras são rigorosamente lindas. Nós que as corrompemos"


"Falta-nos a nobilíssima coragem para confessar, de fronte alta, olho rútilo: - "Eu não leio nada. Só me interessa manchete de jornal" ... O justo, o correto, o exemplar é que assumíssemos a nossa ignorância e a confessássemos, lisamente"

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