terça-feira, 20 de setembro de 2016

Cinco poemas e três passagens de Mônica Menezes no livro Estranhamentos

Mônica Menezes (foto: Sarah Fernandes)


Do tempo
Mônica Menezes

                              Para Íris Hoisel e seu pai

meu avô
é uma cadeira de balanço
vazia


--------


Dos triunfos
Mônica Menezes

sou um fracasso para o sucesso
sou um sucesso para o fracasso

mas, quando eu nasci, o médico disse:
– por pouco.


--------


Poema de areia
Mônica Menezes

escrevi meu destino
na areia da praia
o mar apagou


--------


Relíquia
Mônica Menezes

levarei comigo
o retrato de nós dois
que não tiramos


--------


Semente
Mônica Menezes

quando eu nasci
enterraram meu umbigo
na fazenda do meu avô

os anos passaram
meu avô morreu
retalharam a terra
e eu parti para a cidade

mas até hoje
estou plantada lá
naquele chão vermelho
que nem existe mais


--------


"se eu pudesse
desceria ao seu abismo
para vivermos juntos
a escuridão"


"os pés, as mãos, os joelhos, o nariz
tudo é tão esquisito nela
os polegares pequenos
dificultam o entremear dos fios
o corpo verga-se facilmente
embora os ossos não suportem
que carregue a mala
infantil e invertido
o útero jamais se contrai
mas a criança nasceu
desfazendo a profecia

foi cega, louca, vidente
suicida
um dia, decidiu escrever outras histórias
mais estranhas ainda"


"há uma rosa escarlate
sob meu vestido
e dentro do meu silêncio
mora um grito"





Presentes no livro de poemas Estranhamentos (P55, 2010), páginas 44, 13, 28, 22 e 11, respectivamente, além dos trechos dos poemas De uma carta de amor (p. 34), Esquisita (p. 9)
e Artifício (p. 33), presentes na mesma obra.

Um comentário:

Marta Brasil disse...

Lindo, Monica, sua fã sempre, bj