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Pílulas: Parte 01 - O Filho Eterno, de Cristovão Tezza

Cristovão Tezza (foto: Divulgação - interferida por Mirdad)


"A primeira criança de um casamento é uma aporrinhação monumental – o intruso exige espaço e atenção, chora demais, não tem horário nem limites, praticamente nenhuma linguagem comum, não controla nada em seu corpo, que vive a borbulhar por conta própria, depende de uma quantidade enorme de objetos (do berço à mamadeira, do funil de plástico às fraldas, milhares delas) até então desconhecidos pelos pais, drena as economias, o tempo, a paciência, a tolerância, sofre males inexplicáveis e intraduzíveis, instaura em torno de si o terror da fragilidade e da ignorância, e afasta, quase que aos pontapés, o pai da mãe"


"O filho é um outro nascimento: ele não pode se separar dele. Todas as palavras que o novo pai recebeu ao longo da vida criaram nele esta escravidão consentida, esse breve mas poderoso imperativo ético que se faz em torno de tão pouca coisa: quem é a criança que está ali? O que temos em comum? O que, afinal, eu escolhi? Como conciliar a ideia fundamental de liberdade individual, que move a fantástica roda do Ocidente, com a selvageria da natureza bruta, que por uma sucessão inextricável de acasos me trouxe agora essa criança?" 


"O nascimento é uma brutalidade natural, a expulsão obscena da criança, o desmantelamento físico da mãe até o último limite da resistência, o peso e a fragilidade da carne viva, o sangue – cria-se um mundo inteiro de signos para ocultar a coisa em si, tosca como uma caverna escura"


"– Nenhuma dúvida. O cariótipo deu mesmo a trissomia do 21.
Pai e mãe são tomados pelo silêncio. É preciso esperar para que a pedra pouse vagarosamente no fundo do lago, enterrando-se mais e mais na areia úmida, no limo e no limbo, é preciso sentir a consistência daquele peso irremovível para todo o sempre, preso na alma, antes de dizer alguma coisa. Monossílabos cabeceantes, teimosos – os olhos não se tocam.
– A gente já sabia.
– Sim"


Cristovão Tezza
(2007/Editora Record)


"Ele apreendeu ali, pela primeira vez, a síndrome dos pais com filho lesado: essa marca no rosto, uma camada subcutânea de tensão, o olhar agudo, aflito e incompleto, sempre com a sombra de uma justificativa na ponta da língua, que às vezes (no início) se derrama num desespero rapidamente controlado, porque a civilização é poderosa"


"Qual era mesmo o seu filho? – aquele ali, mostrou a enfermeira solícita, e ele sorriu diante da criança imóvel, buscando um ponto de convergência ... Uma criança é uma ideia de uma criança, e a ideia que ele tinha era muito boa. Um bom começo. Mas aquela presença era também um nascimento às avessas, porque agora, talvez ele imaginasse, expulso do paraíso, estou do outro lado do balcão – não estou mais em berço esplêndido, não sou eu mais que estou ali, e ele riu, quase bêbado, a garrafinha vazia, inebriado do cigarro que não parava de fumar ... Como quem, prosaicamente, apenas perde um privilégio, o da liberdade" 


"Já viu na enciclopédia que o nome da síndrome se deve a John Langdon Haydon Down (1828-1896), médico inglês. À maneira da melhor ciência do império britânico, descreveu pela primeira vez a síndrome frisando a semelhança da vítima com a expressão facial dos mongóis, lá nos confins da Ásia; daí "mongoloides". Que tipo de mentalidade define uma síndrome pela semelhança com os traços de uma etnia? O homem britânico como medida de todas as coisas. O príncipe Charles, aquela figura apolínea, será o padrão de normalidade racial, e ele começa a rir no escuro, acendendo outro cigarro"

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